Subversa

Poesia é cocô! | Felipe G. A. Moreira


“Merda de Artista”, Piero Manzoni, 1961.


Felipe G. A. Moreira

Tá legal, eu aceito o argumento.

Naquele tempo, havia um Bolsonarista-raiz. Que, numa mesa de boteco em Ipanema, falava assim. Meio contrariado. O argumento que ele tinha em mente é o da última coluna. Esse argumento conclui que a poesia, ao menos a das escrituras, tem a utilidade de abordar de modo primariamente emotivo disputas. Mas, feito quem muda de roupa, o Bolsonarista-raiz falava agora de modo pseudo-positivista. Assim.

Dizendo que se a poesia só tem essa utilidade aí que você diz que ela tem, a função dela é secundária em relação às funções cognitivas da matemática e das ciências empíricas. Em suma, poesia não é conhecimento. Daí, a função da poesia é meio reles, meio merda. Daí, eu subo bem alto pra gritar que é cocô! Poesia é cocô! Rá!

Tem gente que acha que Rudolf Carnap e os positivistas lógicos acreditavam em algo assim. Bem, acho que não era isso que eles estavam dizendo. Mas, enfim, isso não vem ao caso.

O que importa é dizer que, Bolsonarista-raiz, você pressupõe uma visão sobre uma disputa: a sobre as condições para algo exercer uma função cognitiva ou ser conhecimento. A visão que você pressupõe é: só a matemática e as ciências empíricas satisfazem essas condições. Mas, olha, que esse tipo de disputa é uma que a matemática e as ciências empíricas nem podem responder.

Quero dizer: me mostra aí, me mostra a matemática, a ciência empírica que aborda essa disputa. Essa disputa é justamente uma que a filosofia aborda de modo, sobretudo, racional e que a poesia aborda de modo, sobretudo, emotivo. E, olha, eu nem estou muito convencido que só a matemática e as ciências empíricas têm essa função cognitiva. Mas, enfim, mesmo se isso for o caso, foda-se.

Foda-se?! Foda-se. Rá. Rá. Rá. Rá.

Quero dizer: foda-se. Isso porque a função da poesia, ao menos, a da poesia das escrituras, de abordar de modo, sobretudo, emotivo disputas, tem uma importância primária incomensurável. Isso se dá mesmo se a poesia não trouxer conhecimento.

Conhecimento de cu é rola. . Rá.

Porque zilhões das mais diferentes gentes, desde tempos imemoriais, mataram uns zilhões de tempo de segundos de minutos de horas de dias de anos de suas vidas e tiveram uns zilhões de emoções de raiva de alegria de medo de tristeza de desprezo se importando com o modo como as escrituras abordam essas disputas. Daí, a poesia das escrituras tem uma importância primária incomensurável.

Ela importa para esses zilhões. Importa mesmo para muita gente que apoia esse governo Bolsonaro. Importa pra mim. Importa para mim o modo como as escrituras tratam de modo, sobretudo, emotivo, a disputa sobre a essência daquele cujo nome pode ser Abrão, pode ser Abraão. Porque, de certo modo, eu também sou da gente de Israel. Eu sou do povo de Israel.

Que?! Eu sou no sentido que… Foda-se! Não quero saber. Tô de saco cheio! Para acabar com essa conversa, vou te conceder, então, que a única poesia que tem uma função primária é justamente essa das escrituras; essa que aborda de modo, sobretudo, emotivo disputas, feito essa aí de Abrão-Abraão. Todas as outras poesias são reles, são merda. Daí, eu subo bem alto pra gritar que é cocô! Poesia (que não é escritura) é cocô! Vai tomar no cu, F.G.A.M.! Fim!

Nisso, o Bolsonarista-raiz acha que acabou a discussão. Ele levanta da cadeira. Ele quer ir embora. Mas, aí, eu pego a arma dele. Eu dou um tiro pra cima. Porra?! Não dá pra você ir embora agora.

Mas já são quase duas da manhã? Não tem quase mais ninguém aqui, com exceção dos muitos bêbados, dos muitos tristes. Mas eu só tô começando. Eu tô sóbrio feito uma paisagem desértica. Dionísio bebe por mim. E esse diálogo só termina depois de meio-dia, lá pelas 13 horas de amanhã.

Rá! Sem chance. Tenho que ir. Nisso, eu apelo para o argumento que todo Bolsonarista-raiz aceita ou deveria aceitar: a saber, ir embora agora, é, para colocar nos teus próprios termos, coisa de `viadinho`. Não ler o resto da coluna. Não ler todas as colunas da Fase 2. Isso, para colocar nos teus próprios termos, vai ser coisa de `viadinho`.

Não tem nada pior para um Bolsonarista-raiz do que ser chamado assim.

E, olha, eu friso, sobretudo, para os amantes do cordeiro em si o seguinte: para dialogar com o outro, é preciso tentar entender o critério do outro, falar a língua do outro, usar o vocabulário do outro, mesmo que esse vocabulário te ofenda, etc. Eu quero dizer que o outro não é seu amiguinho de esquerda que faz poesia de reconhecimento e comentários irônicos na fila do cinema cult.

