Subversa

Qual autor a personagem leu? | Giovane Adriano dos Santos


“Como encontrar a estrutura, sem a ajuda de um modelo metodológico?”

Roland Barthes

“sem título”, Roland Barthes, 1974.


A reunião de estudiosos que o solo francês viu florescer sobre si, agrupamento do qual resultaria influência sobre os estudos da linguagem e da poética espalhados por muitos países, e que encontraria naquele chão galício repercussão audível para além dos muros de importantes Universidades, entrando para os anais da história sob as penas do que se convencionou denominar (pós)estruturalismo [1], encontra, para o louvor do debate público que coroa a pluralidade de ideias e a busca por respostas a perguntas sobre as quais os clássicos, aparentemente muito distantes de nós, também se debruçaram ao escandir, ao modo deles, versos com que a fama e o costume gregos são parcialmente colocados à vista do século XXI, razão por que, verificado que temos diversos senões a serem respondidos e outros sobre os quais pouco ou nada se escreveu nas páginas da dúvida, o mundo que se faz interrogar escorado em aparelhos de comunicação quase instantânea entre pessoas pertencentes a diversas nações ainda não consegue avançar o passo sem que, frequente e não episodicamente, conduza as retinas que pertencem a si a espelhos que, sendo incapazes de reproduzir cenários aptos a desprezar o referencial assentado na distância frequente da caminhada que não se sabe retorno ou circularidade, podem, contudo, mostrar de onde saem as pegadas munidas de certeza e as que a essas se opõem, boa receptividade ainda hoje.

Nos anos que se vão sucedendo às publicações de, por exemplo, Roland Barthes, Julia Kristeva e Gérard Genette, e mesmo antes, no século XIX, quando outros europeus darem ao mundo conhecer a Teoria da Literatura, ao lermos textos ficcionais, muitas questões ainda se nos impõe frequentemente aos olhos. Uma delas, contemporânea dos primeiros escritos sobre a literatura ocidental dos quais temos notícia e outrora objeto das preocupações de Aristóteles, pode ser elaborada da seguinte forma: o que é personagem? Qualquer que seja a concepção que adotemos para responder ao questionamento – e realmente não sabemos o que é personagem, sobretudo quando nos deparamos com o narrador-personagem, pois não ousamos inseri-lo no rol dos narradores e tampouco no das personagens, o título que damos a este texto evoca algo incomum: a criatura da ficção, agindo para além dos limites metonímicos com que ela se apresenta intérprete do microcosmo semântico que a rodeia, parece ter lido autores que nos são caros.

Referimo-nos ao tabelião que narra Coivara da Memória, escrevendo-a; ele possui concepções acerca de normas sociais que regulam a vida e, alicerçado em certos pontos de partida feitos luzir pela análise desenvolvida nos trinta e oito capítulos de que a obra é composta, anota sobre a acusação que lhe cai aos ombros; mas, como se fosse possível negar a temporalidade inscrita em si, nos objetos do salão da Tia Justina e em tudo aquilo que a memória (passado) ou a retina (presente) alcançam, o homem evoca acontecimentos longínquos e, para dizer o que deseja, se vale de personagens cujos nomes nunca são postos ao texto aleatoriamente: não é sem razão que Sinhá Jovência – ao que tudo indica, morta quando da realização da escritura –, falando da avó do Oficial do Registro, dá vasão a isto a que estamos habituados nomear pretérito mais-que-perfeito; ela fala de um tempo anterior ao do escritor e este, metalinguisticamente, registra também sobre o romance que se faz inserir no passado da personagem cuja palavra com que a chamam e individualizam, talvez arranjada por derivação, apresenta, se afastadas as dúvidas, resquícios morfológicos da latina juvene [2].

Também não é por acaso que a única testemunha da situação mais controvertida da obra, perfazendo intertextualidade com as escrituras [3], chama-se Malaquias e remete àquele que na tradição canônica é considerado professor do anseio por justiça na sociedade posterior ao exílio –, encontrando-se, porém, com a face espelhada, quase contraposta diametralmente, por Seu Ventura, coisas que hão de vir, esta personagem alusiva à incerteza com que o texto ficcional, enciclopédico por essência, supõe que dará conta da pluralidade significante – razão pela qual Seu Ventura, assinalando a fatos vindouros, opera a personificação da dúvida, porque ainda que esse ser ficcional restasse textualmente constituído para induzir certezas, as possibilidades de leituras não se esquivariam pela presença do método.

