Subversa

Sarai-Sara | Felipe G. A. Moreira


“A jornada de Abraão de Ur para Canaã”, József Molnár (1850).


Naquele tempo, eu tinha saído da mesa do bar. Eu tinha mijado no banheiro. Eu tinha voltado. Leve. Feito O Deus Feito Carne. E dizia, então, que, ó, Bolsonarista-raiz, também não é o caso que a única poesia que tem uma função primária de abordar de modo, sobretudo, emotivo disputas é essa das escrituras. Todas as outras poesias, tipo a poesia metamodernista, também têm essa função. A razão é: a poesia das escrituras não esgota todo o âmbito do sentir.

Mais exatamente: é motivado abordar de modo, sobretudo, emotivo disputas por meios que não estão presentes nas escrituras. Na verdade, eu vou insinuar, durante as colunas dessa Fase 2, que é justamente isso que vários poetas (no ocidente) têm feito mais ou menos implicitamente durante mais de dois mil anos. Mais ou menos implicitamente o que eles têm tentado é mostrar os limites do velho testamento, da bíblia dos judeus. Eles têm tentado expandir essas escrituras.

Reescrever as escrituras. Dizer o que não está lá. Dizer que o que está dito lá não basta. Que é preciso continuar o trabalho desses que escreveram essas escrituras lá talvez nos séculos 7 ou 6 antes de cristo, ou talvez mesmo antes disso. Que é preciso tratar dessas disputas novamente, de outro modo, articular outras disputas também. Isso porque a gente agora é outra.

O mundo é outro. Você e eu: nós não somos Abrão-Abraão. Nossa dor é outra. Nós estamos sempre carecendo de alguma outra coisa que ainda não foi dita e…

Ah, mas isso é sacrilégio, porra! O Bolsonarista-raiz me interrompe e diz que: já tá tudo lá nas escrituras! Tudo que você precisa de poesia tá lá! Não é meio que isso que essa ministra da mulher, da família e dos direitos humanos do governo Bolsonaro, essa tal de Damares Alves, tem insinuado? Que meio que as escrituras bastam? Que o resto que é dito não pode contradizer ou revisar o que está lá? Que, em suma, menino veste azul e menina veste rosa?! Rá. Glú! Glú! Rá! Ie. Ié.

Concordo. Gente feito a Damares, o Silas Malafaia, o Marcos Feliciano, etc. Eles parecem sugerir que as escrituras bastam. Que não tem motivação fazer outro tipo de poesia —a não ser, talvez, que seja para mais ou menos repetir o que já está nas escrituras. Mas…

Então! Fim! Alto lá, anão! Essa história de menino veste azul, menina veste rosa, que nem no velho ou no novo testamento está… Que é que tem?! É isso mesmo, porra! É Bolsonaro! Olha, considere de novo os capítulos 12 a 21 do Gênesis. Mas foquemos aquela cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara. Isto é: a esposa daquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão. Essa mulher que também é do povo de Israel. Ela também está engajada numa disputa sobre o que é a sua essência.

Assim.

De um lado, Deus (na leitura tradicional) ou uma tendência (na leitura alternativa) dessa cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara alega que ela precisa ser chamada de Sara. Isso porque a essência dela é a de ser a mãe de nações (Genesis 17:15–16). Daí, Deus ou uma tendência dessa cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara também alega que a função da vida dessa mulher é a de agir de acordo com sua essência de ser a mãe de nações.

Por outro lado: essa cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara ou uma outra tendência dessa mulher acha que a essência dessa mulher é a da ser uma minha princesa. Logo, o nome dela precisa ser Sarai. Logo, ela precisa viver em harmonia com sua essência de ser uma minha princesa.

Nisso, ela mesma não pode levar a sério a tese que ela seria a mãe das nações. É por conta disso, como diz a tradução do Pe. Matos Soares, que ela “riu-se secretamente, dizendo: Depois que sou velha, e meu senhor avançado em anos, entregar-me-ei ao deleite?” (Genesis 18: 12).

