Subversa

Retrato de São Tomás de Aquino quando poeta | Felipe G. A. Moreira


Andrea Mantegna, “Lamentação sobre o Cristo Morto” (1475-1478)


O Sol:  prestes a nascer. Na praia de Ipanema. Eu dizendo, para o Bolsonarista-raiz, que eu também sou um filho de Israel. Você também é um filho de Israel. Isso no sentido que reagíamos e, por vezes, nem estamos lá plenamente conscientes dos pressupostos de uma tradição judaica. Essa de Abrão-Abraão, Sara-Sarai, etc. Agora, a diferença entre nós é imensa.

A razão é que, por um lado, eu sou mais eu. Risos. Não risos. Eu sou mais eu porque eu quero, como disse na última coluna, seguir F.G.A.M. e seguir F.G.A.M. é seguir Jesus, ao menos naquela minha leitura lá. Mais: eu quero me fazer sentir e fazer todo mundo se sentir mais divino.

Eu quero maximizar as minhas próprias e as das gentes todas vontades de poder e de ordem numa vontade de síntese. Eu quero ser libertário e igualitário ao mesmo tempo feito um Deus feito carne. Logo, eu também sou mais nós. Pedro, por que você não crê em mim? Por que você não crê que aquele que me viu, viu o pai? Tu tá de sacanagem… Agora, tu vai ficar me chamando de Pedro?!

Vou. E, nessa, eu só tô meio que brincando. Tal como eu só meio que sigo Catulo. Pedro, peça outra Franziskaner. E ele pediu. E nós sentamos num quiosque. E eu disse que o teu problema, Pedro, é que, no fundo, você só votou no Jair (Falso Messias de Cu é Rola) Bolsonaro porque você é um pobre coitado de um escravo de um direitola conservador doente da porra que ainda sente aquilo que o São Tomás de Aquino poeta queria fazer as gentes todas sentirem. Vai se fuder!

Irmão, por que você não crê que aquele que me viu, viu o pai? Porque você tá querendo me fuder. Eu não quero te fuder. Eu quero te curar. Eu quero te fazer sentir mais divino. O “milagre” que eu quero dar testemunho é o da sua conversão à poesia metamodernista.

Para falar como você: risos. Não risos. Risos. Não risos. Você tá se convertendo sem nem perceber. Eu dizia, então, que eu só quero te dizer que, olha, acho que você nem sabe o quanto São Tomás de Aquino tornou a sua vida menos divina. Porque, no fundo, a poesia dele é talvez tão ou mesmo mais influente do que aquelas poesias do velho e do novo testamento. Mais do que um Bolsonarista-raiz, você é um tomasiano Nutella.

Essa coluna vai ser só pra me zuar?! Pedro, eu não quero te zuar. Eu quero te curar. Nisso, eu cantei gregoriano em Latim o “Pange Lingua” (isto é, o “Canta, Minha Língua”) do São Tomás; poema que pode ser encontrado aí na web facilmente. Depois, eu também recitei em português esse poema que foi escrito em algum momento do século 13. Ou seja: mais de 1200 anos depois de cristo. E o Bolsonarista-raiz disse. Achei belo. Você não acha?!

Sim! Acho. Acho também o seguinte: é meio que óbvio que esse poema satisfaz, sim, um critério estético tradicional sobre o qual eu já falei quando tratei de um poema do Antonio Carlos Secchin. O critério é: acordo com o belo. Diria que esse critério é satisfeito quando um poema tem as características dos poemas do São Tomás. Tipo: o poema se vale de alguma métrica e representa a pessoa de fé que pensa, como eu já disse na coluna sobre a Francesca Cricelli, mais ou menos assim.

Antes. Nós tínhamos uma pátria. Isso porque nós éramos só alma. Agora. Nós estamos no exílio. Nós somos almas presas em corpos. Um dia. Nós nos repatriamos ou não. Nos repatriamos se agirmos de acordo com as normas cristãs. Ou não. Porque se não agirmos de acordo com essas normas, ficaremos no exílio pra sempre. Outro nome do exílio pra sempre é inferno.

E me parece que o que o “Canta, Minha Língua” quer fazer a gente sentir é: a existência tem mais ou menos valor tanto quanto a existência é mais ou menos imaterial. Logo, para viver de modo valoroso, precisamos venerar a imaterialidade divina e nos libertar daquilo que é material em nós. A razão é que o que é material em nós nos faz pecar. As normas cristãs, então, servem para reprimir nossas tendências de pecar.

