Subversa

Sob uma estrela azul | Pedro Belo Clara


“Starry Night and the Astronauts”, 1972, Alma Thomas


Longas, longas horas de vigília à luz da lua, longas horas de capitulação ao que não tem rosto, ao impossível de se ver e tocar; longas entregas, absolutas, numa cegueira forçada a algo somente pressentido.

Há muito que as corujas se recolheram, e os noitibós não se atrevem ao mínimo ruído. Tão ténues os revérberos celestes destes instantes de eternidade móvel, só permitindo antever o que se não sabe ver. Há ecos que persistem, ainda entoando de fundas distâncias, quase desenhando no espaço de seda negra um olhar gentil, uma mão prudente, uma boca em tímido sorriso.

Os artifícios da fantasia. O que prometem tais espinhos com trajes floridos para que uma e outra vez o coração louco, tão louco, se despenhe sem agravo no seu dilacerante seio? Onde o limite para o engano, o cansaço para a dor? É de sal espesso a fonte que os lábios, uma e outra vez, escolhem para molhar a sua secura.

Este absurdo desejo de ver pedras abrir em flor, de saber a neblina um rio cristalino… Há um pequeno pássaro que canta no fundo da noite, o primeiro sinal de madrugada. A sede da grande vigília sossega quando os olhos, lentos, mergulham em ti: um sonho semidesnudo que estranhas marés depuseram, devotas, nas orlas magníficas de bronze ínclito.

Mas só são tristezas que o coração inventa com toque de pintor doído: não há areal debruado a espuma viva, conchas quebradas na investida da gaivota ou sal amanhecendo em estrela ao sol do meio-dia – só a solidão, a solidão  imensa de quem contempla os campos do alvorecer entregando-se à mudez da erva mais rasteira.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

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