Subversa

Poesia é inútil! | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo – Fase 2]


Foto oficial do presidente, de Alan Santos.


Poesia é inútil! Eu não suporto poesia!

Naquele tempo, havia um sujeito que falava assim. Eram dois minutos para a meia-noite. Era Sexta-feira. Eu mais esse sujeito. Nós nos conhecíamos desde tempos, por assim dizer, imemoriais. Nós estávamos num dos últimos botecos de Ipanema. Na Rua Garcia d’Avila. E o sujeito meio puto. Mas meio de sacanagem. Meio que naquela onda de me provocar dizendo: que F.G.A.M. se foda! Que se fodam, todos os poetas! Agora é Bolsonaro, porra! Nisso, o sujeito dava um tiro pra cima. ! Isto é: gargalhada do Sérgio Mallandro. Rá! Ie Ié! Glú! Glú! Vai se fuder! Poesia de cu é rola! Nisso, o sujeito começava a gargalhar. Meio puto. Meio bêbado. Rá! Ie Ié! Glú! Glú! Vai se fuder! Poesia de cu é rola!

Eu vou chamar esse sujeito de Bolsonarista-raiz. Ao longo dessa e das próximas 12 colunas, eu vou retratá-lo como um seguidor meio inconsistente de algumas das várias vertentes que podem ser associadas ao governo Bolsonaro. Tipo: a vertente cômica-raivosa; a pseudo-positivista; a evangélica; a meritocrática; a neoliberal; a anti-PT; a militar; a que meio que segue o Olavo de Carvalho; e mesmo uma vertente talvez imaginária, uma vertente neo-tomasiana, um pouco mais sofisticada.

Quero dizer que imagina que o Bolsonarista-raiz muda de uma vertente para outra de acordo com a ocasião. Ele muda feito quem muda de roupa. Imagina também que eu, então, dizia que: mas, ó Bolsonarista-raiz, você me concede, a título meramente argumentativo, que a bíblia dos judeus, o velho testamento dos cristãos ou, ao menos, os capítulos 12 a 21 do Gênesis são poesia? Bem, a título meramente argumentativo, acho que te concedo, sim, ele diz.

Rá! Digo eu. Você vai se arrepender de ter feito essa concessão que, na verdade, é bem problemática. Duvido, e, de passagem, só queria te dizer que o Lula tá preso, babaca! Ahahahaha… Mas diz, aí, ó, Sócrates-Tropical do baby do baby do biruleibe leibe do meu saco! Diz aí sobre o Gênesis.

Eu digo que os capítulos 12 a 21 do Gênesis indicam que essa objeção tradicional à poesia que você manda não é lá muito persuasiva. Isso porque a tese persuasiva é a que eu vou defender, durante toda essa Fase 2 das minhas colunas na Subversa. A tese é que a poesia não é inútil. A poesia tem, sim, uma utilidade. A utilidade é a de abordar de modo primariamente emotivo disputas.

Que!? Fica calminho aí. Eu vou explicar.

Um modo primariamente emotivo é um que tenta fazer o leitor, sobretudo, sentir que uma resposta para uma disputa é persuasiva. Isso porque o que está sendo dito é ou, ao menos, tenta ser belo, sublime, chocante, constrangedor, etc. Um modo primariamente racional é um que tenta fazer o leitor, sobretudo, entender que uma resposta para uma disputa é persuasiva porque, sei lá, essa resposta se segue por meio de uma regra de inferência de certas premissas ou algo assim.

Nem sempre é claro distinguir esses dois modos. Mesmo porque a distinção entre sentir emotivamente e entender racionalmente não me parece ser exatamente clara e distinta. O Assim falou Zaratustra do Nietzsche parece estar usando os dois modos. Mas acho que não estou dizendo nada de muito louco ao crer que, muitas vezes, é, sim, fácil distinguir esses dois modos. Um soneto de Shakespeare, por exemplo. Esse tipo de texto parece ser um modo primariamente emotivo. Pense na Crítica da Razão Pura de Kant como um exemplo do modo primariamente racional.

E as disputas que a poesia aborda são as que meio que todo mundo se importa. Disputas que, na maioria dos casos, a matemática e a ciência empírica não abordam e talvez nem possam abordar. Disputas que as respostas da filosofia nem sempre bastam, ao menos não para todo mundo.

Mas o que é que o Gênesis tem a ver com isso, porra?!

Tem a ver porque, ali, aquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão é descrito como tendo uma disputa. Uma disputa sobre o que é a sua própria essência. “Essência” no sentido de algo que define o que uma coisa é. A leitura mais tradicional é que esse cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão tem essa disputa com Deus. Segundo essa leitura tradicional, o “senhor” (Gênesis 12:1, 12:7, 13:14, 15:1, 15:5, 15:8, 17:1, 17:10) que fala com esse homem é Deus. Eu vou pressupor que um ateu é alguém que acha a existência de Deus inacreditável. Ah, ateuzinho de merda! Rá! Glú! Glú!

