Subversa

[Resenha] A liberdade de ler e escrever| por William Soares dos Santos

 

E quando a Subversa é resenhada? Convidamos William Soares dos Santos para uma leitura comentada a respeito do número 04, Volume 13 – Novembro de 2020. O resultado do convite, o qual William aceitou gentilmente, você pode conferir abaixo.


A edição da Revista SUBVERSA – Literatura Luso-Brasileira, VOL. 13, n. 04, publicada em novembro de 2020 tem como preâmbulo um pequeno texto em que as editoras desejam boas leituras, depois de terem chamado a atenção para a percepção de que “Ler é escrever por dentro, em silêncio extremamente alto, a ponto de se transformar em canção íntima, gravada pelo coração”. A asserção é fortemente poética e nos chama atenção para o fato de que ler e escrever são atos continuamente interligados e é bastante improvável a determinação de onde começa um e termina o outro.

A primeira colaboração do exemplar é de Bárbara Frátis, que no poema intitulado Esvazie-me trabalha com a questão do tempo, um dos temas fundamentais que a nossa civilização nos legou e com o qual temos, mais cedo ou mais tarde, de nos confrontar em suas múltiplas perspectivas.

No poema o dia que acabou de ser sol e já caminha largo Deanna Ribeiro dá continuidade à temática do tempo ao explorar a passagem do dia em um poema cheio de iluminação em que a luz o atravessa de ponta a ponta.

Em Alquimia, de Eliana Machado, o ritmo peculiar comanda o labor da poeta, que nos lembra da unidade que se faz presente no sentimento do amor.

Observar é o texto em que Maria Martins Torres se utiliza da lírica para nos remeter a um estado de contemplação próximo ao buscado pelos monges zen, nos levando a uma possível percepção de que a poesia também pode fazer parte do estado de “religare” que, muitas vezes, nos atravessa.

Com Minha alma no reflexo do espelho e Aviário, Eber S. Chaves explora, primeiramente, a dualidade do ser e a nossa vontade de ocupar espaços para além do que nos parece possível e, no segundo texto, os pássaros, ora são metáforas que nos rementem às transformações sofridas pelo homem em sua existência, ora servem como alerta para o mal que causamos à natureza ao nosso redor.

Em Saudade tem cor de sol da tarde, Íris Ladislau coopera para que o “sol”, a “luz” e o “tempo” continuem sendo elementos que permeiam a edição da Revista em uma poesia que possibilita múltiplas claves de leitura, mas que, notadamente, nos fala sobre a dificuldade do crescimento e desse sentimento que parece ser central no mundo lusófono, que é a saudade.

Em Crónica de Santa Teresa, Teresa Melo se utiliza da prosa poética para nos trazer, em dois textos de datas diferentes, iluminações a respeito de nosso estar no mundo.

Com Heterotopia, Maria Cristina Martins desenvolve uma poética de entrelugares, em que o eu lírico constrói sentimentos ambíguos de pertencimento e não pertencimento.

Por fim, em Odiáveis Amáveis, Vinícius Vianna explora os meandros da percepção. “O que é perceber o mundo?” parece ser a pergunta que o seu texto mais deseja evocar. A imagem do sol surge também neste texto final, mostrando o cuidado da composição da revista, que parece ter sido organizada propositalmente a fim de gerar o efeito de circularidade completa da luz solar em que se ilumina o leitor e a leitora que se dedicarem a lhe atravessar as horas.

Não posso me omitir de mencionar que a revista traz o trabalho artístico de Genaro de Carvalho. A figura de um pássaro estampada na capa da revista nos remete à liberdade de voo que a literatura exige de nós. Que a Revista SUBVERSA continue a nos incitar ao exercício da liberdade de ler e de escrever, uma missão nada simples pois, em tempos tão funestos, o preço da liberdade é e sempre será, como colocou Bertold Brecht, a eterna vigilância, mas também o próprio exercício da liberdade por cada um de nós.


William Soares dos Santos (1972), é carioca, professor da UFRJ e escritor. Possui graduação (1997) em Licenciatura em Letras (Português/Italiano) pela UFRJ e em inglês pela Universidade Estácio de Sá (2019), mestrado (2002) em Linguística Aplicada, pela UFRJ e doutorado em Letras (Estudos da Linguagem) pela PUC-Rio (2007). Escreve livros literários e acadêmicos. O seu último livro literário publicado é o romance Memórias de um triste futuro, pela Editora Patuá, São Paulo, 2020. Página do autor: http://williamsoaresdossantos.com.br/index.html

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