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Martha Lopes | São Paulo


MARTHA LOPES (São Paulo, SP), que contribuiu para o Canal SubVersa com o texto No Espelho é escritora e jornalista especializada em cultura. Depois de passar por empresas como editora Globo e Folha de S.Paulo, atua hoje como diretora de programação da ONG Casa de Lua e editora do projeto #KDmulheres. Seu primeiro livro, “Em carne viva”, será publicado neste ano. Acompanhe a entrevista que ela concedeu ao Canal:

 

Martha Lopes

Martha Lopes

 Canal SubVersa – Com uma carreira repleta de escrita e projetos ligados à arte, como foi para você a criação do seu primeiro livro, “Em Carne Viva” e como tem sido a etapa pré-editorial?

Martha Lopes – Bom, esse livro é meio que um transbordamento. Passei muitos anos sem escrever poesia e quando isso voltou veio com muita intensidade. Esses poemas coroam uma fase muito importante para mim, de redescoberta de que eu queria me dedicar mesmo à escrita, depois de ter passado um bom tempo me dedicando majoritariamente ao jornalismo. A etapa pré-editorial tem sido bem tranquila porque tenho a sorte de ter editores maravilhosos, que são grandes amigos também. Ainda estamos fechando os textos, mas já na reta final.

CS O que você diria que muda, na vida de um escritor, depois da primeira publicação?

ML – No meu caso publicar esse livro é a concretização de uma escolha. Eu sempre senti que o que eu queria fazer da vida era literatura, mas tinha (como ainda tenho) medo do que isso podia significar, das frustrações e das dificuldades envolvidas. Para mim a publicação é importante porque traz essa decisão, que é interna e abstrata, para o plano do concreto, mas não sei se vai trazer tantas mudanças para a vida prática. Veremos!

CS – Quais pontos você colocaria como aproximadores e distanciadores, no que diz respeito à escrita literária e a jornalística?

ML – Acho que a única semelhança é a matéria-prima desses dois tipos de texto, que é a palavra. E, em alguns casos, a pesquisa. Mas, no geral, sinto que aciono dois caminhos muito diferentes quando escrevo um ou o outro. Na escrita literária, a criação é mais livre, dando espaço para a inspiração, a exploração dos sentidos, a brincadeira com as palavras e com as sensações.

CS – Notamos que você participa do desenvolvimento de projetos interessantes (Casa de Lua e #KDmulheres?), que estão ligados ao questionamento, discussão e formação do papel da mulher na produção artística. Você diria que a sua relação com a literatura influenciou na criação destes projetos? Esta relação tem a ver com a sua escolha por deixar a atividade em jornais e editoras?

ML – Acho que, por ser mulher, feminista e por escrever, estou atenta ao modo como o trabalho literário das mulheres acontece e sua relação com o mercado, a crítica etc. Sempre me chama a atenção olhar para a lista de escritores vencedores de prêmios literários ou convidados para eventos, porque o número de homens geralmente é bem maior. Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, a diferença era gritante – 44 homens para 7 mulheres –, por isso surgiu a ideia de levantar esse questionamento, através do projeto #KDmulheres. O que descobrimos é que há muitos pontos interessantes que merecem investigação, desde o momento da escrita, em que muitas vezes a mulher apresenta uma insegurança, questiona a legitimidade do seu trabalho; passando pela publicação, em que há entraves para escritoras mulheres e a interposição de alguns estereótipos na produção do livro; até a chegada desse livro ao mercado, com a repercussão na imprensa e o reconhecimento. A imprensa dá pouco destaque sim às escritoras mulheres – acho que vale citar que, há uns dias, a revista “Esquire” publicou uma lista com 80 livros essenciais em que apenas uma mulher é citada –, mas minha decisão por deixar o jornalismo aconteceu antes de eu tomar essa consciência.

CS Como uma questionadora da presença feminina na literatura, como você definiria a função de uma mulher escritora na sociedade atual?

ML Sou a favor de que as mulheres, como os homens, possam criar livremente sobre o tema que quiserem – horror, romance, ficção científica –, sem os estereótipos de gênero, que nos dizem que por sermos mulheres temos que produzir histórias “água com açúcar” e chick lit, por exemplo. Não acho que uma escritora mulher tenha uma função específica na sociedade, o que acho importante é defender o direito de a mulher desenvolver a literatura que quiser desenvolver e que isso chegue ao público e à crítica da mesma forma como chega a literatura feita por homens. Mas é claro que, quando olhamos para essa literatura, podemos entender desafios e questionamentos próprios das mulheres. Sobre esse assunto, gosto muito do livro “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, que, apesar de falar do cenário literário de outra época, é muito moderno e atual, e aborda como muitas vezes a literatura escrita por mulheres é tida como literatura menor, bem como os temas que muitas vezes elas desenvolvem.

CS – Gostaria de indicar alguma(s) influência(s) relevante para o seu processo de escrita?

ML – Não falaria em influência, mas em inspiração. Sob essa perspectiva, em poesia, gosto muito da brasileira Angélica Freitas e da portuguesa Adília Lopes. Em prosa, Hilda Hilst, Virginia Woolf, Marguerite Duras e Clarice Lispector foram muito importantes para a minha formação. Das contemporâneas, gosto muito da brasileira Carola Saavedra, da norte-americana Miranda July e da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Para saber mais, acesse a página da Martha:  http://marthalopes.com/

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