Subversa

“Quem é este tal de Garangó?” | Giovane Adriano dos Santos


“calar-se não é ficar mudo, é recusar-se a falar – logo, ainda é falar.”

Jean-Paul Sartre

 

Patrick Allien, sem título.


O questionamento acima, ao qual respondiam “[é] foguista do Engenho do Murituba”[1], está escrito no início do capítulo vinte e nove do livro com que Francisco Dantas se apresentou como romancista. Elas e/ou eles, de acordo com o que nos sugere a conjugação verbal (“respondiam”) encontrada em Coivara da Memória, identificam Garangó por meio da referência às atividades laborais por este desempenhadas no bojo da sociedade a que o livro faz menção. “É foguista”, diziam, como se a alguém estivessem respondendo algo específico sobre o trabalho da personagem. Não é só isso, contudo, que o pretérito imperfeito escolhido pelo autor indica-nos, pois “respondiam” provoca efeito de continuidade, isto é, respondiam repetidas vezes à pergunta egressa não sabemos de qual(is) boca(s): pergunta e resposta constantes; esta insuficiente àquela – e o contrário também é certo. A repetição sugerida pelo texto talvez ocorra porque à indagação feita e respondida não sabemos por quem se somam as origens ocultadas da (e pela) personagem que é excluída (e protege a si) por meio da oposição(?) entre fala e silêncio. E se houvesse sido perguntado de onde veio Garangó, afrodescendente trabalhador do engenho? E se houvesse sido perguntado por que alcunharam[2] ao negro Garangó?

Negro Garangó? É-nos permitido acrescentar a preposição “de”, esquecer brevemente o acento agudo (´) e reparar na voz geógrafa aí escondida pela maestria textual, lembrando que as feições constitutivas da tonicidade da Língua Portuguesa, nem sempre evidenciadas por acentos, são-nos às vezes mais fascinantes que a grafia das palavras desse idioma? Respondendo sim a este questionamento, continuemos: em Portugal, grafa-se e sonoriza-se frequentemente “facto”, “aspeto”; no Brasil, “fato”[3], “aspecto”, e isso não nos impõe necessária diferença de significado entre tais palavras ditas e escritas de um lado ou de outro do Oceano Atlântico; mas, se forem grafadas as palavras “sábia” (adjetivo) e “sabiá” (substantivo), ocorre – para além do enfoque relacionado à morfologia que as distingue – modificação referente àquilo que elas significam, o que se constata graças ao tom aí demarcado e à revelia de os fonemas que as compõem serem iguais e estarem lançados identicamente neste texto. Devemos reparar no momento em que, propagadas pelo ar afora, tornam-se voz, diferenciando-se, enfatizamos, significativa e etimologicamente, podendo ser olvidado, apesar disso, aquele ponto do qual partimos: a classe gramatical, antes distinguida pelo acento, é facilmente questionada pela presença de artigos (“a sábia”; “o sabiá”, restando a dissemelhança reduzida a apenas uma classificação: substantivos), mas ainda seria relevante dar atenção às distinções permanecidas. E, sendo assim, o acento refere-se também à geografia das palavras, às fronteiras idiomáticas e vai-se tornando mapa sem o qual “sábia” e “sabiá” não se distinguem de modo evidente.

E qual o motivo de acrescentar a preposição “de”? Ora! Também em tal postura há certo cariz (geo)gráfico, afeito ao contexto de onde se enuncia, àquilo que é enunciado e ao enunciador: não é por acaso que podemos dizer – e o fazemos com alguma frequência, referindo-nos a nós e aos outros – “pessoa do Brasil”; “pessoa de Portugal”, situação que faz as pessoas dos excertos aqui expressos não serem equiparadas aos lugares aos quais se vinculam, pondo em relevo que, nas situações em que inexiste a preposição – esta juntada ao artigo, contração, ou dissociada dele –, pessoa e lugar aproximam-se, mas disfarçam-se, o que atribui a “pequenas” palavras ditas ou escritas em  Português, “de”, “de” mais “o” e “de” mais “a”, por exemplo, significados que remetem à noção de identidade. Então, digamos assim: “negro [de] Garang[o]!”, isto é, oriundo da região que seria tornada département de Burkina Faso, lugar situado na África Ocidental e que – antes da independência e do nome que hoje possui – esteve sujeito a ações explicitamente colonizadoras, e questões não resolvidas pelo romance impõem-se aos nossos olhos: de onde veio “Garangó”; não a personagem, mas o nome que a distingue? Por que ela se recusava a falar, se “sabia leitura e tinha razoável instrução”?[4] E por que é “sem origem e sem passado”?[5], ainda que tenha sido nomeada antes de chegar ao Murituba? É como se o tabelião-narrador nos dissesse: “Eis a personagem, criatura de cuja vida pregressa nada se sabe, chamada, contudo, Geraldo!”, levando a efeito essa salutar contradição que, oferecido o contexto, pode remeter a lugares outrora explorados por alguns poderes da Europa.

