Subversa

ZERO FOR CONDUCT* | Henrique Grimaldi Figueredo


*A exposição Zéro de Conduite: Obras da Colecção de Serralves (curadoria de João Ribas), esteve em cartaz na Fundação de Arte Contemporânea de Serralves (Porto, Portugal) de 01/06/2018 à 09/09/2018, período em que o autor teve a oportunidade de visita-la e participar de um seminário com três dos artistas presentes na mostra.


Creio que certas experiências carregam consigo forte teimosia. Fincam os pés no chão, negam-se à uma transitividade. São raras, porém. Vez ou outra nos deparamos com elas, somos assaltados por sua rebeldia. No oco do sujeito onde tudo parece estado de passagem [como se fosse algum sacrilégio exigir de si alguma permanência], são produzidas esporadicamente – e fortuitamente – algumas fissuras. Estas surgem como pequenas rachaduras aparentemente sem importância. Nelas, pequenos grãos de perturbação crescem. Eclodem – contudo – serenamente. Há um silêncio que atravessa a gestação. Penso nessas experiências-instantes de forma análoga aquele poético trabalho de Brígida Baltar, A Coleta da Neblina. Vidros vazios levados a passear nas brumas. Num minuto desocupados de toda existência, no outro, ar denso, gotas se formando, água límpida em volume acumulado. Experiências teimosas, como digo. Não estão, mas de repente fazem-se existentes, nos perturbam pela sua imprevisibilidade. Mário Quintana certa vez escreveu: “o passado não reconhece seu lugar, está sempre presente”, penso ser boa essa oração para explicar a pirraça de determinadas experiências; desses momentos-infantes, caprichosos tais quais crianças.

O passado turrão que volta [e revolve] é gestado num tempo diferente para cada um. Segundos, meses, anos; não importa. Qualquer tentativa de prenúncio mostra-se falaciosa. Ele chega numa investida sobre nós [no sono, no banho, na caminhada, no sexo, na compra, no fumo, nos muitos eteceteras cabíveis]. Zero for Conduct – Zero de Conduíte, em português de Portugal, algo que para nós poderia ser lido como Zero em Comportamento – me atravessou assim. Trouxe um calor e uma desordem. Como uma mina terrestre que sempre estivera ali à espreita, descansando seu potencial bélico enquanto intocada. De repente, explosão! Baroom! Baruum! Bang! Bam! Ao meu derredor vê-se agora a cacofonia e a caco-imagem dessa experiência de outrora: de outra terra, num pós-mar, isto é, do lado de lá, passados quinze meses de sua incubação. O que aqui surge como texto não é uma crítica de arte, nem tampouco a narrativa de uma vivência; também não é uma tentativa de ordenar um caos que resiste às categorizações; é apenas uma mirada infame sobre um momento continuamente turvo pela fumaça da explosão. Gosto dessa imagem. Penso – embora sem nenhum referencial para esta afirmação – que essa deve ser a sensação de alguém após uma explosão ou demolição, quando ainda envoltos pela sujeira e pela fumaça, os olhos avermelhados e confusos buscam alguma ordenação, alguma coordenada [que nunca será precisa, pois aquilo que existia já não se conhece mais]. Eis a finalidade desse texto: uma micro entrada na desordem da nuvem sempiterna e insurgente de uma poeira que nunca se assenta.

Eis-me lá

[memórias de um observador-participante]

Incorrigível. Indisciplinável. Indesejável. O que, efetivamente, fere a conduta do museu? ZERO FOR CONDUCT [nos perguntamos então: definition, no-definition or antidefinition?]: seria uma arqueologia semântica das insurgências simbólicas? um jogo de normatização-levante no sentido das “sublevaciones” didi-hubermanianas? estado da arte como estado de motim? transtorno incendiário do social? o não-comportamento indefinível? não sei, talvez seja alguma dessas coisas, ou todas, ou nenhuma. Ao meu ver, hoje, apenas hoje, e mais do que hoje, apenas nesse instante de escrita – não posso garantir o que será após – é passado retornado, neblina que num instante converte-se em água que transborda, poesia encarnada nas 70 obras que se espalham pelo lugar.

Penso nessa mostra como tensão poética: sacode os liames entre o espaço museológico que a abriga e os gestos cínicos de irreverência, zombeteiros ao próprio fazer curatorial, como um texto que resiste à escrita. É o que se transvê [no sentido manoelino é preciso transver o mundo – o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê] na referência direta ao filme homônimo de Jean Vigo, Zero de Conduíte (1933), ou na corrida frenética dos jovens por entre os corredores sagrados do museu em A.B.H.J.J.L (2006) de Mario García Torres. As salas de Serralves abrigam uma compilação de obras (ou práticas de guerrilha), tão resistentes ao fato de ali estarem, que grades reais – embora transponíveis – foram criadas numa cenografia sensível, um diálogo espaço-objeto que lhes diz “por favor, acomodem-se”, e que escuta em reposta: “fuck off!”.

