Subversa

O Vento nas Magnólias | Pedro Belo Clara

“Flowers”, Andy Warhol, 1964.


Vem de longes que nem sei tombar em abismos além-horizonte – para de novo se erguer com a majestade das albas. É ele o pássaro que se não vê, o primeiro semeador de fragrâncias. Conhece a negrura de todos os poços, todo o vertiginoso azul das alturas; a pedra mais íntima da obscuridade, os grãos mais rentes ao corpo da terra; a ramagem gentil de cada árvore, a asa macia da ave mais errante. (Em instantes de maior fulgência, ainda pergunto se não serão filhas suas e dalguma ninfa que visitou em noites de marfim.)

Tem canção mais pura que melro ou toutinegra, o eterno viajante alegre somente por vaguear; por vezes um potro bravio em estepe imensa, parando só para beber o orvalho dos trevos. Tudo de inspiração lhe serve: copas frondosas, frágeis ramos floridos, erva rasteira, papoilas silvestres… Cardos em botão, malmequeres com o sol ao peito, miosótis tão exíguos quanto pó de estrela; uma portada que se fecha, um portão que estremece; o dorso prateado do rio onde tanta vez desenha poemas de água, os flancos salgados dum mar imenso; cabelos em desarmonia, dois rostos unidos num beijo de silêncio – tudo versos da sua trova, a cada instante reescrita.

Mas dias há em que o sorriso lhe foge. Talvez dele se esqueça em alguma esquina das estradas desertas, quando os rios celestiais ameaçam cair no mar da terra; ou o apaga em nome da natural sucessão de tudo, quem o saberá? E eis que corre como louco dobrando juncos sem piedade: um tigre cintilando na agrura da noite, um toiro investindo sobre alvo nenhum – um coração amargo, afinal, batendo pungente no seio da própria angústia.

Sossega, amor: ainda a hora é de cal. Aquieta o sobressalto do peito: é apenas o vento, o vento nas magnólias – passando com a glória dum deus muito antigo.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Maria Isilda Monteiro 12 de setembro de 2019 em 17:35

    Uma escrita maravilhosa, onde não falta a imaginação e uma enorme sensibilidade, além de uma riqueza de vocabulário fora do comum. Gosto muito de ler este autor.

    • Pedro BC 17 de setembro de 2019 em 20:09

      Muito obrigado pelas suas palavras, Maria Isilda. É muito gentil.
      Agradeço a sua leitura.
      Tenha uma boa semana.

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