Subversa

“Cada um de nós carrega no bolso uma narrativa visual particular” | Entrevista com Marcelo Leães

Conversamos com o psicanalista e fotógrafo Marcelo Leães (Porto Alegre, 1981), autor do ensaio Onde não pensamos, do qual algumas imagens foram selecionadas para ilustrar o presente número. Entre outras questões, Marcelo falou sobre o papel da imagem na construção da subjetividade e seus movimentos na interação cultural e em uma sessão de análise. Sua experiência clínica articulada à fotografia lhe permite uma pesquisa profunda sobre estes elementos, reflexões que apresenta com frequência em artigos e eventos sobre arte e psicanálise. Marcelo é membro efetivo do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre; sua publicação mais recente foi o capítulo A Vida Subjetiva do Objeto Artístico, que integra o livro Interlocuções na fronteira entre psicanálise e arte (Ed. Artes e Ecos, 2017)


SUBVERSA | Indo direto ao ponto: É possível fotografar o inconsciente?

MARCELO | Nunca tive pretensão de representar, através da fotografia, o inconsciente. O movimento surrealista com as pinturas de Dalì e o filme O anjo exterminador de Buñuel, por exemplo, representam bem essa intenção criando obras de grande beleza e criatividade. Uso a fotografia para produzir reflexão no espectador e me interessa muito o engajamento e a relação de cada pessoa com a imagem. Quando fotografo, busco sempre algo que gere inquietude seja pela beleza ou pela estranheza, aversão… penso a imagem, sobretudo, como um objeto de cuidado, um objeto social. Afinal, cada pessoa mantém uma relação muito particular com as imagens. Na medida em que possa produzir participação e reflexão naquele que se depara com ela, torna-se preciosa e um objeto, vamos dizer, da/para a cultura que é onde as formações do inconsciente se fazem presentes. A fotografia e sua relação com o inconsciente pode ser pensada como uma armadilha para o olhar na medida em que uma narrativa passa a ser criada a partir do envolvimento das pessoas com a composição da imagem… aí que vemos a polifonia das subjetividades. De certa forma, cada fotografia tem, acho que inerente a ela, a capacidade de gerar uma ficção daquilo que se vê.

SUBVERSA | Como as imagens se movimentam numa sessão de análise? As técnicas, o analisando, as cores que surgem, o foco… Tudo isso pode ser comparado ao processo fotográfico, na sua opinião?

MARCELO | As imagens também estão presentes. Nossa vida é, primordialmente visual: narramos situações, lembranças, fazemos planos, narramos filmes, vivências… os sonhos também têm uma predominância visual e, antes de adquirirmos a fala, estávamos imersos em um mundo de imagens de onde o sujeito emerge na linguagem. A narrativa do sonho, o que se produz de texto a partir dele, por exemplo, já é um tempo outro daquele que quando sonhamos e que é um trabalho essencialmente em imagens. Não à toa, muitas vezes, o esquecemos. Mas sim, a imagem é importante e bem-vinda numa análise ou em nosso cotidiano.

Freud fez 2 ou 3 analogias do inconsciente diretamente com a fotografia ou o processo fotográfico. Numa delas, compara o modo como selecionamos nossas lembranças ao negativo de um filme analógico do qual selecionamos um frame para ampliar (ou tornar consciente) e aquele negativo não-selecionado é o que fica relegado ao esquecimento porém, ainda, com potencial de ser acessado. Essa é uma noção tópica do inconsciente de Freud (consciente, pré-consciente e inconsciente) e do processo de esquecimento e rememoração. Daí podemos propor que cada ampliação – ou cada rememoração – sempre terá uma particularidade, pequenas nuances, cada vez que for retomada.

Lacan vai contribuir com a idéia de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem e no começo da sua teorização nos brinda com a idéia de seu esquema ótico, que não é fotográfico, mas é imagético. Propõe pensar a importância da perspectiva em que se olha quando unificamos uma imagem de nós mesmos e inscrevemos uma história em nossas vidas. Ele atribui à imagem um papel fundador na constituição do Eu e na matriz simbólica do sujeito.

A fotografia, como invenção do ser humano industrial, permite várias analogias tanto no seu processo (revelação, impressão, estudos da luz, contrastes etc) como no contato com o público… bem, como toda analogia, tem inúmeras limitações porque nunca irá ser precisamente o que se quer designar. Mas é, no entanto, uma tentativa e, por isso, bem válida.