Entre as carteiras escolares rabiscadas e um manual que conclama à uma “Indisciplina Rigorosa” (Isabel Carvalho); avoluma-se a arte de ontem, já histórica, já autorizada, mas que foge e é, em si mesma, um passado retornado em conversa aberta com o hoje desobediente: as vitrines de Boltanski; a estante amarela de Broodthaers; o manifesto debochado de Baldessari, I will not make more boring art; as ações disruptivas de Bruce Nauman e Chris Burden (incessantemente baleado em Shoot); as supostas fezes de Manzoni; a estética abjetual de Pistoletto. Aos olhares adestrados, esta cartografia sensível de obras que versaram pela emancipação das práticas nas décadas de 60/70 (obras historicamente importantes para a arte ocidental do século XX), assume certa centralidade na exposição. Contudo, a escolha por exibi-las sem qualquer linearidade, pulverizando-as ao longo do labirinto branco, equilibra qualquer protagonismo intrínseco e reorganiza politicamente seu peso. A importância de Zero for Conduct reside exatamente nessa inexistência de conduta, o ontem e o hoje sob uma lógica única: a transgressão.

De João Louro – uma das vozes do hoje – resta-nos o carro acidentado e destruído após sua colisão com o peso axiomático da palavra escrita; ou ainda a crítica ácida de Paulo Mendes em Colecionador Português, um autômato masturbatório que ridiculariza a obscenidade do mercado de arte em Portugal e sua docilidade aquisitiva de Julião(ões) Sarmento e Rui(s) Chafes.

Há insurreições outras. Lembro-me da apropriação de um pixo surgido recentemente em ruas parisienses, ali fotografado e ampliado, disposto ao lado de um vídeo de Hannah Wilke (pervertendo as noções de autoria, talvez?), em que o intocável lema revolucionário francês vê-se deturpado: Liberté, Egalité, Beyoncé – brincadeira de memória, de cidade, de nação, de periférico, de não-pertencimento; brincadeira que é o ato incendiário do sujeito-si, do sujeito-outro, da memória, da cidade, da transnação, do centro, da identificação. Lembro-me também do riso que nascia ao olhar para isso, e também do riso que nasceu ao ver um outro vídeo de testículos sendo levantados; da bagunça de uma instalação repleta de plástico, papéis, adesivos, toda sorte de lixo que não proporcionavam nenhuma resposta mas sim desarranjos dos mais variados; havia também o riso de uma criança correndo e puxando uma peça de piso, um carpete com a bandeira da união europeia (Antoni Muntadas), e a reação que provocou naqueles que ainda idealizam uma sacralidade do objeto de arte.

Há uma bela potência aqui. O riso é indisciplinado por natureza. Gostei de rir nessa exposição. Doeram-me as bochechas. Penso no riso como uma das mais eficientes formas de resistência. O ridículo é revolucionário. Acho que é sobre isso que Bakhtin falava quando identificou no carnaval medieval os relaxamentos das normas, a resistência e a inversão dos sistemas de dominação. Zero em Comportamento, mas Dez em Comédia-Subversão.

Notas de saída

[e o início era antes do Verbo]

E o Verbo se fez. Está posto. O Verbo é a cartilha do aceitável, do social, da moral: o que fazer, como fazer, quando fazer. Zero for Conduct é antes do verbo. Isto é, indefinição da linguagem, quando a linguagem quer ser mas ainda não o é. Zero for Conduct é interregno baumaniano, quando as antigas formas do agir e pensar já tornaram-se obsoletas, mas novas formas ainda não foram inventadas. É instinto pré-Verbo, pré-cartilha.

Ainda é risível a prepotência da arquitetura do museu, e também do próprio tempo, em suas tentativas de contenção desse não-comportamento. Ainda me doem as bochechas – embora menos intensamente – quando lembro-me da criança rindo em oposição ao silêncio dos adultos, adestrados a tratarem a arte com decoro eclesiástico. Zero for Conduct foi e é poesia viva, pulsante, latente, libertadora, incontida, mas ninguém a queria perceber assim. Quinze meses transcorreram para que eu pudesse compreende-la. Alguns todavia a compreenderam antes, outros ainda irão compreendê-la, e alguns outros talvez nunca a compreenderão. Para estes ela apenas representou uma tarde particularmente quente num verão português, agora longínqua na memória. Digo que a compreendi – decerto e de fato não por inteiro – mas ainda não sei, sigo indeciso. Quiçá eu seja um desses que nunca a compreenderão, e não há nenhum demérito nisso, há na verdade certa beleza: porque Zero for Conduct é ruptura de conhecimento (não há um saber mais legítimo que outro) e ademais, atravessamento de conhecimento, daquelas sutilezas, que como Jacotot em O Mestre Ignorante, poucos alcançaram e ousaram anunciar.

Ao pensar num passado retornado e feito presente, percebo que a compreensão ou a incompreensão não fazem sentido. O que me foi prometido naquele momento foi certa emancipação. Zero for Conduct falou-me numa não-linguagem (porque aquilo que é antes do verbo não cabe no signo): lhe prometo anarquia! E foi o que certamente obtive na experiência dessas linhas que teimavam em não escrever-se: um irresoluto e transcendental momento de liberdade. Incendiar é preciso!


HENRIQUE GRIMALDI FIGUEREDO Doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. É curador independente e designer expositivo com projetos assinados no Brasil e no exterior. Escreve numa tentativa falida de preencher os vazios de domingo.

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