O reconhecimento

da existência de Seabra

Felipe G. A. Moreira

Universidade de São Paulo1

A pretensão desse ensaio é justificar o que ele faz na prática. Isso é um reconhecimento da existência de Seabra. “Seabra” se refere, não ao Murilo Seabra de carne e osso, mas a uma persona filosófica que ele criou e está presente, por exemplo, em Oftalmopolítica: um problema com a visão da filosofia (Ape’Ku, 2021). A referência de “reconhecimento da existência de Seabra” é a decisão de dialogar com essa persona. Essa é uma decisão política. Afinal, ela tem três propriedades individualmente necessárias e coletivamente suficientes para ser qualificada assim.

A primeira propriedade é a de ter uma importância social significativa ao ser uma decisão tomada na Subversa. Leia-se: um local público e, em princípio, acessível a qualquer um, incluindo, assim, os que se valem de práticas da irrelevância ou da mortificação filosófica vis-à-vis Seabra. Uma prática é da irrelevância vis-à-vis x se e só se ela serve para tornar x praticamente inacessível a um grupo significativo de pessoas. Mais dramaticamente, essa é a prática de tornar x acessível apenas a um grupo muito restrito como o de alguns bêbados num boteco qualquer num interior qualquer de um lugar nenhum qualquer.

Suponha que é preciso decidir se um local deve ser usado para tratar de Seabra ou de uma persona filosófica criada por um renomado do Norte Global. Por exemplo, um que se autorizaria a ficar ofendido com certas alegações de Seabra como “o que os americanos fizeram está para as atrocidades cometidas pelos [nazistas] alemães assim como uma tsunami está para uma marola” (Seabra 2021, p. 257). Optar por tratar de uma persona filosófica do Norte Global e se recusar a sequer mencionar Seabra nesse local exemplifica uma prática de irrelevância em relação a Seabra. Já uma prática é da mortificação filosófica vis-à-vis x se e apenas se ela serve para forçar x a parar de fazer atividades relacionadas à Filosofia, digamos, cortando o financiamento e implicitamente obrigando x a conseguir outras fontes de renda.2

A segunda propriedade do reconhecimento de Seabra que torna essa decisão política é a de levantar disputas. Por exemplo, entre os que acham pertinente esse reconhecimento e os que gostariam que outras decisões, como a seguinte, fossem tomadas: reconhecer a existência de um renomado do Norte Global de um modo que, ao ter as treze características descritas aqui, justifica a atribuição a si do predicado derrogatório “ser ‘sutilmente’ filosoficamente colonizado”. Essa decisão – não só Seabra e eu mas ainda Paulo Margutti, José Crisóstomo de Souza e João de Fernandes Teixeira indicam ser crucial observar – é recorrente ou até mesmo majoritária no Brasil. O mesmo é o caso, Oftalmopolítica e um artigo de Seabra explicitam, acerca da decisão de aferir mais valor ao que é feito por renomados do Norte Global. Por exemplo, sob a base inconsciente que vale mais a pena reconhecer a existência do que é assinado por um autor cujo nome próprio é “Murphy Seaton”; não “Murilo Seabra”, um nome típico de “mestizos”. “Mestizos” no sentido de Seabra (2021, p. 263-264); o de “agentes epistêmicos bastardos” que “não têm o pé firmemente plantado nem no mundo europeu, nem no mundo africano, nem no mundo ameríndio”.

A terceira propriedade que torna o reconhecimento da existência de Seabra político é que essa decisão depende de fatores normativos controversos. Esses dizem respeito ao que deve ser feito; eles parecem inevitavelmente provocar consenso com alguns e dissenso com outros. Isso porque tais fatores sempre podem ser racionalmente rejeitados, de modo que aquele que os rejeita não carece de logos por assim o ter feito. Exemplos de fatores normativos controversos são as justificativas patrimonial, sociológica e consensual. Respectivamente, essas são as de alegar que uma dada decisão é justificada se e apenas se ela beneficia uma pessoa com o qual o agente dessa decisão tem algum tipo de relação sentimental positiva, compartilha uma dada propriedade e atinge total consenso.

Ao menos desde que As raízes do Brasil de 1936 de Sérgio Buarque de Holanda se tornou influente, tem sido recorrente crer que a justificativa patrimonial é mais recorrentemente adotada no Brasil do que nos EUA. Em A tolice da inteligência brasileira de 2015, Jessé de Souza problematiza essa visão. Tendo a concordar com ele. Porém, independentemente dessa concordância ser justificada, mais crucial é ressaltar que não me valho da justificativa patrimonial. Na verdade, suspendo o juízo se o presente texto em algum sentido “beneficia” o Seabra de carne e osso o qual só vi online numa entrevista para o canal, Conversações Filosóficas, ministrado por Caio Souto. Mais: o Seabra de carne e osso – à luz da recorrência da justificativa patrimonial sinto ser preciso ressaltar – não é parente, amigo ou conhecido do autor do presente texto.

