Subversa

Solecismo II , ou “Este defeito tem os versos de Camões”* | Giovane Adriano dos Santos


Menina Lendo, Vladimir Ezhakov


As aspas que rodeiam parte do título deste texto podem indicar – caso o leitor não recorra logo à nota de rodapé em que fizemos incluir a referência autoral – ironia. Contudo, elas também sugerem, porque assim exige a convenção em que nos escoramos, que o período foi articulado por outra pessoa, tratando-se, então, de evidente caso de intertextualidade o que arranjamos de início. Suposto que a ironia, figura antiga, não tem lugar em toda parte e que não podemos direcioná-la a quaisquer fins – senão aos mais ou menos específicos que dela podem ser esperados, reconheçamos que os signos em torno dos quais dançam aspas foram ecoados, no início do século XIX[1], por Jerónymo Soares Barboza, professor na instituição de ensino constituída para, usemos termos camonianos, exercitar “O valeroso ofício de Minerva”[2].

Por que a declaração de Jerónymo nos espanta? A resposta a essa pergunta talvez esteja direcionada à segunda palavra de que o excerto que transcrevemos da gramática lusitana se constitui: “defeito”. Ora, há falha nos versos do poeta, constatamos estupefatos. Verifique-a e espante-se igualmente aquele que, não tendo lido a epopeia ou as edições remotas do gramático português, recorrer à publicação recente, digamos assim, da Grammatica Philosophica[3]. É certo que o defeito trazido à cena não põe em dúvida o engenho de Camões; ele, referimo-nos ao solecismo, talvez ilustre a mudança do idioma através dos anos e ponha à ribalta as discussões sobre o erro.

Não se trata, diferente do modo com que alguém pode querer nos interpretar, de eleger o solecismo como regra – o que, a seu turno, também seria normatizar, categorizar, ordenar, estruturar de modo diverso a expressão necessária da linguagem, principalmente em se considerando que Roland Barthes[4], lendo Roman Jakobson, há anos nos ensinou que a língua obriga a dizer. Já que a gramática normativa[5] historicamente se ampara nos autores clássicos – e nessa afirmação se inclui referência a Camões, no caso da Língua Portuguesa – para dar forma a construções idiomáticas que “devem” imperar, não é pertinente indagarmos os motivos pelos quais alguns dos erros por ela apontados também podem ser lidos nos mesmos clássicos?

Há quem possa argumentar – contrariando não a nós, mas sim ao gramático compatriota de Camões – que este se apoiou na linguagem com fins estilísticos, razão pela qual seria incorreto ler no fragmento ao qual Jerónymo fez referência algo diverso de licença poética. Naturalmente, essa objeção, desejando ter robustez e ser levada a sério, estaria precedida ou sucedida de definição – breve que fosse – sobre o que se pode entender por “licença poética”, demonstrando os sustentáculos em razão dos quais o solecismo habitaria, se não nos equivocamos demasiadamente ao dizer isto, na casa das figuras de estilo que há muito enfeitam os diversos modos de expressão da língua.

Justificado o uso do solecismo pela pena camoniana, a concessão não se estenderia a outros autores? Convencionaríamos o anseio pelo erro? O erro, se anuído às avessas, deixaria de ser erro? É evidente, sugerimos em parágrafo anterior, que não se trata de colocar o solecismo ao lado de hipérbatos e/ou anacolutos, por exemplo, mas de percebê-lo os empregos não evidentes – porque vários – que podem ser encontrados em autores dos quais não se questionam a autoridade e a importância literárias. Inexiste, notemos a propósito, classificação estanque do solecismo; este se refere somente à concordância, regência e colocação pronominal? É mais amplo, como sugere a remota (e atual) lição de Jerónymo?

Se as palavras do professor de Coimbra dissessem respeito a escritos de poeta modernista – é óbvio que isso não seria possível, em se considerando os estilos predominantes à época em que aquele texto gramatical foi insculpido e dado a conhecer –, elas não nos chocariam. Façamos, por esforço de argumentação, deslocamento no tempo e espaço; desprezemos o contexto de publicação da obra de Jerónymo e mudemo-la o excerto para afastar o assombro: “Este defeito tem os versos de Oswald”. Considerando que essa frase alude ao solecismo, qual leitor de poesia se espanta ao ouvi-la ou lê-la? Nenhum, supomos!

Complementando a ideia expressa no parágrafo anterior, poderíamos indagar: o que é o Pronominais, de Oswald, senão convite (explícito) a que a gramática – naquele contexto, pouco afeita às construções pujantes nas falas populares – voltasse os seus próprios olhos para a noção do erro? Se apreciado de outra banda, visto de outro modo, o espanto permanece ao constatarmos que, com relação exclusivamente a este tópico, os dois poetas correm na mesma direção, em rios de paralelas edificações sintáticas e desaguam, por conseguinte, neste mar: o solecismo. Então, abranjamos parte da enunciação copiada ao título para fazê-la ecoar assim: “Este defeito tem os versos de Camões e os de Oswald”.

Citamos Oswald, mas poderíamos ter feito referência a outros escritores cujos nomes foram anotados no cânone literário. Os olhos que percorrem a coluna, tendo chegado a este parágrafo sem que a mão do cansaço pusesse carga aos ombros de leitores, percebam conselho parco e indutivo ao fastio: volvam-se na direção dos dois poemas mencionados por nós e constatem o que afirmamos. Com boa dose de descrédito, soubemos que nalgumas partes e sob diversos pretextos há pessoas que não leem e criticam por largos minutos o não-lido. Não respondemos a este, pelo que supomos e cremos acertar, genuíno disparate: a tinta egressa da caneta nomeada certeza fornece textos a muitas mãos, verdades a diversas retinas e ironias a nenhum poeta. Quem explica – sem se enrodilhar em tramas de vergonha – texto que não leu? Os escritores que desconhecem das tradições as matizes são os piores; fazem edifícios sintáticos em que não residem e aos quais não sabem nomear com rigor; envergonham a si mesmos e aos outros.