SUBVERSA | Na atualidade, estamos inclinados a fotografar tudo o tempo todo. O que você acha disso no que diz respeito à nossa interação efetiva com a realidade externa? 

MARCELO | É uma questão inquietante e atual. A fotografia é uma forma de nos subjetivarmos, isso é algo presente e inegável. A pergunta que convido é: o que fazemos com isso? Acredito que cada um de nós carrega no bolso uma narrativa visual particular e podemos até tirar proveito. Existe um escrito de Ludwig Börne, que sugere em A Arte de se tornar um escritor original em três dias, que se tome nota de tudo que passar pela cabeça, pensamentos, opiniões, impressões. Três dias depois volte-se ao que produziu e ficarás espantado com a quantidade de novos e inauditos pensamentos que teve. Quem sabe o fato de fotografarmos tudo o tempo todo se assemelha a uma criança que brinca criando um mundo de fantasia que ela leva muito a sério – e isso é fundamental -, se emociona com aquilo enquanto mantém uma separação nítida entre o que fotografa e a realidade. No entanto, penso que acabamos perdendo um pouco de alteridade, de contato com o outro enquanto buscamos através da filmagem ou da fotografia incessante algum tipo de experiência que não estaria localizado especificamente naquele tempo-espaço, naquele evento, show, jantar, etc mas em um outro lugar imaginário de nossas cabeças. Quiçás, se cada um consultar o que leva consigo em seu bolso poderá encontrar um ótimo material de análise. Como ouvi uma frase de um fotógrafo outra vez, a fotografia é um espelho dotado de memória, mas incapaz de pensar. Esse ato de pensamento, cabe a nós faze-lo.

SUBVERSA | Também estamos nos tornando hiper-expositores de nossa própria imagem, cercados de ferramentas que nos permitem mostrar não só como nos vemos, mas como nos sentimos. O que você acha disso?

MARCELO | Penso que a imagem sempre carrega encarnada consigo algo que é do seu autor. A hiperexposição é algo novo e penso que tenhas denominado hiper(exposição) se compararmos a frequência que expunhamos nossa imagem antes e depois da revolução digital – perfis digitais, timelines, transmissões ao vivo, etc. Ainda assim, a atitude de hiperexpor-se, nesse sentido, é uma decisão singular e motivada por diversos fatores e, por isso, descarta a possibilidade de uma homogeneização dessa prática.
Nos subjetivamos a partir dos meios digitais além de trazer consigo uma possibilidade de divulgação impensável em outras épocas. Mas que relação estabelecemos com essa ferramenta? esse é, pra mim, um ponto importante: se se torna um ponto de apoio da vida emocional das pessoas, as mídias digitais, por serem predominantemente impessoais, tornam-se um ponto frágil principalmente porque o autor busca moldar uma narrativa de si para veicular aquilo que idealmente gostaria de ser. O grau de engajamento nessa tarefa é o que causa espanto nas pessoas.

Uma brincadeira ilustra bem isso: na década de 80 um analisante entrava na sala do seu analista e, tomado por uma aura paranóica dizia: doutor, tem alguém me seguindo!!! ao passo que em 2017, um analisante se recosta no divã e, depressivamente, dispara doutor, como?! não tem ninguém me seguindo!!! O viés que me interessa salientar é que a fotografia das mídias digitais tem um endereçamento de reconhecimento da própria imagem, de um valor de algo que não estava no momento da experiência mas que se faz presente pelo fato de possuirmos aquele instante e dividi-lo instantaneamente com os demais. Essa é uma leitura possível… a fotografia tem uma escamoteação quase imperceptível que, se analisarmos de forma mais detida, se faz presente: aproveitando a possibilidade de analogia da lente fotográfica (ótica) com o olho humano perguntamos: quem me olha na hiperexposição que faço de minha própria imagem? No ato do selfie, vale retomar a indagação: quem me olha no meu selfie? Tem algo fundamental na questão da visão sobre a importância, no processo de desenvolvimento de todos nós seres humanos, que é o fato de fazer-se olhar, um movimento de apelo de se fazer reconhecido pelos outros, pela cultura. Será isto que está posto em xeque na hiperexposição da própria imagem? de fisgar o gozo dos outros sobre nossa própria imagem? De qualquer forma, acho fascinante que toda a produção humana, seja ela científica, artística e até mesmo religiosa, se apóia numa idéia de uma falta fundamental a todos nós. É a partir desse vazio fundamental, desse buraco, que o ser humano, em sua singularidade, é capaz de produzir as mais belas criações estéticas e as piores aberrações éticas.

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