Olha, para o meu argumento, não importa lá muito crer ou não crer em Deus. Importa é notar que alguém que não crê em Deus pode desconsiderar esse uso do conceito de Deus aí. Essa pessoa, então, pode pensar que aquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão, tem essa disputa sobre o que é a sua própria essência consigo mesmo. “Senhor”, diz a interpretação alternativa, se refere a uma das tendências desse homem que —como David Hume e William K. Clifford sugerem ser o caso com vários personagens bíblicos —talvez sofresse mesmo de uma doença mental. Tipo: esquizofrenia ou transtorno de personalidade múltipla.

Eu leio que o Gênesis descreve que, por um lado, Deus ou uma tendência desse cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão alega que a essência dessa pessoa é a de ser o pai da multidão. Daí, essa pessoa precisa ser chamada de Abraão. O motivo é que “Abraão” é o nome daquele cuja essência é a de ser o pai da multidão. Por outro lado, o Gênesis também descreve que esse cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão, ou uma outra tendência dele alega outra coisa. Outra coisa: que a essência dessa pessoa é a de ser meramente um grande pai. Logo, essa pessoa tem que ser chamada de Abrão. O motivo é que Abrão é justamente o nome daquele cuja essência é a de ser um grande pai.

Ser um grande pai não é igual a ser o pai da multidão.

Você sabe disso, né, o Bolsonarista-raiz?! Porque você leu a bíblia, né?! Li. Sei, sei… que tu não só repete o que o pastor te diz, sem se confrontar com o texto ele mesmo…

Mas, enfim, o que importa é dizer que não é lá muito louco dizer que ser um grande pai é ser um pai para aqueles que são mais novos que ti. É ser um pai para aqueles com os quais você se importa e tem um convívio sensível imediato. Esses que são, de certo modo, teus `filhos` não necessariamente biológicos. Lot, acho que essas passagens do Gênesis que eu mencionei indicam, era, de certo modo, um `filho` daquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão. Esse último aconselha Lot. Ele quer que Lot viva de modo saudável. Note que, para ser um grande pai, esse cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão pode ficar na sua “terra”, com sua “parentela”, na sua “casa” (Gênesis 12: 1).

Isso não é algo que um pai da multidão possa fazer.

Porque ser um pai da multidão é ser um exemplo para vários outros. Vários outros: estou pensando sobre aqueles que podem ser chamados de modo muito mais indireto do que direto a “tua gente” ou o “teu povo”. Essa gente que existe muito para além do teu convívio sensível imediato, mas que oriunda de ti biologicamente falando. Ser o pai da multidão é ser um pai para várias gerações futuras. Muito para além da tua mesma. É, de certo modo, viver (ao menos, na memória ou mesmo, biologicamente) para sempre.

É ser o pai de todos aqueles que são de “Israel” (Gênesis 32: 28). Ser de “Israel” significa: estar em luta com esse Deus de Abrão-Abraão (na leitura teísta tradicional) ou com uma tendência de si que é como essa de Abrão-Abraão e que te faz querer se sacrificar por uma comunidade (na leitura ateísta alternativa). Ser um pai da multidão é sair da sua “terra”, da sua própria “parentela” e da “casa de [seu] pai” biológico para povoar a terra com uma nova gente, um novo povo. A gente, o povo de Israel que há de se inspirar, de se espelhar naquele que de fato é o pai da multidão (Gênesis 12: 1).

Eu acho que Deus ou uma tendência daquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão está alegando que essa pessoa é o pai da multidão. Mas essa própria pessoa ou uma tendência dela está dizendo para si mesma que ela só é um grande pai. Nisso, eu leio que os capítulos 12 a 21 do Gênesis são evidência da minha tese que a poesia não é inútil. A minha tese que a poesia tem, sim, uma utilidade: a de abordar de modo primariamente emotivo disputas. Isso significa ler que a utilidade da poesia dessas passagens tratadas aqui é fazer o leitor, sobretudo, sentir que Abraão é realmente Abraão, e não meramente Abrão. É fazer o leitor, sobretudo, sentir que Deus ou uma tendência dessa pessoa vence a disputa em questão.

Em outras palavras: essas passagens servem para fazer o leitor, sobretudo, sentir que esse homem precisa sair da sua terra, da sua parentela e da casa do seu pai biológico. Ele precisa seguir os imperativos desse meu poema ready-made: o Sai da tua terra”, um poema criado a partir de certas deformações de certas passagens do Gênesis. Ele precisa seguir esses imperativos porque essa é a função da vida dele. É assim que ele deve usar o tempo dessa vida dele. Porque, ao exercer essa função, ele se torna aquilo que ele é: o pai da multidão. Ele age de acordo com o que ele é.

Logo, vai se fuder você, Bolsonarista-raiz! Você deveria suportar poesia, ao menos, para começo de conversa, a das assim chamadas escrituras. Porque ao menos essa poesia dessas passagens das escrituras não é inútil. Ela serve para abordar de modo primariamente emotivo a disputa sobre o que é essência desse cujo nome poder ser Abrão, poder ser Abraão.

Naquele tempo, então, o Bolsonarista-Raiz deu outro tiro para cima. Depois, ele trouxe uma outra objeção tradicional à poesia. Eu vou falar sobre essa objeção na próxima coluna.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores (Fase 1 – Metamodernismo e Poesia Brasileira Contemporânea) do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

 

 

 

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