Subversa

O PASTOR | Pedro Belo Clara

 

Ainda o sol não beijou o horizonte,

e de pronto a antiga dor

pede o conforto da velha flauta.

 

No abrigo da faia,

dois instantes de quietude:

um silêncio absoluto

querendo unir-se ao sossego reinante.

 

E a dádiva começa:

elegias sem tempo

entretendo estevas e cardos.

Com a destreza de anos no ofício

perde-se o pastor

em cada curva da melodia

que o reclama só para si:

ora a doçura duma lembrança,

ora a aguda estridência

duma nota sentida.

 

Terminando, um sorriso

denuncia a melancolia sem rima.

Mas pela urgência da dor

logo outra canção ganha vida,

antiga quanto a memória das pedras

– perene engano à sede

que sabe lenta o matar.

 

Será a serra que o fatiga

ou o vazio dum coração sem manhãs?

A cabana fria que o espera

sempre no assombro doído

duma noite sem estrelas?

 

A sua solidão tem um brilho que não vê.

Só a lua o sabe, mas o pobre pastor

nunca aprendeu a ler os poemas do céu.

 

A flauta emudece, por fim.

Dois sopros de gelo

lembram o conforto do capote.

Um grilo rompe o silêncio;

de longe chega a sua canção,

vem doce e sobre o rebanho ensonado

tomba como bênção materna.

 

Sem ânimo para ensaiar um passo,

deixa-se o pastor ao abandono da hora

– silente sob um luar que hesita

diante dum deus triste, esperando manhãs.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Maria Isilda Monteiro da Silva 10 de setembro de 2021 em 16:47

    Maravilhoso. Encanta e pacifica a alma. Adorei.

    • Pedro Belo Clara 11 de setembro de 2021 em 19:23

      É bom saber, fico feliz.
      Muito grato pela sua visita e apreciação, cara amiga.
      Beijos e até breve.

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