Subversa

Tarde de Primavera | Pedro Belo Clara


“O torso e semelhantes”, Paul Klee, 1939.

As mãos sobre as ervas, entre espigas e malmequeres, abertas às carícias dolentes dessas outras que delas não mataram a sede; os sorrisos silentes diluídos na luz que como torrente gentil espraia-se na calmaria da tarde; a respiração serena, em tranquila harmonia com o surdo pulsar da terra.

As sementes que erram no vento breve vêm até nós para num suspiro cumprir o seu destino de tronco ou caule, de ramos ou pétalas. De longe, muito ténue, chega uma flauta cantando, e logo lânguidos os corpos imergem num sonho de pastor.

Mas os olhos firmam-se na distância, enquanto de rosto descoberto na sombra rendada do plátano os teus, amor, vogam por jardins de que nunca saberei.

São as árvores em carreiro, as árvores de gestos pausados, docemente entregues ao êxtase da sua dança lenta. São as árvores e não sei porquê, apenas que no seu silêncio falam perto do rio de mim, lembrando o que já esqueci de lembrar.

O feitiço desfaz-se num brilho súbito, e de novo para ti os olhos caminham, de novo para o teu recorte de flor deixada ao abandono do dia, alegre na sua condição livre e solar, na sua fragilidade de pássaro caído. O teu vestido de verão, brevemente soerguido, revela a neve íntima das coxas num sono orfeico, dum princípio de flanco como trilho misterioso sem garantia de flores no seu fim. Não admira que a brisa desça colinas só para te vir beijar e morrer nas ondas do teu cabelo.

Nessa noite de oculto encanto, nem vês como o algodão dos amieiros, em suaves rodopios tombando, evoca a cal de tantos rebanhos, ganhando vida ao tom da canção ainda audível. Quisera talvez interromper-te a viagem, mas o corpo não encontrou chama para o toque – assim quedado num arrebatamento de roseiral. Então repoisa, com o alívio de quem depõe um fardo, nas estranhas fronteiras de dois aromas intimamente conhecendo-se num só.

A certeza de tudo isto ser uma qualquer fantasia imaginada por nem sei que deus no seu palácio de geada reverberante, ou talvez cabana de palha doirada, palpita forte no âmago das coisas secretas e profundas. Mas algo a desfaz sem clemência: um fugaz impulso, um leve desejo de uma pequena abelha ser, uma pequena abelha dormindo feliz na papoila do teu peito.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367