Subversa

Se eu soubesse escrever crônica | Giovane Adriano dos Santos


“A Persistência da Memória”, Salvador Dalí.

Se eu soubesse escrever crônica, falaria do espanto que me causou a robô Sophia quando a vi estampada nas páginas de jornais de toda parte. Acrescentando-se às imagens, é certo, os fragmentos noticiosos e escritos dos folhetins não cumpririam papel diverso de dizer sobre o futuro. Aquela invenção não espelha o amanhã a que, segundo Markus Gabriel, jamais chegaremos senão pelas escritas de alguns autores afeitos à ficção; mas me provocou demasiada curiosidade sobre o que ainda está nos moldes dos dias vindouros. Se eu fosse cronista, compararia este evento – eu queria ter dito invento – à chegada dos bondes elétricos ao Rio de Janeiro, momento histórico bem registrado pelas tintas de Machado de Assis, sem me esquecer de anotar reparo breve: certas tecnologias não chegam tempestivamente a lugares de ausências tantas. Chamo a lugares de ausências tantas – e repito a expressão, porque me fogem os sinônimos – os locais (des)arrajandos de modo a que, por exemplo, o maior escritor daquele chão não tirasse para si sustento das folhas nas quais escrevia sua obra; talvez tenha isso ocorrido no cerne do país imaginário que tenho à mente enquanto escrevo esta coluna.

Algumas vantagens teve o escritor daquele tempo: viu diante de si o bonde – sem que páginas jornalísticas intermediassem contato com a novidade chegada à capital; comparou a tecnologia que o ia levando a outras que caíam na desimportância; conhecia bem a língua literária, escrevia à tinta. A todas essas coisas reputo muita utilidade, mas não conduzo esta a patamar mais significativo que aquela. Afinal, noto-lhes e anoto-lhes as seguintes relações: a primeira remete à experiência e tem motivo empírico; a segunda, ao sentido das proporções, digo mais preciso, das identidades, semelhanças e distinções; a penúltima, ao estudo dos textos idos há muito ou pouco tempo aos grafos forjados pelos pares. E escrever à tinta, a qual fim se dedica? Ao de exercício de caligrafia, diria eu em outra época, quando me tomava por hábito rabiscar à tarde sobre o caderno escolar. Hoje, porém, às vésperas de enviar o texto de dezembro à revista, recupero que às vezes o papel e a caneta prestam-se ao resguardo das ideias, razão por que, agindo eu de modo a repercutir este raciocínio que não é verdade inconteste, teria publicado este mês sobre palimpsesto que interpretei em José Saramago.

Perdi as linhas que escrevi para serem tornadas públicas este mês na coluna. E, como sei que tenho apenas duas leitoras: uma é jovem moradora do Alentejo, a quem o texto sobre o nosso Nobel poderia causar riso de alegria ou de tédio; outra, se não me engano, trabalha em alguma livraria de Belo Horizonte, passou por mim na Savassi e disse que eu deveria ‘encontrar estilo não estranho’, porque estilo, completou ela, muito pacienciosa e atenta, ‘é modo de escrever espantos’. A essas leitoras representativas de minguado número e de muita atenção, dedico o fragmento que encontrei em entrevista de quem soube elaborar crônica. Refiro-me a esta articulação de Rachel de Queiroz:  “Agora recebi um computador de presente e estou começando a aprender”. A máquina que possuo, porém, está muito, muitíssimo distante, devo ser exato, daquela a que fiz alusão no parágrafo inaugural e também é diferente daquela com que a autora foi agraciada, pensamento que não me conduz a juízos diversos destes: conheço muito pouco sobre o passado e menos ainda sobre o futuro. Nunca andei de bonde. Jamais conversei com robô.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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