Subversa

Ozymandias, autodepreciação e autoelogio | Felipe G. A. Moreira


“F.G.A.M. Ozymandias”, Felipe G. A. Moreira (2019).

Naquele tempo, era sábado. Eram dez da manhã. E, num quiosque em Ipanema, aquela vulgaridade da gente careta e covarde que serve meio bomba-mente ao Deus do capitalismo era explícita. Meio-bomba-mente porque estávamos no Brasil. E aqui o Deus do capitalismo venceu meio bomba-mente.

Enfim, eu ainda me sentia melancólico. Daí, eu recitava, para o Bolsonarista-raiz, esse meu poema ready-made, o F.G.A.M. Ozymandias”.

Um poema que eu fiz a partir de uma deformação simples do poema de 1818 do Percy Bysshe Shelley, o “Ozymandias”: a deformação de cortar as ocorrências da palavra “Ozymandias” e inserir a palavra “F.G.A.M.” Eu dizia que, Bolsonarista-raiz, a pretensão desse procedimento é a de mudar o sentido do poema original, e sugerir algo feito uma pseudo-objeção à poesia metamodernista. Como assim?!

Eu explico. Olha, eu leio o poema original do Shelley (de modo mais ou menos tradicional) assim.

O eu-lírico desse poema se limita a relatar um encontro que ele teve com um “viajante de uma terra antiga”. O lugar desse encontro não é determinado. O que exatamente o eu-lírico acha daquilo que esse viajante diz também não é determinado. O que é determinado é que o viajante relata o que ele viu numa terra antiga. Essa terra parece ser o Egito. Isso porque o que o viajante viu foram as ruínas de uma estátua monumental do faraó, “Ozymandias” ou Ramsés II. Esse faraó parece ter governado o Egito entre 1279 e 1213 antes de cristo.

O viajante sugere que esse faraó governou seu povo com dureza, ou mesmo talvez com certa brutalidade imperialista pré-cristã. Mais: ele sugere que algo da vida do próprio faraó foi, de certo modo, conservado na estátua, uma vez que as emoções conflituosas que o faraó parece ter sentido, ao governar com dureza, são indicadas na estátua.

As emoções conflituosas de Ozymandias são as de: por um lado, ter sido resistido ou mesmo odiado por alguns (isto é, aqueles que zombavam dele); e, por outro lado, ter sido seguido ou mesmo amado por outros (isto é, aqueles cujos corações alimentavam Ozymandias).

Ao redor das ruínas da estátua monumental, há apenas o deserto. De modo que, tendo em vista a finitude de todas as construções humanas e da própria vida humana, o viajante parece sugerir que: o próprio conflito entre aqueles que resistiram ou odiavam Ozymandias e aqueles que o seguiam ou mesmo o amavam é vão; que a própria vida de Ozymandias, suas emoções contraditórias, seu reinado e seu império foram vãos; ou que toda vida humana é vã ou mesmo sem sentido.

Interessante! Disse o Bolsonarista-raiz. Quase feito um Pedro. Quase feito o primeiro apóstolo de F.G.A.M. Quase feito alguém menos raivoso. E o seu poema ready-made? Acho que ele pode ser lido da seguinte maneira.

Como no poema original do Shelley, o eu-lírico desse poema se limita a relatar um encontro que ele teve com um “viajante de uma terra antiga”. O lugar desse encontro assim como aquilo que esse eu-lírico pensa sobre esse viajante também não é determinado.

O que muda é que, nesse meu poema ready-made, nada indica que a terra antiga é o Egito. O que é indicado é que essa terra antiga é, na verdade, uma terra do futuro: de alguns anos, séculos ou mesmo milênios daqui. Uma terra do futuro, onde a estátua de F.G.A.M. já foi erguida e já tombou.

Talvez a Ipanema de 2333? Uma Ipanema onde uma estátua monumental de F.G.A.M. já foi erguida e já tombou. Risos. Não Risos. Risos. Não risos. O Bolsonarista-raiz repetiu.

E note que o viajante sugere que F.G.A.M. governou poeticamente seu povo com dureza ou mesmo talvez com certa brutalidade imperialista metamodernista. Mais: ele sugere que algo da vida do próprio F.G.A.M. foi, de certo modo, conservado na estátua. Isso porque as emoções conflitantes que ele parece ter sentido, ao “governar” a poesia contemporânea com frieza, são indicadas na estátua.

