Subversa

Você é devoto de F.G.A.M.? | Felipe G. A. Moreira


São Francisco rezando (1606) Caravaggio

O metamodernista está interessado em representar a ambiguidade moral humana. Eu dizia. Naquele tempo, quando já passava de meio dia na praia de Ipanema. E era sábado e eu estava sentado com o Bolsonarista-raiz na areia. E a areia estava abarrotada. Eu perguntava para o Bolsonarista-raiz: entende? Ele respondia que: eu entendo. Ele respondia que: para você, não é lá muito interessante escrever um poema que, sei lá, explicitamente defenda que racismo é moralmente execrável, o que é hoje uma banalidade moral. Para você, é mais interessante articular um poema cujo eu-lírico seja ambiguamente racista, ambiguamente não racista e deixar que o leitor formule algum juízo moral sobre esse eu-lírico. É isso que eu acho que você está fazendo nesse seu poema, Rio de Janeiro, por exemplo.

Sim! Exatamente, Pedro! E, olha, eu não acho que eu estou totalmente sozinho ao proceder assim. Pense, sei lá, sobre esse poema do Frederick Seidel que saiu numa coletânea dele de 2016. O nome do poema assim como o da coletânea da qual o poema faz parte é “Widening Income Inequality”. Na minha tradução: Expandindo a Desigualdade de Renda. Eu acho que é bem explícito que, nesse poema, o Seidel também está interessado em representar a ambiguidade moral humana. Isso porque ele articula esse eu-lírico moralmente ambíguo. Esse eu-lírico que fica o poema todo afirmando a sua vontade de poder nietzschiana. Assim: dizendo que ele está satisfeito com a sua vida de privilégios; explicitando que ele tem consciência que ele pouco está fazendo para diminuir a desigualdade de renda; meio que sacaneando os pobres e a atitude de São Francisco de Assis de procurar ajudar os pobres.

E, olha que, na verdade, um santo, para mim, não seria bem como esse São Francisco de Assis do poema do Seidel. Sim! Porque esse “São” Francisco parece só querer fazer justiça à vontade de ordem carnapiana, né? Sim! Para você, um santo teria que agir de acordo com a vontade de síntese sendo maximamente libertário (estilo Nietzsche / Catulo / Funk) e de acordo com a vontade de ordem sendo maximamente igualitário (estilo Carnap / Velho Testamento / São Tomás). Um santo seria uma espécie de síntese entre o eu-lírico do poema do Seidel e esse São Francisco. F.G.A.M.: eis, em suma, essa síntese.

Exatamente, Pedro!

Então, você é devoto de F.G.A.M.?

Ahahaha… Talvez, talvez… Acho que te concedo que tem alguma pertinência em crer nas seguintes 13 teses:

  1. Poesia não é inútil; ela tem a função de abordar de modo, sobretudo, emotivo, disputas. A poesia da bíblia dos judeus, do velho testamento dos cristãos ilustra esse ponto (Coluna 1).
  2. Essa função da poesia tem uma importância primária incomensurável (Coluna 2).
  3. Não apenas a poesia das escrituras tem essa importância primária incomensurável (Coluna 3).
  4. É preciso responder às objeções dos outros. Tipo: os devotos dos deuses que você não crê (Coluna 4).
  5. A poesia de Catulo, assim como algumas letras de funk, satisfaz um critério estético pertinente: acordo com a vontade de poder (Coluna 5).
  6. A poesia metamodernista procura satisfazer esse critério e um outro critério estético pertinente ao mesmo tempo: a saber, acordo com a vontade de ordem; F.G.A.M. é o nome do Deus que consegue satisfazer esses dois critérios. Ele é o Deus da vontade de síntese (Coluna 6).
  7. A poesia de São Tomás de Aquino, ao satisfazer apenas um desses critérios — isto é, acordo com a vontade de ordem — pode servir para legitimar práticas “antinaturais”. A poesia de Catulo também pode servir para legitimar práticas “antinaturais” no que ela apenas promove a vontade de poder (Coluna 7).
  8. A poesia metamodernista quer emotivamente fazer sentir que o “mal” ou a “doença” se dá quando fracassamos em agir de acordo com a vontade de síntese, isto é, essa vontade de fazer justiça à vontade de poder e à vontade de ordem ao mesmo tempo. Existem, então, quatro “mals”: excesso de vontade de ordem, falta de vontade de ordem, excesso de vontade de poder, ou falta de vontade de poder (Coluna 8).
  9. A poesia metamodernista quer fazer sentir que o “bem” ou a “saúde” se dá quando conseguimos agir de acordo com a vontade de síntese promovendo a construção de comunidade política ideal, Jerusalém (Coluna 9).
  10. Você é e não é F.G.A.M. Você é doente e saudável nesses sentidos técnicos aí (Coluna 10).
  11. A crítica literária que você propõe nessas colunas segue várias normas que são desrespeitadas constantemente mesmo por gente que tem doutorado em Letras (Coluna 11).
  12. Você tem fé em F.G.A.M. (Coluna 12).
  13. Você tem fé que outros, como eu mesmo, também terão fé nesse Deus.