Ser a mãe de nações é diferente de ser uma minha princesa.

A primeira é aquela que é a esposa daquele que é o pai da multidão. Ela pare um filho desse pai, Isaac (Genesis 21: 1). Do útero dessa mulher, então, surge a gente do futuro, o povo de Israel. Uma minha princesa só é uma esposa de um grande pai. Ela é estéril. Do útero dela: nenhum povo de Israel nasce. Sobretudo, ela não pode dar “à luz aos noventa” (Genesis 17: 17).

Minha interpretação é que os capítulos 12 a 21 do Gênesis também tem a função de abordar de modo, sobretudo, emotivo essa disputa da Sarai-Sara. Nisso, o texto serve para fazer o leitor sentir que essa mulher precisa acompanhar o pai da multidão. Ela precisa se tornar o que ela é. Isto é: Sara, ao invés de Sarai; a mãe das nações de cujo útero de mais de 90 anos nasce Isaac, ao invés de meramente uma minha princesa estéril. Para tanto, ela precisa seguir os imperativos desse meu outro poema ready-made: o Sê mulher do teu homem”. Esse é outro poema criado a partir de certas deformações das passagens do Gênesis tratadas aqui.

E o azul? E o rosa?

Olha, o que está implícito nessa “piadinha” da Damares é: homens devem agir de acordo com certas normas do gênero masculino que talvez só mesmo alguém feito aquele que se torna propriamente Abraão possa satisfazer; mulheres devem agir de acordo com normas do gênero feminino que talvez só mesmo alguém tipo aquela que se torna propriamente Sara possa satisfazer.

E qual é o problema disso?! O problema é que essas normas podem ser opressivas. Podem fazer com que todo mundo se sinta aquém do que eles mesmos são. Podem criar um desprezo geral pela própria humanidade. Que?!

Considere Sarai-Sara. Para se tornar, propriamente Sara, para se tornar o que ela é, o Gênesis insinua que ela tem que seguir uma norma do gênero feminino, a de seguir o seu homem, de um modo que é, bem, de cair o cu da bunda, para falar de modo pagão. E, olha, eu estou dizendo que é de cair o cu da bunda não só das “Femi-Nazis”, pra falar no seu vocabulário.

Acho que é mesmo de cair o cu da tua própria bunda, ó Bolsonarista-raiz. E mesmo o de gente evangélica que frequenta igreja. Por que?

Porque, para essa mulher se tornar propriamente Sara, a mãe das nações, ela parece precisar se prostituir para que Abrão-Abraão se torne o que ele é. Isto é: o pai da multidão. Quero dizer: ela precisa dizer que ela é apenas “irmã” desse o pai da multidão, e não irmã e esposa, quando eles imigram para o Egito (Gênesis 12: 13). E note que quando essa mulher diz que ela é irmã desse homem, ela não mente. Eles de fato parecem ser irmãos. Veja o Gênesis 20 e o 26:11.

Mas, enfim, aquela que deve se tornar Sara omite que ela é a esposa daquele que deve se tornar Abraão. Ao omitir, ela deixa que o faraó a tome “como mulher” (Gênesis 12: 19). O que está sendo sugerido aqui? Não te parece que o texto sugere que ela se prostitui para que Abrão-Abraão se torne justamente o pai da multidão? Que, nisso que Sarai-Sara se deixa tomar como mulher pelo faraó, ela beneficia o pai da multidão? Que ele é “bem tratado” por conta disso (Gênesis 12: 13)?

Daí, eu não acho louco dizer que Abrão-Abraão tem algo de Chuck Traynor, que meio que todos os cafetões abusivos também são filhos desse o pai da multidão talvez… Também não acho louco dizer: tem algo de Sarai-Sara em Linda Lovelace e mesmo que todas as mulheres abusadas são filhas de Sarai-Sara. Não te parece, então, que é motivado fazer uma poesia que aponte para outro lugar? Uma poesia que não insinue que, para se tornar o que ela é, essa mulher precisa meio que se prostituir? Você diria que isso é coisa de “Femi-Nazi”? Sério?!