As emoções conflitantes de F.G.A.M. são as de ter sido ignorado, resistido ou mesmo odiado pela maioria, isto é, aqueles que zombavam dele, os poetas do reconhecimento e modernistas fracassados do presente e seus parças, editores, jornalistas, a gente da autoajuda literária, a gente da balbúrdia, etc.

As emoções conflitantes de F.G.A.M. também são as de ter sido seguido ou mesmo amado por si mesmo, algumas amantes ou mesmo por alguns outros, isto é, aqueles, leitores imaginários, cujos corações alimentavam o de F.G.A.M.

Risos. Não risos. Risos. Não Risos. O Bolsonarista-raiz repetia.

Como no poema de Shelley, ao redor das ruínas da estátua monumental, há apenas o deserto. Mas, muito diferente do poema de Shelley, o procedimento do meu ready-made é um de fazer um autoelogio disfarçado de autodepreciação e vice-versa. E, nisso, mostrar um auto-ódio brutal que também é um auto-amor brutal. Um auto-ódio brutal e um auto-amor brutal que só podem ser expressos por um outro do cordeiro em si que quer explicitar a própria impossibilidade do choque.

Esse procedimento de explicitar esses dois sentimentos é bem constante na poesia metamodernista. Veja lá o próprio poema que dá título ao meu livro, Por uma estética do constrangimento.

Logo, eu, por assim dizer, “proclamo” que, nesse meu poema ready-made, tem um autoelogio porque estou erguendo uma estátua de F.G.A.M. Eu também, por assim dizer, “proclamo” que há uma autodepreciação nesse poema porque a estátua de F.G.A.M. nem bem é construção e já é uma ruína. Risos. Não risos.

Mais: tendo em vista a finitude de todas as construções humanas e da própria vida humana, o viajante do meu poema ready made parece sugerir que: o próprio conflito entre aqueles que resistiram ou odiavam F.G.A.M. e aqueles que o seguiam ou mesmo o amavam é vão; que a própria vida de F.G.A.M., suas emoções conflituosas, seu pseudo-reinado poético metamodernista e seu pseudo-império-poético metamodernista foram vãos; ou que toda vida humana é vã ou mesmo sem sentido.

É um autoelogio disfarçado de autodepreciação (e vice-versa) porque esses procedimentos de autoelogio e autodepreciação se confundem.

Tipo: eu sou o Messias. Eu não sou o Messias. Meu nome é F.G.A.M. Meu nome não é F.G.A.M. Deus é eu. Deus é o Alien. Deus é próximo. Deus é distante, etc.

E, nisso de confundir esses procedimentos, eu tento lutar contra essas sugestões do viajante. Eu tento afastar essa melancolia de mim. Eu tento (talvez diferente do Shelley no “Ozymandias”) dar algum sentido a essa finitude humana. Torná-la talvez mais divina ou mesmo infinita.

Assim: construindo e destruindo a minha própria estátua de Ozymandias, como eu também faço nesse meu outro poema, “Ozymandias”. Logo, a objeção que o poema faz à poesia metamodernista é só uma pseudo-objeção. Porque eu estou me auto-elogiando ao me autodepreciar e vice e versa.

E funciona tipo como terapia?

Olha, eu espero. De todo jeito, eu ainda não me matei. Hahahaha! Naquele tempo, o Bolsonarista-raiz começou a gargalhar. E eu gargalhei com ele. Desde que você não se mate ou fique o dia inteiro chorando no quarto pensando nisso e com ódio de tudo e todo mundo, acho que tá valendo. Né?

Bem, acho que sim. Ao menos, é isso que eu tenho feito para afastar de mim esse cálice do Deus do capitalismo que quer me calar; que quer que todo mundo mostre essa pseudo-humildade e esse ascetismo hipócrita doentio dos capitalistas, dos servidores desse Deus, desse Deus do sorriso Mcdonalds babaca, do empreendedor de si, do tipo pseudo alegre, do tipo produtivo, da autoajuda, da maioria dos evangélicos, dos poetas do reconhecimento, dos poetas modernistas fracassados…

Entende, ó Bolsonarista-raiz? Ó meu Pedro? Entendo, entendo… Talvez o maior inimigo seja esse Deus do capitalismo… Então, eu me sentia mais alegre porque pelo menos o Bolsonarista-raiz já não parecia ser tão raiz. Ele já parecia querer se converter, e disse que: bem, por que não vamos mergulhar? Eu disse que sim. Daí, nós saímos do quiosque. Nós começamos a andar em direção ao mar.

Porque o mar quando quebra na praia é bonito. É bonito.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

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