Subversa

O REPOUSO DO PEQUENO PÁSSARO | Pedro Belo Clara

 

Escolheu o seu pequeno quintal
para cumprir o longo sono.
Ou talvez o breve sopro
que inflamou tão frágil ser
aí se tenha decidido extinguir.
Que sabe o Homem
sobre mistérios que não vê?
Da funda melancolia
de morrer à beira-canto?

Gentil no gesto,
de olhar compassivo
em cada camada,
a mulher de cabelos de prata
recolhe o pequeno corpo
onde habitaram tantas canções
para deleite de flores e frutos.

Com as mãos em prece
murmura um poema
de muitas partidas.
E sorrindo na leveza das coisas
que não requerem entendimento,
à terra entrega o pródigo filho

– na certeza de que o espírito
gémeo do seu
esperará por si no dorso
dum dragão azul,
cruzando as vagas do grande mar.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Carmen Reis 17 de março de 2021 em 12:35

    Lindo seu poema do pequeno pássaro! Quem já viu um passarinho morto compreende bem o vazio de sons e imagens que resta no corpo pequenino…

  2. Pedro Belo 18 de março de 2021 em 18:18

    Cara amiga, como está?
    Muito obrigado pela sua amável visita e pelo comentário que deixou. Fico contente que tenha apreciado aquilo que leu.
    Até breve!

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