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Pedro Belo Clara | Lisboa


PEDRO BELO CLARA (Lisboa), autor  dos poemas “Outonal” e “No Tempo do Amor” é autor das obras “A Jornada da Loucura” (2010), “Nova Era” (2011), “Palavras de Luz” (2012) e “O Velho Sábio das Montanhas (2013). Além de preletor de sessões literárias, é atualmente colaborador e colunista de publicações literárias. Chamou a nossa atenção por produzir um tipo de poesia romântica e transcendente, através de belas imagens, numa época que se respira contemporaneidade.

Pedro Belo Clara

Pedro Belo Clara

Canal Subversa O que você destacaria, da sua formação acadêmica em comunicação e marketing, como elemento impulsionador à atividade literária? O que diria que ocorreu, neste percurso, como fator definitivo?

Pedro Belo Clara: O processo da escrita surgiu em mim de modo bastante fluido e normal. Antes até da minha entrada na faculdade de gestão (empresarial) que frequentei. Por isso, em nada se ficou a dever à formação académica que obtive. Foi uma paixão íntima que, com os anos, deflagrou como um fogo bravio. Até se revelar o que, no fundo, sempre fora: um amor de sólidas fundações. É verdade que o elemento “criatividade” é comum a ambos os sectores, a escrita e o marketing, mas até finais de 2008 esses caminhos foram trilhados de modo paralelo. Quando optei pela prática onde me sinto verdadeiramente realizado, a escrita, simplesmente deixou de existir um outro caminho que não esse. A génese da minha actividade literária não se prende com a formação académica que recebi.

CS Em relação ao mercado editorial e literário, quais dificuldades diria que um autor iniciante encontra para chegar até os seus leitores? Acha que vão sendo ultrapassadas com a publicação dos livros seguintes?

PBC: Sim, o objectivo de um autor em início de carreira passa por aí: diminuir, a cada publicação, os obstáculos que o apartam de uma maior divulgação e leitura de sua obra. A principal dificuldade reside na escassa aposta que as editoras empreendem nos autores ainda desconhecidos, independentemente do seu talento ou potencial. Algo que, sejamos sinceros, é compreensível sob o ponto de vista comercial. Felizmente, têm surgido diversas editoras que podem funcionar como um válido meio de entrada no mercado, ainda que as propostas editoriais por estas apresentadas possam não agradar à maioria dos autores. Além de participarem financeiramente na edição das suas obras, a divulgação das mesmas nem sempre se realiza através dos meios mais eficazes. Em acréscimo, como o nome do autor é desconhecido para o público em geral, o acesso a esse mesmo livro também nem sempre é facilitado. As grandes livrarias não os colocam em suas estantes e, por vezes, a opção de compra mais directa passa pela internet, o que nem sempre atrai os potenciais leitores interessados, desde logo precavidos contra as inseguranças, justificadas ou não, das compras efectuadas através desse meio.

O autor no lançamento de “O Velho Sábio das Montanhas”

CSComo temas recorrentes nos seus textos, as questões existenciais, a busca espiritual e transcendência parecem muitas vezes aliar-se a elementos da natureza. Há algum inspiração ou influência significativa que queira destacar, no uso desta forma de escrita?

PBC: Ao longo do meu processo de evolução como autor, diversos têm sido os nomes que, em etapas distintas, me serviram de ilustre inspiração e influência. Cesário Verde, Fernando Pessoa e seus heterónimos, Ruy Belo, T.S. Eliot, Walt Whitman e Khalil Gibran foram alguns desses nomes. Para o estilo poético que actualmente desenvolvo de modo mais frequente, nomes como Lorca e Jiménez, Sophia e Eugénio, são de leitura incontornável. Cultivo um gosto imenso por uma poesia trabalhada sobre tais parâmetros, logo é do meu máximo agrado produzi-la. Admito que Eugénio de Andrade é uma inegável influência na prática do estilo de que falamos. Além de ser um autor que muito admiro, respeito e aprecio. As questões existenciais que referiu decorrem do carácter meditativo do meu próprio espírito. Aí, a natureza surge como um pano de fundo frugal não tanto pela influência directa de Sophia e da sua íntima ligação aos elementos, mas do amor umbilical que nutro por essa inebriante fonte de vida. Trata-se, portanto, de reflexos do espírito que me habita, naturalmente transpostos para os trabalhos que produzo.

