Subversa

[Resenha] Fios da memória | por Marta Cortezão

 

E quando a Subversa é resenhada? Convidamos Marta Cortezão para uma leitura comentada a respeito do número 03, Volume 13 – Outubro de 2020. O resultado do convite, o qual Marta aceitou gentilmente, você pode conferir abaixo.


Para Proust, a apreensão da realidade se dá de forma inconclusa e insuficiente, pois a memória involuntária é vista como catalisadora de um tempo perdido, resgatado e ressignificado pelo intelecto através de fragmentos temporais que nos dão uma imagem relativizada da realidade plena:

“[…] nem tudo o que acontece me ocorre: o sino tocando em Saint Hilarie. Muitas vezes até essa hora prematura soava duas batidas a mais que a última, havia, portanto, uma que eu não ouvira, algo que não acontecera para mim” (PROUST apud PEREIRA, 2014, p. 10-11).

Esta perene dinâmica de reconstrução da memória, de caráter plural e instável e que beira a fantasia e a invenção, trouxe-me a imagem de Penélope, a que retoma, em sua longa espera, os fios da memória para dar forma ao manto de tessitura caleidoscópica, incessante e complexa.

No poema “Roubo qualificado de Lisle a Debussy”, de Sofia A. Carvalho, há um “segredo fechado nas mãos/ feito de açúcar e pão” que refaz o caminho fragmentário da memória para reconstruir imagem da “rapariga dos cabelos de linho”. Estes mesmos fios, tecidos a exemplo de Penélope, constroem “Exílio”, de Vinícius Vianna, onde se evoca “uma história de amor infantil”, onde o eu lírico “vivia os dias não/ apenas os segundos/ – miséria de hoje –”. Há uma tessitura ressurrecionista e evocadora de instantes modulados pelo pensamento humano, como nos (re)afirmam os vários textos literários deste volume 13 de nº 3 da Revista Subversa, inclusive o poema “tão feliz”, de Raí Prado Morgado: “tudo que se esquece/ é também uma presença/ carrega algo de abrigo”. Ou ainda na presença/ausência de uma saudade salgada, metaforizada pelo mar e prenhe de imagens pulsantes, presente em uma realidade-recorte, mas que se (re)cria na ficção literária do poema “Salgada Saudade”, de Gusthavo Rosco: “Salgada saudade/ De ter a pele tocada/ De ser presença/ Que cala o vazio/ Preenchendo o momento/ Com completo silêncio”, porque é possível, como bem afirma Lucas Luiz, em “Compasso”, que “No compasso do tempo/ os troncos apenas/ arranham a existência/ (…) já que não somos os mesmos,/ já nos fizemos múltiplos”. É este caráter instável e plural da memória – em incessante movimento de criação, desconstrução e renovação de imagens – que (entre)cruza os fios da memória tanto na esfera individual quanto coletiva. No dizer de Bosi “[…] lembrar não é reviver, mas refazer, reconstituir e repensar com imagens de hoje, as experiências do passado” (BOSI, 2003, p. 55).

Em “Poeira”, Glauber Costa aborda a ideia de intangibilidade da lembrança lançando-nos a pergunta “Com que direito alguém pode imaginar uma lembrança, enquanto não se tornou espírito, inatingível, intacto, inquebrantável?” Uma pergunta de profundidade que nos remete ao caráter diáfano e precário de recomposição das imagens da memória.

Concluo prazerosa leitura afirmando que o texto literário é o suporte para a produção destas memórias-imagens, devido à liberdade ficcional e polissêmica que o habita. E por que não usar a metáfora de que o texto literário é o intérmino sudário tecido pelos fios da memória que se (re)modelam na busca proustiana pelos instantes revisitados no rastro da insuficiente memória involuntária do passado? Um grande bem-haja à Revista Subversa pela edição deste incrível número!

REFERÊNCIAS:

BOSI, Eclea. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: Cia as Letras, 2003.

PEREIRA, Danielle Cristina Mendes. Literatura, lugar de memória. Disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/download/16314/12499. Acesso 7 de Janeiro de 2021.

 


Marta Cortezão é amazonense radicada na Espanha desde 2012. Escritora, poeta, ativista cultural, professora, tradutora, gestora de lives. Participou de diversas antologias/revistas nacionais e internacionais. É autora dos livros de poesia “Banzeiro manso” e “Amazonidades” (no prelo).

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