Subversa

Os escritores do sentido | Giovane Adriano dos Santos


“The Railway Crossing (Sketch)”, 1919, Fernand Léger


A inocência de alguns supõe encontrar palavras de confissão em qualquer texto literário, fenômeno descabido principalmente depois dos esforços da chamada Estética da Recepção – mas cujo questionamento não requer do conjunto de estudiosos a que se convencionou inserir nessa, por assim dizer, vertente de pensamento, necessárias lições que voltem os olhos aos autores, leitores e textos (1). No que se refere especificamente à tripartição, é necessário rememorar as contribuições de Antonio Candido, a quem o meio acadêmico internacional não atribuiu, segundo penso e não digo nenhuma novidade para os afeitos à temática, as láureas do pioneirismo com que se antecipou a certos europeus, muito embora a esse grupo, por razões tão várias, dentre as quais destaco o espaço que a Língua Portuguesa (deixa de) ocupa(r) no cenário global, que não as alcanço todas, as portas da recepção – prova de que a teoria foi e é certa – tenham-se aberto ao sabor das publicações para testemunhar posturas que se podem inserir às vezes no rol das importações acríticas, dada a suposta e equivocada ideia do eurocentrismo.

O eurocentrismo foi – muitos não o tomam por este tempo de verbo – baseado no pensamento segundo o qual a Europa, em vista de sua posição em relação ao trópico de câncer e da parte do globo que ocupa, seria superior a outros continentes, estendendo-se o equívoco ao campo cultural. Encontro tais posturas na obra de Camões, embora eu considere salutar advertir que seria demasiadamente equivocado atribuir ao poeta português ações erradas que tenham sido feitas em nome da pretensa supremacia europeia. O texto épico camoniano é marcado por profundas contradições (É muito interessante o discurso que o Velho do Restelo faz ecoar do experto (e esperto, digo) peito.), razão por que encontrar naquelas palavras, falo da obra toda, a cosmovisão do autor parece impossível. Leio que “Entre a Zona que o Cancro senhoreia,/ Meta setentrional do Sol luzente,/ E aquela que por fria se arreceia/ Tanto, como a do meio por ardente/, Jaz a soberba Europa (…)”. Notando, contextualmente, por estranho que possa parecer, que a palavra ‘soberba’ carrega sentido diferente ou mesmo antônimo daquele a que fomos habituados através dos dias, sendo, portanto, impregnada de valor semântico que a compreende ‘sublime’, ‘altiva’, ‘elevada’ ‘imperiosa’ (2), por exemplo, não considero absurdo sustentar a ideia de que os versos acima transcritos expressam espírito de época – Qual? – difundido de maneira mais ou menos inconsciente em alguns meios.

Encontro em Markus Gabriel, Eu não sou meu cérebro: Filosofia do espírito para o século XXI, pequena explicação sobre o eurocentrismo. Na obra, o tema corresponde a poucas linhas, menos de uma página; é utilizado, na verdade, como exemplo ao que o autor compreende ideologia, e não guarda relação direta com o objetivo principal daquele texto. Segundo Markus, o pensamento em prol da superioridade europeia foi, de fato, vinculado: 1º: a um continente; 2º: a uma região do céu. Retornando à minha explicação e pondo fim a este aspecto da coluna, enfatizo que cito Markus para demonstrar que, de algum modo, a apertada síntese posta a condensar – redundância – algumas posturas interpretativas já estava, quase cinco (5) séculos antes do momento em que escrevo estas palavras, n’Os Lusíadas. Afinal, a menção do escritor português, ao individualizar aquela parte do globo, expressa a um tempo referência cartográfica e astronômica.

Feito o comentário, regresso ao assunto da abordagem confusa, ideia expressa na linha inicial do primeiro parágrafo, e recordo que diversas situações provam que imediata relação de identidade entre autor e eu-lírico e/ou narrador não persiste à medida que ao leitor o texto vai-se abrindo para a construção de sentido, demonstrando que os biografismos empenhados sem muito esforço para compreender as palavras postas à página e levados a efeito às vezes também nas esferas acadêmicas – sendo nestas, é verdade, acontecimento raro (ele(a) escreveu isto por que vivenciou aquilo?; quem é a pessoa, cujo nome está no poema, desconhecida por mim?; o autor não mora em outra cidade?; será a obra fruto de sua visão política?; será que ele(a) fez o que escreveu?) dissolvem-se, as simplórias relações entre vida e obra – não falo de toda relação –, à pluralidade significante e colocam o escrito, uma vez aberto o palco dos horizontes textuais, aos olhos dos espectadores que de repente, munidos das experiências que lhes vêm de outras leituras, são, na situação específica, escritores – escritores do sentido.