Eu tenho algumas evidências para ler o poema assim. Primeiro, ele elogia Maria por ela ser uma “virgem intacta” (intacta virgine) que concebeu Jesus sem pecado, isto é, sem sexo. Mais: o poema propõe que nós, seres humanos, “veneremos curvados” (veneremur cernui) o sacramento que oriunda justamente de um Deus que é puramente imaterial e, sendo assim, para além do pecado. Mais ainda: o poema também sugere que a fé serve justamente para suprir “a fraqueza dos sentidos” (sensuum defectui).

Qual o problema disso? Esteticamente falando, meio que nenhum. Eu meio que amo o “Canta, Minha Língua”. Eu, como você, acho esse poema, sim, belo. Agora, por assim dizer, vitalmente, acho que tem um problema, sim. Como assim? Assim: acho que alguém que realmente sente o que esse poema do São Tomás quer fazer as gentes todas sentirem se torna um tanto quanto imprudente ou até mesmo antinatural. Isso porque não sei como alguém que sente esse tipo de poesia pode não acabar desprezando algo da ordem do humano. Eu estou tentando te dizer que ser humano é também ser material. É estar preso nesse conflito entre a vontade de poder e a vontade de ordem. Logo, negar uma dessas vontades leva ao pior. E tem, por assim dizer, dois tipos de O Pior.

O primeiro O Pior tem um sentido nietzschiano: é o pior dessa gente ressentida daqueles que propriamente exercem a materialidade gostosa, tipo, fudendo cus e gargantas. O pior dessa gente culpada por conta da sua própria materialidade, tipo, com culpa de ter se masturbado. O pior dessa gente que, no fundo, acaba por desprezar o próprio mundo material porque, afinal, esse mundo é muito pecaminoso. Nem sei como alguém pode sentir a poesia de São Tomás radicalmente sem acabar nisso tudo aí: ressentimento, culpa e ideais ascéticos. Porra, eu sou assim?! Um pouco. Você é, sim, um pobre coitado de um tomasiano-Nutella que parece ressentir gente que transa com gente do mesmo sexo. Por que você se importa com o cu alheio? Tem algo de ressentimento nisso.

Também não acho louco dizer que talvez você mesmo se sinta um tanto quanto culpado de sentir um pouco de atração por, sei lá, uma dessas travecas meio lindas, meio feias da Atlântica. Mais: você constantemente parece desprezar o próprio mundo. Evidência: você está sempre puto. Sempre com essa raiva insuportável. Essa raiva insuportável de merda de cachorro, de mendigo, de tudo.

Pedro, eu quero te curar. Me levando pro baile funk?! Não simplifique por demais as coisas. O funk também pode levar a um segundo tipo de O Pior: o pior de ignorar toda vontade de ordem, toda vontade de contribuir para qualquer comunidade e ficar numa só de putaria pela putaria. Isso também pode ser antivida. Pode ser suicidário. Tem algo de suicidário nesses funkeiros excessivos.

Não é nada disso que eu estou propondo. Não sou a favor de nenhum caos moral onde, sei lá, há uma ausência do estado e tem valor um traficante andando armado intimidando a população. Traficante cantando proibidão. Estuprando grupalmente meninas de 12 anos. Cheirando cocaína até cair o nariz. No fundo meio que querendo morrer o quanto antes, o mais cedo possível, tipo, tomando tiro da polícia. Porque só tem valor na vida fuder, fuder, fuder, até morrer. Até o pau cair.

Tenho tanto horror disso quanto de um tomasiano-raiz. Um desses padres antinaturais cheios de ressentimento, culpa e ideais ascéticos. Esses padres que, no sábado, perdem a linha nas boates gays de Roma e, no domingo, dão sermão dizendo: dar o cu é pecado, gozar na boca é pecado, usar camisinha é pecado. Você entende? Eu entendo. Bem, eu acho que entendo, sim. Fez-se, então, um silêncio. Ao fundo: nós ouvimos o som das ondas. E o Bolsonarista-raiz olhou para o céu e disse.

Eu acho que eu estou começando a entender quando você diz que só dá para crer num Deus que faça justiça às vontades de poder e de ordem ao mesmo tempo. Um Deus da vontade de síntese. Um Deus cujas inclinações mais singulares servem aos propósitos mais comunitários e cujas inclinações mais comunitárias expressam a singularidade de si.

Oh, Pedro… “Eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Risos. Não risos. E o Bolsonarista-raiz perguntou. Mas o que seria o inferno nessa sua visão? O que seria o mal? Eu digo na próxima coluna.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2.

E-mail do autor: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E o seu Site pessoal.

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