Subversa

O outro lugar | Giovane Adriano dos Santos


“Composition”, Maria Helena Vieira da Silva (1936)


Algumas pessoas perguntaram-me sobre o título da coluna que eu publicaria no mês passado. Respondi, disse em detalhes os termos da breve composição, mas fiz questão de esquecê-los assim que a última interrogação se esvaiu dos lábios curiosos: novo o texto, novos o título e os defeitos que naquele estão. Desprezá-lo, é do título que afirmo, não foi fácil; ajudou-me na tarefa de esquecer o Livro das Ignorãças, escrito sem o qual as minhas leituras são menos leituras e os meus silêncios mais silêncios: coisa e palavra, dependendo da perspectiva, não se distinguem.

Convém, diz o rapaz muito consciente de seu pequenininho talento literário, que não sejam citados, citados, citados e citados muitos autores toda vez que se ponha dicionário à prova, senão as palavras se chateiam, se cansam, e aquilo a que se poderia nomear referência dá lugar à verborragia: certas palavras são dignas das mesas dos bares; outras, sequer alcançam tais gloríolas, luzentes como pirilampos em dias de chuva. Disse – não contarei quem; a desinência que lhes confundam e lhes informem – que às vezes basta a pura autoria, o texto inédito, a palavra angular. A lista de compras ao supermercado, por exemplo, dispensa que se lhe ponham eruditismos próprios de quem não lê e diz ter lido: “segundo fulano…..”, informam os textos cansativos.

Aos escritos com que se marcam os desejos de certo consumo somam-se os bilhetes – hoje esquecidos – com os quais alguém, tendo elaborado aqueloutro textinho para ir ao comércio, diz a quem notar ausência do autor: fui às compras e já volto. É este horrível início para a coluna, mas eu não soube dizer de outro modo o espanto do título que oculto, escamoteio. A partir disso, notei: seria possível modificar o texto, recuperando, contudo, o sentido; alterar o título e o significado deste. Em seguida, tomei pelas mãos prosa escrita em Português, encontrei nela personagem chamada Justina, relógio havido por herança, número nove e vozes ecoadas pelas casas da ficção. “Casas da ficção”? Próximo domingo, perguntarei ao gramático se, a depender do contexto e estando com boas intenções, posso batizar ao termo figura de linguagem.

Justina, como eu anotava implicitamente, fala pouco. É mulher a que o tempo ficcional imprimiu silêncios e renúncias; a palavra com que a chamam não quer significar nada. Pouco importa indagar sobre a raiz latina do termo que nomeia a personagem do romance. É irrelevante que alguém pense, roubo certeza de Tzvetan Todorov, mas a disciplino aos meus próprios termos, a respeito do local em que estava a personagem e de que modo gesticulava antes da letra capitular com que o livro se inicia, ou a quais caminhos a criatura se voltará assim que o ponto final for posto à obra que, como outras tantas e tantas, retornará à estante e depois à mesa de leitura e depois à estante e em seguida à mesa de leitura.

Não sei quem é o autor de Justina, porque a leio em Francisco Dantas e a leio em José Saramago. E sei: no Alentejo, alguém pensa que me referia somente a José, assim como noto que aqui, no Brasil, algum leitor poderá ter notado que falo de Francisco Dantas. A verdade? Falo de duas obras, ou melhor, escrevo a respeito de duas personagens e a um tempo não falo de personagem específica. Não falo de personagem com que se possam identificar alentejanos ou sergipanos; o palimpsesto é quase silêncio e, para mim, é geralmente suposto – quanto a esta ou àquela obra alusiva -; incerto – quanto aos desejos autorais de realizá-lo -; perspectivo – quanto aos empenhos dos leitores ao inventá-lo(?) -, porque a leitura cria e se torna ela mesma tarefa criadora do palimpsesto.

Agora, quando nenhum barulho faz à rua – restando os caminhos pavimentados de silêncio na confluência de textos que se encontram e se calam mutuamente, pergunto o porquê da identidade de nomes entre a personagem de Coivara da Memória, de Francisco Dantas, e a de Claraboia, de José Saramago. Estes são os fragmentos que indicam o palimpsesto de modo mais evidente:

1.“O velho relógio da sala, que Justina herdara por morte dos pais, bateu nove pancadas fanhosas, depois um arquejo de maquinismo cansado.”(Claraboia);

2.“mexo as retinas até o relógio de nogueira pregado na parede, herança maior que coube a tia Justina. Pontualmente, daqui a nove minutos, reescutarei (…) as seis badaladas…” (Coivara da Memória).