Nessa trama articulada, o direito, para aquele tabelião, é poder que entra em cena por meio da linguagem, razão pela qual ele, narrador, diz conhecer (d)as palavras, (d)as regras de argumentação, (d)os gestos: dominar a linguagem – ou pensar que a domina enquanto escreve arquivo aos moldes de Jacques Derrida(?) – e (des)construir narrativas que dão ao leitor muitas dúvidas e raras certezas – é, de algum modo, tarefa a que se dedica quem sabe impossível o ensejo de dominar as normas – como de resto também se mostra infrutífera a tentativa de compreensão semiótica induzida por seu ofício de escrever. Ao longo daquelas páginas, o que o narrador-personagem, resumidamente, busca? Sentido. Nessa perspectiva, quando ele nos conta que a personagem “A” ou “B” disse algo, ocorre, com esse discurso a que gramáticos chamariam indireto, aparência a nos sugerir que a estória é momentaneamente contada por pessoa diversa daquela que então fala(va): se assim é, a epígrafe com que iniciamos este texto, embora tenha sido egressa de texto alusivo à literatura francesa, é, em verdade, opinião com que Roland Barthes enuncia para além da indagação: notamos que perguntar sobre o modo por meio do qual se pode “encontrar” a estrutura do texto consiste em duas afirmações implícitas: a primeira sugere que há estrutura; a segunda – derivada da anterior, que a estrutura pode ser conhecida.

O que, em suma, dará sentido ao texto, uma vez que a significação não está inscrita nas entrelinhas à espera de alguém que a faça emanar de empreitada metódica e sempre completamente externa – porque objetiva – àquele significador, difere muita da simples consulta ao dicionário, esforço de pesquisa ao léxico e à historicidade neste entalhada por diversos enunciadores da língua escrita e ágrafa. Realmente, em se verificando que os intentos leitores anseiam por coerência e que não há motivos pelos quais se possam justificar traços e caminhos exatos da leitura (sem que tais limitações afastem de si o perigo de, sob o pretexto de serem análises objetivas, caírem no vão da circularidade argumentativa que nada diz e é errada), verdade é que o texto é plural. Olhamos para as letras constitutivas da obra, escolhemos o método sem o qual a mínima alusão permanece escondida e desprezamos, de algum modo, que a metodologia – alicerçada na suposta objetividade – é também objeto de escolha [4]. É possível, diríamos, se nós soubéssemos elaborar metáforas, que dez pessoas abram janelas todos os dias no mesmo instante e volvam os olhos a um só rumo; com isso, se todas assistirem sempre a evento idêntico, notaremos que elas optaram anteriormente por olhar para aquela direção e que em algum instante precedente escolheram ir à janela.


Notas:

[1] Contudo, deve-se ao suíço Ferdinand de Saussure, cuja obra mais importante resulta das anotações que seus alunos fizeram durante aulas, os intentos da inicial sistematização moderna dos estudos da linguagem. Nesse sentido, podemos dizer (sem acrescentar novidade alguma) que ele fundou uma disciplina, a Linguística, a que futuramente os franceses mencionados por nós dariam especial atenção.

[2] Lemos sobre a origem da palavra jovem em notável filólogo brasileiro: NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Prefácio de W. Meyer-Lübke. 1ª Ed. Segunda Tiragem. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1955, p. 285.

[3] Roland Barthes escreve e entende que o texto é plural. Nós lemos esse “plural” a partir dos intentos semióticos: o sujeito que se submete à linguagem desenvolve a leitura e, dessa atividade, resulta a possibilidade-plural do sentido barthesiano. Na obra do francês, notamos pelo menos dois excertos exemplificativos do que afirmamos: em Leçon, o autor diz que o texto é plural e faz alusão à Bíblia, sem, contudo, apontar o trecho das escrituras a que se refere; n’O rumor da língua, diferente do que se verifica na aula com que Barthes se apresentou ao Colégio de França, há explícita referência ao evangelho de Marcos. Tal referência é acrescida de explicação segundo a qual, repitamos, o texto é plural; dele, texto-tecido, podem ser ouvidas muitas vozes constitutivas da cultura a ecoar. A pluralidade, então, se faz presente no leitor.

[4] “Fecho o livro que trago nas mãos e mexo as retinas até o relógio de nogueira pregado na parede”. DANTAS. Francisco J.C. Coivara da Memória. São Paulo: Estação Liberdade, 1991, p. 11. Cada leitor do romance inaugural de Francisco Dantas poderá ler nesse pequeno fragmento – se revisitar, enfrentada toda a obra, a primeira página daquela ficção – que o narrador leu este ou aquele texto. Nós, porém, não sabemos métodos; deixamos a pergunta posta ao título sem resposta última.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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