Subversa

O trabalho das máquinas | Fabíola Weykamp


Fotografia nossa

Cultuo o hábito de

ligar a máquina de lavar roupas

às 21h

 

o silêncio no condomínio

perde a vez para as

roupas na máquina modo molho longo

 

não poupo o tempo de espera

não me aborreço com a espera

das roupas em molho demorado

das roupas limpas como devem

 

aborrecer-me-ia lavagem rápida:

quando as roupas não têm tempo

de serem limpas como necessário

 

então, às 21h de um domingo

ligo a máquina e

não pulo etapas

 

ligo o aspirador de pó

mas opto pelo trabalho dos braços

manter mãos e braços ocupados

na tarefa de escolher o

 

que vai embora e o que fica

aquilo que não quero mais ver

sob meus pés

ou onde minha memória cansada

não alcança ou finge e se demora

 

então, varro a casa

acompanhada dos fones de ouvido

meu cachorro me acompanha também

aliás, é dele o trabalho de verificar

os cantos empoeirados

me apontá-los com suas longas patas

e sua cola que espana tudo que juntei atrás

 

às 21h é quando tudo começa:

o trabalho das máquinas

tudo mais que não esqueço

e que à noite desperta

 

como pesadelo em que não grito

mas anoto no caderninho

e finjo que é sobre usar máquinas

meu interesse moderno


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

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