No entanto, eu – ou esse último autor – compartilha com o Seabra de carne e osso a propriedade de ser um mestizo, entre outras como as de: portar nacionalidade brasileira; ter atuado em universidades do Brasil; ter uma cor de pele vista como “branca” em alguns, mas não em todos os contextos (Seabra 2021, p.264); achar crucial, como Seabra (2021, p.28) ressalta, problematizar pareceres pretensamente cegos etc.3 Eu ou o autor do presente texto compartilho dessas propriedades com vários outros que criaram personas filosóficas cujas existências não são reconhecidas aqui. Isso significa que não me valho da justificativa sociológica.

Tampouco sustento o reconhecimento da existência de Seabra por meio da justificativa consensual. A razão é que mesmo quando concordamos discordamos. Isso, para colocar de modo menos paraconsistente e para começo de conversa, por conta do seguinte. Eu concordo com Seabra (2021, p.65) quando ele afirma que o “teste último” de subáreas da filosofia como a “ontologia” é “político”. Porém, diferente dele, eu uso o termo "político" num sentido técnico e talvez mais preciso; o daquilo que tem as três mencionadas propriedades individualmente necessárias e coletivamente suficientes para ser chamado de “político”.

Além disso, eu também concordo com Seabra (2021, p.73) quando ele sugere que a distinção entre esquerda e direita é relevante para a filosofia. Porém, diferente dele, eu também entendo essa distinção de modo técnico e talvez mais preciso aqui, onde indico ainda que disputas em filosofia podem ser abordadas à moda direitista ou à moda esquerdista. Mais crucialmente, eu nunca diria que “a marca distintiva da direita é que ela não pensa” (Seabra 2021, p.73). Tendo a crer que alegações como essa tendem a facilitar atribuições injustificadas de carência de logos que estão na base de uma tsunami de atrocidades.

Por fim, eu também concordo com Seabra (2021, p.230) quando ele indica que o conhecimento de certas propriedades de um autor influencia quiçá inconscientemente a apreensão que se tem da sua persona filosófica. Porém, diferente dele, eu nunca falaria de experiências contemporâneas na qual alguém foi “rigoroso demais” com outra pessoa descrita por termos como “mulher”, “negro” ou “homossexual” sem enfatizar alguns pontos. Por exemplo, que aquilo que tenho chamado de “imperialismo de vanguarda” tem propagado mais ou menos diretamente bem como implicitamente pressionado a julgar positivamente – ou, para colocar nos termos de Seabra (2021), dar “cargas positivas” a – obras de certos autores usualmente descritos por ao menos um desses termos cujos sentidos nem sempre são nítidos.

É isso que parece ocorrer, por exemplo, com a obra de uma Sally Haslanger de carne e osso cuja persona filosófica, como já indiquei, não parece particularmente interessada em reconhecer a existência dos que não atuam em Departamentos de Filosofia em países da OTAN ou da AUKUS. Acho, como também já indiquei, que é preciso ter extremo cuidado com o porquê, o como e o quem se vale de predicados derrogatórios como “ser sexista”, “ser racista” ou “ser homofóbico”. Afinal, líderes políticos, como Barack Obama e Hillary Clinton, também se valem desses predicados para toda sorte de propósito.

Não tenho espaço para desenvolver a linha de raciocínio dos últimos três parágrafos. Basta, para os presentes propósitos, afirmar que a justificativa que adoto para reconhecer a existência de Seabra é conflitual: a de alegar que uma decisão é justificada se e só se ela faz parte de uma política da relevância e da vivificação filosófica que procura tornar mais socialmente relevante e facilitar a vivência filosófica dos que fazem e implicitamente auxiliam o agente da decisão a entrar em disputas de um modo que esse agente considera (num sentido primitivo ou inevitavelmente controverso) interessante. Seabra me parece interessante.

Logo, fiz um reconhecimento da sua existência nesse texto o qual encerro com um convite, especialmente aos que se interessam por esse uso de “interessante”: o para se inscreverem num seminário gratuito, aberto a todos, a começar a ser ministrado por mim em meados de abril-maio deste ano e cuja ementa provisória já está disponível aqui.

Notas:

1. O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo 2024 / 13530-2.

2. Pessoalmente, não acho tão difícil de lidar com práticas da irrelevância endereçadas a FGAM. Minha vontade e o meu medo de me tornar célebre conflituam. Mais desafiador é lidar com as práticas de mortificação filosófica em relação a FGAM; é pensar que quiçá um dia, eu não possa mais ter uma forma de vida que me permita escrever um texto como o presente.

3. Variados textos mesmos (e.g., uma versão anterior do presente texto) foram rejeitados em variadas revistas sob variadas bases. Quiçá, sob a influência de Seabra (2021, p.28), eu um dia escreva um artigo acerca desse assunto.

Felipe G. A. Moreira é Pós-Doutorando em Filosofia na Universidade de São Paulo, onde desenvolve pesquisa acerca da filosofia da lógica. Ele é doutor em Filosofia pela Universidade de Miami e mestre em Filosofia por Boston College. Publicou as coletâneas de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013) e FGAM (2021), o livro de filosofia, The Politics of Metaphysics (2022), assim como diversos artigos filosóficos em variadas revistas nacionais e internacionais. Site: https://www.felipegamoreira.com/