Um `viadinho`, para falar nesses teus termos aí, Bolsonarista-raiz, não é necessariamente um homem que tem relações sexuais com outro homem. Como o falecido Mr. Catra indica, essa até pode ser uma propriedade do `viadinho`. Mas essa é apenas uma propriedade acidental de um `viadinho`. Você me concede? Concedo, a título meramente argumentativo, ele responde. Daí, então, um `viadinho` pode também ser alguém que tem relações sexuais com mulheres. Na verdade, mesmo uma mulher pode ser um `viadinho`. Uma `viadinha`. Na verdade, o que você chama de `viadinho`, eu prefiro chamar de burro-esquecido, para falar nos termos da minha coluna sobre o Fernando Monteiro. Mas, enfim, eu quero tentar me fazer entender por você. Na verdade, eis o sonho, eis talvez mesmo o delírio: ser entendido por toda essa gente que elegeu o Bolsonaro.

Daí, para tentar falar nos teus termos, nos termos dessa gente que elegeu o Bolsonaro, vou dizer que um `viadinho` é um plagiador. Um fraco. Um 01. Uma 02. Alguém que corrige a sua pronúncia de um nome de um autor francês. Alguém que não entende que os erros gramaticais do “Por uma estética do constrangimento” são intenZionais. Um youtuber. Uma resenhista. E/ou jornalista que se autoriza a falar sobre poesia em público sem ter formação para tanto e que, pasmem, consegue lucrar com a sua própria burrice-esquecida.

Uma `viadinha` é uma poeta do reconhecimento e/ou modernista fracassada que cita ironicamente filósofos num poema. Mas, quando o debate filosófico começa, arrega e/ou responde com gracinhas vazias. Um assessor de imprensa que te cobra para fazer divulgação e, no final, não faz quase nada. Eis um `viadinho`.

Uma `viadinha` é alguém que não encara a disputa. Alguém que diz que não gostou de um poema porque não gostou e não te dá nenhum critério para tanto e ainda quer ser irônico. Um `viadinho` sempre quer ser irônico. Um `viadinho` está sempre ofendido. Ela está sempre afetada.

Um `viadinho` é alguém que você um dia confiou para fazer sexo online e, depois, divulga tuas nudes na rede ou, ao menos, ameaça fazer algo assim. Um `viadinho` é um quebrador de promessas. Um `viadinho` é um pseudo-amigo que dorme com a tua mulher, com o teu homem. Alguém que não age de acordo com a sua essência é um `viadinho`. Uma `viadinha` é alguém cheio de contatos. Que consegue tudo por contato e acredita piamente que a sua poesia tem algum valor.

Um filósofo analítico que afirma, autoritariamente, que, depois de mais de 2000 mil anos de disputas em metafísica, ele pode resolver essas disputas facilmente apelando para o que ele chama de “intuição”, “linguagem ordinária” ou “virtudes teóricas”.

Um filósofo colonizado que passa a vida inteira repetindo jargão de alguma autoridade francesa ou alemã qualquer é também, sobretudo, um `viadinho`. Um repetidor de palavras de ordem.

Uma `viadinha` é também alguém que se ofende com o termo “`viadinho`. Alguém que venera o cordeiro em si de modo, por vezes, muito mais `direita` do que o da gente da assim chamada direita. Um `viadinho` é alguém que sempre fala com tom indignado sobre o quanto tudo é `disgusting`. Tudo é meio `disgusting` para o `viadinho`.

Alguém que acha que a sua posição é obviamente moralmente superior. Um `viadinho` é alguém que não vai entender o que eu estou dizendo. Ela, no entanto, vai fingir que está entendendo. Um `viadinho` vai dizer que a linguagem dessa coluna é vulgar. Que o argumento é superficial.

De todo modo, eu vou indicar os meus trabalhos mais técnicos em filosofia para o `viadinho`. Ele não vai ler. Ele não tem formação para ler. Mas vai querer tirar onda. A `viadinha` sempre quer tirar onda. O `viadinho` sempre acha que está falando de modo sofisticado.

Um `viadinho` diz: F.G.A.M. é arrogante. Isso só porque Ele é O Deus Feito Carne.

Então, eu digo, que, porra, depois de me provocar, você vai dar uma de `viadinho` agora?! Vai dar uma de 01? Vai pedir pra sair? O Bolsonarista-raiz, então, não resiste. Para ele, é simplesmente abominável ficar na posição do `viadinho`. Nisso, ele decide ficar. Nisso, eu o considero um par racional legítimo; muito mais legítimo do que muita gente da esquerda que só está interessada em repetir palavra de ordem e que não ficaria num bar numa situação análoga.

Daí, o Bolsonarista-raiz também manda uma cachaça pura, uma neve ou algo assim. De todo jeito, ele fica. Tá bem. Então, se é para a alegria do Sócrates-Tropical do baby do baby do biruleibe leibe do meu saco, eu fico. Maravilha! Mas pede outra Original, melhor, pede logo uma Franziskaner, porque, na próxima coluna, vou ter que perder a linha. Porque, pra responder esse teu último ponto, que só a poesia das escrituras importa, eu vou é ter que falar de feminismo, da vertente evangélica do governo Bolsonaro e sobre aquela cujo nome pode ser Sarai, pode ser Sara… Puta que me pariu! Amigo, pode ver mais uma aí, que eu vou ter que beber de cair… Puta que me pariu! Fala aí, ô, pseudo-Sócrates, fala aí…


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores (Fase 1 – Metamodernismo e Poesia Brasileira Contemporânea) do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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