Voltemos ao título deste pequeno texto e desconsideremos, conforme inicialmente sugerido, o acento agudo, o que nos pode fazer notar a ambiguidade do questionamento: “Quem é este tal de Garango?” Se assim o fizermos, o “de Garango” passa a assemelhar-se ao “de Portugal”, exemplo do parágrafo precedente que remete a um lugar específico. Não há, então, necessidade de acréscimo da preposição “de” a nenhum excerto do livro; ela foi devidamente colocada pelo autor, de modo que, se a desprezarmos, mantendo ou não o acento agudo, há variação de sentido: “Quem é este tal Garangó?”; “Quem é este tal Garango?”. Igual situação pode ser verificada nas indagações de que nos valemos para ilustrar a importância da palavra “de” para remeter a lugares: “Quem é este tal de São Paulo?”; “Quem é este tal São Paulo?”. O “…tal de São Paulo” não seria pessoa moradora/oriunda de um estado do Brasil? O “…tal São Paulo”, por sua vez, não remeteria, principalmente, àquele de cujas epístolas temos conhecimento? Em todas essas situações, é certo, a palavra “quem” – a menos que fizéssemos raro uso do idioma, (o que não é o caso), empregando-a em função diversa de pronome interrogativo hábil à indagação “que pessoa?” e acenássemos a um lugar[6] – faz menção a pessoas, sendo, contudo, os fragmentos marcados pela preposição “de” aptos a referir também a localidades.

Nesse sentido, o homem que veio d’África – ele e seus ascendentes, ou diretamente só estes? – para o Nordeste do Brasil é transnominação de um momento histórico registrado por outros romances da Literatura Brasileira: o declínio do engenho. Não é só isso, entretanto, que Garangó representa, pois, personificando a própria coivara que dá nome ao livro, a personagem, a quem as chamas sustentaram vida e morte misteriosas, situa-se entre o passado (rural) e o presente (urbano) das narrativas. Nos tempos áureos do Engenho do Murituba, o foguista-estrangeiro – porque estranho àquele contexto – alimentava a “fornalha, sempre a pedir mais comida com as suas vozes estalidas”[7]; tombado aquele arranjo, “com a falta de labaredas para alimentar, Garangó sobrava no mundo”[8] e, semelhante ao senhor de engenho, cultivava desgostos: os dois olhavam com pesar os destroços do que havia sido útil à geração de muita riqueza; porém, não nos enganemos, cada qual deles estava amparado em razões particulares. Corporificando a coivara, Garangó é encontrado com graves queimaduras, moribundo em meio “a tocos já apagados, metade virados cinza”[9] e, em seguida, conduzido à casa do proprietário daquele chão, finou “como vivera: de mal com as palavras”[10], sem, apesar disso, jamais se enganar. Então, a cena parece resumir: os tempos vindouros não poderiam valer-se da força produtiva de Garangós.

Por fim, encontremos um senão a este texto e percebamos que algumas personagens de Coivara da Memória e leitores dela –alguns ou todos?– imergem-se em dúvidas a respeito da origem de Garangó. As incertezas daquelas talvez derivem das circunstâncias em que foi encontrado o homem e dos diversos mitos criados para significá-lo, excluí-lo e, contraditoriamente, integrá-lo à produção açucareira; as destes, talvez do modo fragmentário com que foi constituída a personagem-foguista. Contra especulações rasas, realizadas por pessoas que circulavam pelos arredores do Murituba, diz-nos o narrador que “a vida pregressa de Garangó passou a ser inventada de qualquer jeito, preenchida com os achados mais estapafúrdios, as versões mais degringoladas”[11]. Se a crítica contida nesse fragmento for desdobrada para além da prosa de ficção e abranger este texto, o leitor nos perdoe; a pergunta que transcrevemos como título permanecerá insistente: “Quem é este tal de Garangó?”.


Notas:

[1] DANTAS. Francisco J.C. Coivara da Memória. São Paulo: Estação Liberdade, 1991, p. 251.

[2] Essa personagem, em verdade, seria chamada Geraldo. Após fugir do lugar em que trabalhava e ocultar o nome com que as pessoas a chamavam, ela é conduzida ao Murituba e renomeada Garangó.

[3] N’A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz utiliza mais de uma vez a palavra “fato” para aludir à roupa (terno). O autor português diz, por exemplo: “Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro”. Não é, porém, a esse uso da palavra “fato” que fazemos menção.

[4] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 234.

[5] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 260.

[6] N’Os Lusíadas, Canto III, há verso em que Camões se vale de “quem” para referir-se a um lugar; na situação específica, o pronome remete à Europa. A construção sintática inscrita naquele texto e mencionada por nós é incomum: “Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,/Pela parte do Arcturo e do Ocidente,/Com suas salsas ondas o Oceano…”. Em razão da hipótese rara com que foi utilizada, a palavra “quem” deixa de equivaler a “que pessoa”, funciona como pronome relativo e alude a porções de terras, tendo, portanto, a sua significação expandida e abrindo espaço para questionamentos.

[7] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 251.

[8] Idem.

[9] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 255.

[10] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 257.

[11] DANTAS. Francisco. op. cit. p. 213.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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