            Feitas as breves leituras, as coincidências textuais, que remetem à intenção daquele que enuncia algo, solucionariam-se deste modo: primeiro, observem-se as datas em que os livros foram escritos, ou, se não for possível, as datas em que foram publicados; depois, talvez se dissesse que o primeiro texto, isto é, aquele marcado com a data mais remota, serviu de referência ao segundo. Outra possibilidade – e se há diversas não as alcanço agora, porque não remetem a outros trabalhos que li – seria aquela segundo a qual determinado texto, publicado anteriormente aos que cito, foi o ponto do qual partiram os dois romancistas. Seja quais forem os motivos que fundamentam o intertexto que leio, estando eu diante de palimpsesto, remeto à lição de Gérard Genette: às vezes a alusão é suposta. Oportunamente, deixo anotado que o sentido que dou ao palimpsesto difere daquele com que Gérard Genette toma a expressão, mas este não é o momento de marcar certas distinções.

O texto Claraboia foi escrito por José Saramago quando o autor ainda se mantinha vinculado às convenções da forma [1]: a obra possui travessões; nela, as falas das personagens são bem marcadas; os pontos não cumprem as funções de estilo tradicionalmente reservadas às vírgulas – e o contrário também é correto; há divisões de parágrafos. Levado a editores portugueses pela primeira vez na década de cinquenta, o texto não viu, para usar uma expressão corrente entre os lusitanos, suas palavras dadas aos prelos. Essas informações – à exceção da data aproximada em que o livro de Saramago poderia ter sido publicado pela primeira vez – não estão diretamente relacionadas ao objetivo deste texto. O importante – e penso ter ficado este fato inequívoco – é que Claraboia não foi dada a conhecer tão logo seu autor a encerrou com ponto final. Rejeitado o escrito pela casa publicadora, anos depois, José Saramago também não quis que o texto fosse levado ao grande público que então o lia. Resultado: o trabalho foi publicado postumamente [2].

            Enquanto a Claraboia estava na gaveta – e esta minha expressão sugere imagem inusitada –, do outro lado do Atlântico, Francisco Dantas inscrevia a si no rol de autores de romance e publicava, em 1991, o texto do qual o fragmento “2” foi retirado. Reside neste conjunto de fatos livreiros a pergunta sobre a intenção de aludir a isto ou àquilo no momento da escrita: primeiro, constato que não seria possível Dantas ter lido Saramago antes da publicação de Coivara da Memória – refiro-me especificamente ao escrito lusitano a respeito do qual este texto discorre. Em seguida, noto que Saramago, este sim, poderia ter lido o romance inaugural de Dantas, o que, de qualquer modo, não alteraria o palimpsesto. Essa certeza deve-se ao fato, mencionado no início deste mesmo parágrafo, de que ao tempo da primeira publicação do romancista do nordeste, o texto do português encontrava-se terminado. Então, socorro-me outra vez da referência a Gérard Genette, pois, realmente, às vezes a alusão é suposta.

Não é demais lembrar que a Justina inventada por Saramago difere-se bastante daquela presente na obra de Francisco. Lugar habitado, estado civil e convivência (a)típica com outros seres da ficção demonstram-se bons exemplos para demarcar as particularidades das personagens homônimas. Não será por isso, contudo, que as semelhanças se hão de apagar – senão o palimpsesto deixaria de fazer sentido para esta leitura: em outra ocasião, eu disse que Justina, em Coivara da Memória, delineia o mito; pensei então no mito como nos ensinou Roland Barthes: roubo de linguagem, inclusive e sobretudo etimologicamente. No texto de Saramago, é interessante, Justina também rouba a linguagem – e é bom que assim seja. Quando está impaciente com o ensimesmado e agressivo Caetano, Justina o faz  “calar com uma simples frase”, subtraindo a linguagem e fazendo com que entre um e outro passe a habitar o silêncio e determinados olhares, outra forma de comunicação.

Finalmente, das distinções dos textos, que são várias, podem-se destacar características do modo por meio do qual as personagens foram elaboradas: em Coivara da Memória, Justina fala pouco ao longo das mais de trezentas páginas de que o texto é composto. Lendo-se os discursos diretos introduzidos por travessão, verdade é que a personagem não elabora palavras de modo a preencher uma lauda completa do livro, o que, estruturalmente, eleva a potência do ser mítico: Justina rouba a linguagem e fala pouco; é personagem silenciosa elaborada quase silenciosamente. Em Claraboia, distinguindo-se, Justina fala bastante, isto é, muitos de seus anseios são introduzidas por travessões, performam diálogos tradicionais. Além disso, na obra do lusitano, a personagem ri, ri alto, chora e gesticula ao sabor das situações que lhe atingem, impondo-se a mulher diante de problemas que por vezes lhe escapam, mas que nem por isso a fazem curvar-se à voz de um certo Caetano alusivo a Bentinho.


[1] A redação da obra teria chegado ao fim em 1953.

[2] Em 2011, ano seguinte ao da morte de Saramago, a obra Claraboia foi publicada.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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