Subversa

Madrugada Insana | Chuana di Franco Moura (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

madrugada1E o dia se fez tarde, que se fez fim de tarde, que se fez noite. E então veio a madrugada, que entre nuances de anil e púrpura, se fez dia novamente. No entanto, os pensamentos a povoar minha mente eram os mesmos, repetidos, dolorosos, fazendo latejar as minhas têmporas já fatigadas.

E os dias se sucediam em manhãs, que se tornavam noites e madrugadas incessantemente. Papéis, canetas, monitor…Monstros a povoar minha escrivaninha, dando-me ordens inteligíveis e sussurradas, silenciosas…”Faça isso!” Faça aquilo!”, “Termine no prazo!”, “Levante-se da cadeira e vá já ganhar seu mísero e medíocre salário”, já que desde o século XVIII com o arroubo da Revolução Industrial, time is money…

Quem sou? Para onde vou? Qual o motivo desta insanidade toda? Living on the edge, no limiar da certeza e da loucura…Torturado pelas minhas incertezas e limitações, sufocado entre o ser e o dever, entre o viver e puramente o sobreviver…

Seria a vida isso? Ou melhor dizendo, a existência? Uma mera sucessão de dias e noites sem fim? Um vai-e-vem de rostos, vozes que se perdem no tempo, na multidão, que não criam vínculos ou dependência, apenas se vão…

Céu? Inferno? Vida após a morte? Reencarnação? A que crenças e ideologias devemos nos apegar? Viver para o trabalho, para os filhos, para alguém ou para nós mesmos? A sociedade, sua família, o mundo, os meios de comunicação dizem que devemos escolher, que fica a cargo de nós mesmos e de nossas próprias convicções…Será mesmo? A cada dia surgem mais regras e imposições…

Viro-me na cama, preso a esta maldita insônia, prisioneiro de meus próprios pensamentos e indagações… O dia já está raiando, os raios de sol ferem meus olhos latejantes e cansados. O despertador, como uma sineta do inferno, vem me anunciar numa imposição sutil, na forma de um toque artificial e perturbador que mais um dia de rotina incessante se inicia, com mais regras e datas e prazos e imposições.

Levanto-me da cama de um salto, afugentando qualquer pensamento imbecil da “noite” anterior…

E a vida segue… Dia após dia, tarde após tarde, madrugada após madrugada…Numa aterrorizadora continuidade que prende a valores, preconceitos e tudo aquilo que me faz uma persona e não um androide.


Chuana Di Franco Moura (Rio de Janeiro, Brasil) é estudante de Letras Português-Inglês na UFRJ e estagiária na escola do município em Olaria, RJ.

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2 Comentários

  1. Marilise Rech 25 de setembro de 2014 em 15:52

    Muito bom o texto!

    • Anônimo 7 de outubro de 2014 em 15:46

      Obrigada,Marilise!
      ]

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