Subversa

Pueblo | O Ladrão de Chapéus

Ilustração de Marilia Moser

A alegria contagiante das pulgas. Uma vaca de peruca certa vez me perguntou o que eu pensava sobre nuvens e piruetas. Disfarcei, nunca soube responder com coerência perguntas perspicazes. De toda forma, passei a observar melhor o pastiçal. Outra noite vi uma bermuda saltar de paraquedas e uma camisa de flanela cantar uma seresta para uns olhos d’água. O padre do pueblo andou viajando pelo globo e trouxe do Havaí, além de uma sotaina floreada, um vulcão em atividade na bagagem; já o cusco da paróquia largou de mão o latim, agora só ladra em dialeto taitiano. Vezes muitas, escutei papagaios democratas discursarem, embora sempre tenha preferido ouvir os meus sapatos de atar. Interessante foi ver um macaco em terno risca de giz declamar Baudelaire, enquanto fumava um charuto holandês com uma linda moça sentada na ponta da brasa. Aqui na província as partes nem sempre pertencem ao todo. Um camelo bebedor de champanhe dizia ser o deserto uma grande miragem e que um amigo seu vivia num oásis. Um chinês aperado pealou um urso panda em plena mostardeiro. Verdade seja dita, na província não há mentira. Isso é coisa que os de lá inventam.


BOMQUEIROZ é de Uruguaiana (RS, Brasil) e nasceu embaixo de uma bergamoteira. | BOMQUEIROZ@GMAIL.COM | ler MAIS TEXTOS do autor.

 

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