CSJá na questão dos “caminhos” que aborda na sua obra “O Velho Sábio das Montanhas”, narra uma história em que está em jogo uma transmissão de conhecimento. Como se dá, neste livro, a dinâmica entre autor, narrador e leitor no sentido da emissão e da recepção das mensagens transmitidas?

PBC: De uma forma bastante directa e fluida, eu penso. Pelo menos, tive essa intenção, no meio de muitas outras, quando o escrevi. É, de facto, um livro de partilha de conhecimentos. Em suma, o leitor é levado a reflectir sobre os diversos aspectos da existência. São meras palavras, na verdade, que o compõem. O que importa é instigar cada leitor a buscar por si o caminho que se lhe adequa. E cumprir um determinado caminho é nada mais do que um modo de estar na vida e de viver a própria vida. O livro em causa abrange os dois estilos: poesia e prosa. Mas não deixa de contar uma história. É a parte poética que traz a reflexão ao leitor, enquanto que a prosa apenas enquadra os acontecimentos e as personagens. Simples e conciso, em minha opinião, à parte o cariz meditativo que antes falámos e que, como já terá ficado claro, assume-se como a principal veia condutora da obra em causa.

CSComo você define o papel da criatividade nos dias de hoje e qual sublinharia como a função da criação literária, nomeadamente para o desenvolvimento individual?

PBC: O acto de criar exige, numa primeira instância, criatividade. A criatividade torna-se o prelúdio do progresso e da mudança. Porém, deve ser colocada competentemente em prática por quem a cultiva, sob pena de não passar de uma mera nuvem que outrora tanta chuva prometera. E utilizo a palavra “chuva” pois a criatividade expressa fecunda os campos da existência humana, áridos sem as cores que a mesma lhes pode proporcionar. Num mundo imerso em crises humanas, sociais e económicas, é deveras necessária. As próprias soluções aos problemas podem ser encontradas com recurso a tal valência. A sua importância no desenvolvimento, seja ele individual ou colectivo, é, assim, crucial. Está na base do processo de escrita, naturalmente, como em todas as ditas “artes”. Em relação à segunda parte da pergunta, diria que em termos de desenvolvimento individual a principal função (a meu ver, é claro) da criação literária prende-se com aquilo que ela pode transmitir: ideais, emoções, filosofias, imagens, entre outros. Aquilo que tão sublimemente Exupéry designou de “educação em forma de poema”. Trata-se da tal relação íntima entre autor e leitor, fortificada ou não através da comunhão de palavras, ideias e sentidos. Além de, para o próprio autor, ser o poema, o conto ou o romance tantas vezes o imenso campo onde disseca os misteriosos contornos da alma que o habita.

CSPara terminar, pode nos contar um pouco da fase atual do seu processo criativo e dos seus projetos na atividade literária?

PBC: O estilo transversal à maioria dos diversos projectos que espero muito em breve ter a oportunidade de publicar apresenta um carácter fortemente lírico, composto por versos livres de cariz depurado e luminoso. Neles, existe uma celebração do amor e dos amantes (a sua material personificação). O verbo utilizado é amiúde claro e conciso, harmonizando-se com a dose ideal (em meu parecer) de metáforas e substantivos a preceito. Existe ainda uma certo timbre melancólico que, bem sei, tem em sua génese a influência de Ricardo Reis. Como deu para compreender, os projectos que tenho em mente são todos de carácter poético, ainda que a médio prazo, diria, faça tensões de desenvolver outras ideias que possuo anexadas a um projecto em prosa: um livro de contos. Mas, para já, remeter-me-ei à poesia – o género que, devo confessar, mais naturalmente emerge de mim.


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