Subversa

Um beijo só | Pedro Belo Clara


“The Kiss”, Edvard Munch (1902)

Deixa que aconteça
sem peugada de sonho
ou rastro de fome

(sou esquife naufragado
nas algas dos teus cabelos,
rocha exposta ao choque da maré):

um beijo, um beijo só
– e verás como as noites
se enchem de luz
ao nascer uma estrela.

Se temes o lume vivo
dum coração em chamas,
toma esta mão que para ti
se abre com a ternura
das primeiras manhãs de algodão.

Diante do assombro
do grande mar, a larga praia
onde esquecer os anseios da terra:
fecha os olhos e dá-te inteira
à morte que – tão doce – te chama.

Um beijo, um beijo só:
sem promessa de gaivotas
em setembro – e deixemos
que as águas falem por nós.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Ligia Soares Skrebsky 12 de agosto de 2019 em 00:54

    Bela inspiração, é a alma que fala e deixa o amor embalar o coração que se ilumina num passe somente de eternidade, o beijo é como um lírio ao sol.

    • Pedro Belo 12 de agosto de 2019 em 19:33

      Que belos (e poéticos) são os beijos que se parecem lírios ao sol. Expressão feliz essa, minha amiga.
      Agradeço a sua leitura e o simpático comentário que deixou.
      Beijos.

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