Repisamos, voltando ao solecismo, que… solecismo,“Este defeito tem os versos de Camões e os de Oswald”. Não terá sido, de algum modo, graças a textos de Oswald e de outros autores contemporâneos a ele que o mundo soube que no Brasil também são escritos poemas? Como essa pergunta relaciona-se ao solecismo do qual partimos?, alguém poderia sugerir. Responderíamos, então, que é possível direcionar o interesse e o estudo a escritores diversos, tenham eles produzido literatura no século atual ou em pretéritos, e percebê-los a heterogeneidade, ainda que limitada, das classificações, a diversidade da língua. E a língua – como nos ensinaram os estudiosos dados a conhecer em fragmento anterior deste texto – obriga(-nos) a falar; obriga(-nos) a externar repetições com sentido.

Antecipando-se ao fim deste texto, há talvez quem pense assim: é incoerente a escrita que coloca Oswald e Camões lado a lado. Supomos que essa afirmação, se houver, despreza o fato de que nós fizemos referência exclusivamente a aspecto de estilo (ou defeito?, para usar a expressão de Jerónymo Soares) que poderia aproximar dois escritos. Seus autores viveram – e esta obviedade nem precisa ser destacada com muita ênfase – em épocas distintas e foram influenciados por contextos sociais diferentes, mas deram forma, cada qual a seu modo, ao solecismo. Em nossa leitura, visamos – é mesmo no sentido de ver a afirmação que nos socorre neste momento – os textos; falamos, portanto, a respeito de estruturas.

Já que a (o) literatura/escritura/texto, se amparada(o) na(s) teoria(s) barthesiana(s), não se estabelece por conjunto de obras repousadas nas estantes e tampouco é posta(o) ao palco luzente graças à afluência de trabalhos aos quais se convencionou inserir no rol das gerações (– pensamos, com relação especificamente à noção de escritura/literatura/texto, que Roland Barthes foi influenciado pela intertextualidade, no sentido com o qual este conceito foi desenvolvido por Julia Kristeva –), as criações literárias podem comunicar entre si – podem não no sentido de concessão, mas sim de eventualidade ou diálogo não necessariamente intencional –, o que independe da época em que foram escritas. Lembramos que a intertextualidade, como a lemos, não requer convergência de ideias entre o(s) texto(s) próximo(s) e o(s) longínquo(s) cronologicamente. Caso contrário, a negação, a divergência, a refutação de um argumento, por exemplo, seriam impossíveis ou estranhas à escritura.

Nesse sentido, é correto que não estamos dizendo que há intertextualidade entre o escrito de Camões e o de Oswald. O que nos interessa é a lição barthesiana segundo a qual a literatura é ação; é grafo complexo e contínuo em que as ciências, sem exceção a nenhum saber humano, habitam. Portanto, com relação ao que afirmamos neste texto, mora na escritura a certeza (provisória) que está a nos fazer ler que… solecismo,“Este defeito tem os versos de Camões e os de Oswald”. Não desejamos pôr evidência sobre o erro de Camões; não somos nós, como demonstra a referência a Jerónymo Soares, autores desse antigo achado. Se nos for permitido, porém, colocar uma questão ao tema, na ausência de capacidades para grandes elaborações, prendemo-nos a esta acanhada (que ecoa –erro?–  graças às terminações homófonas): o que fazer quando há solecismo em alguns versos inseridos no “classicismo” e no “modernismo”? Finalmente, ajuda-nos uma construção a que as portas da normativa abrem-se de modo mais afável, a silepse: os leitores somos convidados a responder ao questionamento. E, segundo nossa opinião, a pergunta esmiúça-se à medida que copiarmos os gestos da menina a que Vladimir Ezhakov deu tom na pintura da qual nos servimos para ilustrar este texto.


Notas:

*O solecismo sobre o qual nos debruçamos agora não é idêntico àquele mencionado por nós quando da publicação do poema “Solecismo” nesta Revista Subversa. Referimo-nos, no correr do atual texto, a verso contido no Canto I d’Os Lusíadas, de Camões. O poema “Solecismo”, por sua vez, é alusão a excerto do Canto II. É verdade, porém, que o poema guarda com este escrito a seguinte relação: ambos os trabalhos abordam a questão do erro.

Cf. BARBOZA, Jerónymo Soares. Grammatica Philosophica Lingua da Portugueza, ou principios da grammatica geral applicados a nossa linguagem. Typographia da Academia das Sciencias: Lisboa, 1822, p. 385.

1. Trata-se, na verdade, de obra póstuma.

2. No Canto III d’Os Lusíadas, Camões faz referência à fundação da Universidade de Coimbra.

3. Referimo-nos à edição dada aos prelos no bojo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Cf. COELHO, Sónia. A Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza de Jerónimo Soares Barbosa: Edição Crítica, Estudo e Notas. Vila Real: Centro de Estudos em Letras / UTAD, 2013, p. 613.

4. Essa ideia pode ser brevemente lida na Aula (Leçon) com que Roland Barthes se apresentou ao Colégio de França. BARTHES, Roland. Leçon: leçon inaugurale de la chaire de sémiologie littéraire du Collège de France prononcée le 7 janvier 1977. Seuil, 1978. Em Língua Portuguesa, a Aula (Leçon) barthesiana pode ser conhecida pela tradução que Leyla Perrone-Moisés deu ao texto.

5. Reconhecemos que a classificação das gramáticas não é evidente. O tema comporta, no Brasil e fora dele, muita discussão.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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