(Silêncio da parte do Bolsonarista-raiz).

Mais: para Sarai-Sara se tornar propriamente Sara, ela propõe que Abrão-Abraão procrie com a escrava, Agar. Veja: Gênesis 16:2. Assim ele o faz. Porque, nesse momento do texto, aquela que deve se tornar Sara, ainda não assim se tornou propriamente. Ela é só uma mulher estéril. Daí, do útero de Agar: Ismael nasce. E note que Agar também está seguindo os imperativos de Deus ou de uma tendência de si. Esses imperativos que constituem esse outro poema ready-made meu: o Volta do deserto.

Mas aquela que precisa se tornar Sara parece ter ciúme de Agar. Da fertilidade de Agar. Do útero de Agar. Do filho de Agar. Logo, Sarai-Sara a maltrata. Daí, Agar foge com seu filho ainda no útero para o deserto. Mas ela volta. Deus ou uma tendência de Agar comanda e ela volta. Leia o Gênesis 16: 6-15. Leia também o Gênesis 21: 9-10. Nessa passagem, Sara pede para Abraão expulsar Agar para o deserto de vez. Assim ele o faz. Como se não fosse nada demais. Como se não fosse moralmente injustificado. Como se não houvesse uma falta de companheirismo feminino aqui. Como se a justificativa de Sara de que Ismael “escarnecia” de Isaac fosse persuasiva (Gênesis 21:9).

Isso, para você, basta? Quero dizer: você não vê motivação num tipo de poesia que aborda de modo, sobretudo, emotivo disputas de um outro jeito?

(Silêncio da parte do Bolsonarista-raiz).

O que eu estou sugerindo é a que a poesia da bíblia dos judeus, do velho testamento dos cristãos não basta. Que tem pertinência fazer outro tipo de poesia. Por exemplo, uma poesia que faça justiça aos que acham que aquela cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara, devia mesmo abandonar aquele cujo essência talvez não seja nem a de ser um grande pai ou o pai da multidão. Mas, sim, o pai de todos os homens abusivos.

Feito: uma poesia que faça o leitor sentir que essa mulher não devia procurar se tornar nem Sarai, nem Sara. Mas, sim, aquela cuja essência é a de ser a mãe de todas as cachorras pagãs. Ou qualquer outra coisa que não seja nem bem o tipo-esposa, nem bem o tipo-puta. Qualquer outra coisa que seja indiferente a Deus ou aquilo que em si (tipo, uma vontade de ordem, para falar como Rudolf Carnap) quer agir de modo igualitário e contribuir para uma comunidade; que sacrifica o que é o mais singular de si mesmo ou de outros para que essa comunidade se fortaleça; que está disposta a se prostituir, a sacrificar mesmo um filho em nome de uma comunidade, tipo, a comunidade de Israel.

Estou pensando numa poesia que quer fazer justiça a uma mulher que só crê num Deus que te comanda ou na parte de si (tipo, uma vontade de poder, para falar como Friedrich Nietzsche) que quer libertariamente expressar o que é o mais singular de si, independentemente se isso beneficia uma comunidade.

Assim.

Cantando para esse o pai de todos os homens abusivos, no estilo de uma cachorra da Gaiola das Popuzadas: é minha, é minha a porra da buceta é minha. A porra da. Não é de nenhum tipo de pai. Mas a poesia que procura fazer justiça ao Deus que te comanda a ou à parte de si que quer libertariamente expressar o que é o mais singular de si não surgiu com o funk carioca contemporâneo. Catulo já estava servindo a esse Deus ou a essa tendência de si lá no século 1 a.C. Mas o Bolsonarista-raiz diz, então, que mas… Mas eu o interrompo. Eu digo que, peraí. Careço de mijar de novo.


FELIPE G. A. MOREIRA é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras

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