Resultam daquela mistura ofuscante de letras, que é derivada de gesto que não coloca a literatura no campo que lhe é próprio – o da ficção –, os pontos de partida, errados sempre, segundo os quais qualquer escrita literária é autobiográfica. Isso não significa que, em alguns casos, o escrito do autor, elaborado ou não em primeira pessoa, não possa ser testemunho histórico e psicológico posto a significar momento até então subjetivamente emudecido. Percebo neste texto de Ishmael Beah – cujas palavras a meus olhos chegam por traduções – Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado, exemplo de trabalho a que os anseios intérpretes, inserindo-o no rol das autoficções ou no dos romances históricos, não se equivocam; antes, acertam precisamente os tons da obra posta a denunciar, registrando, a guerra de Serra Leoa.

Além de a amálgama interpretativa não explicar muitos textos – o que os adeptos dos biografismos diriam, por exemplo, da literatura fantástica? Poderiam afirmar, sem muito se equivocarem, que o gosto do autor por esta ou aquela temática, repercutida desde o título às vezes, seria o traço de confissão do escritor. Com isso, sustentariam indiretamente que a relação entre o autor e o eu-lírico e/ou os narradores não são de identidade, sob pena de a defesa do ponto de vista contrário, posto o exemplo da literatura fantástica, conduzir à conclusão segundo a qual o autor teria vivido situações que não pertencem à realidade.

Implicitamente ou não, Roland Barthes sempre deixou registrado que a um autor não são lícitos os tons meramente biografais. Com certeza, a postura aí inscrita não fala o idioma do silêncio  censor, nem põe rótulos, pois caminha na direção do que postulava o francês sobre o caráter enciclopédico da escritura, aos temas que devem figuram nas obras, e tampouco quanto à forma de abordá-los; apenas ensina que ao texto literário não cabe a tarefa de narrar voz biográfica, confissão descortinada a constituir a obra, e sim a de regressar a um passado comunicante – eis o intertexto de Julia Kristeva – e a um futuro sempre à busca de palavras. O texto, é verdade, sempre regressará a outro texto; ainda que ninguém obrigue o autor a dizer a respeito deste ou daquele assunto, estará a enunciação condenada às ações do idioma, grafos históricos a me proibirem e permitirem, arbitrariedades repousadas em Saussure, mas há muito existentes e não nomeadas.

Autor, leitor, obra. Antonio Candido disse, disse, disse. Grande problema: falou na Língua de Camões!


Nota:

  1.  Nesta coluna, falo de ‘texto’ e ‘obra’ como se fossem iguais conceitos, embora eu compreenda que a sinonímia não faça sentido para ser empregada em todos os casos. Em outras oportunidades, encontrei em Roland Barthes associação entre texto, literatura e escritura, não concluindo, porém, que o francês tenha identificado qualquer dos três à categoria da obra de um escritor. Nesse sentido, emprego agora as palavras sem apreço às precisões conceituais que delas se possam exigir. Com o objetivo de evitar equívocos outros, julgo igualmente pertinente lembrar que não compreendo Roland Barthes no rol dos expoentes da Estética da Recepção. Naturalmente, isso seria imenso erro.
  2. Em Antenor Nascentes, vejo que ‘soberbo’ deriva do latim ‘superbu’; espanhol ‘soberbio’; italiano ‘superbo’; francês ‘superbe’. NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Prefácio de W. Meyer-Lübke. 1ª Ed. Segunda Tiragem. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1955, p. 474. André Guilherme Polito registra, no dicionário escolar que escreveu, que  ‘soberba’ pode ser sinônima de ‘imperiosa’. Refiro-me à obra afeita a dois idiomas românicos: Italiano e Português. POLITO, André Guilherme. Dicionário Escolar Italiano: italiano-português, português-italiano. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2003, páginas 173 e 684.

GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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