Ó, meu Pedro, acho que foi mais ou menos isso aí mesmo que eu defendi! Só diria que eu não defendo exatamente essa tese 13 aí. Acho que eu só quero me comprometer com algo mais fraco. Tipo: eu tenho fé que outros serão influenciados pelo meu Deus, F.G.A.M., mesmo que eles não se tornem devotos plenos. No fundo, sei lá, acho que cada um tem que criar / descobrir seu próprio Deus. Não sei. Eu tenho que pensar melhor sobre isso ainda.

Mas, enfim, eu repito: e você, Pedro? Você é devoto de F.G.A.M.? Não sei, não sei… Acho que, como você disse, não sou um devoto pleno. Mas eu te concedo que você me influenciou. Eu te concedo que vou tentar pensar um pouco melhor sobre esses pontos todos que você trouxe. Talvez eu te conceda mesmo um pouco mais: que você me trouxe talvez mesmo uma espécie de “revelação” cuja significação plena me escapa.

Maravilha, Pedro! Acho que isso é tudo que eu posso esperar de um outro que não eu mesmo! Obrigado. Obrigado você.

Naquele tempo, então, eu mais o Bolsonarista-raiz: nós nos levantamos da areia. Nós andamos até o calçadão da praia de Ipanema. Nós nos abraçamos e nos despedimos. Fazia sol.

Naquele tempo, então, eu comecei a andar eu sei lá pra onde. Eu me sentia absolutamente exausto. Eu sentia não sei bem o quê. Alegria triste? Tristeza alegre? Eu constatava para mim mesmo que eu acabei sendo bem menos “leve” nessa Fase 2 do que na Fase 1 aqui na Subversa. Eu também constatava que, ainda assim, muitos dos pontos que eu fiz precisariam ser muito, mas muito mais justificados.

Eu tinha medo de nunca ter o tempo de justificar melhor esses pontos de modo mais filosófico do que o dessas colunas. Eu tinha medo de perder o privilégio de poder viver do modo como eu vivi nos últimos anos, isto é, com tempo para fazer pesquisa, para devolver algo feito a minha dissertação, Disputes: The Incommensurable Greatness of Micro-Wars. Eu também me perguntava se eu teria fé de fazer uma Fase 3 dessas colunas. Eu não conseguia me decidir.

Eu também tinha medo de perder a fé de escrever qualquer outro poema. Eu tinha medo que “EUA 2019” seria o meu último poema. Mas me perguntava: “Perché avete paura? Non avete ancora fede (em FGAM)? Nisso, eu também sentia que tudo é exatamente como deveria ser, e que eu tinha fé que F.G.A.M., ou um Deus desviante dos desviantes iria me abençoar.

Eram 13 horas e 13 minutos. Fazia sol.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

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