Subversa

O meu primeiro e último dia | Tiago Correia

 

Noite de 29 de janeiro de 1992

 

Eu ainda não existo. Eu ainda não nasci. Quando digo que ainda não existo é porque as pessoas consideram que só se existe no instante do nascimento. Por isso, eu ainda não existo. Só não existo porque ainda não nasci. Bem. Amanhã será aniversário do meu irmão. As pessoas estão organizando a festa. Minha mãe quase não consegue ajudar. Seu corpo apresenta sinais de que o último ciclo da gestação vai ser concluído. Em breve, o bolo vai para o forno. Os doces estão sendo enrolados pelas mãos de nossas tias. Meu pai, sempre muito orgulhoso do seu primeiro guri com minha mãe, já providenciou as bebidas para a comemoração. Aqui dentro algo curioso está acontecendo. Uma força estranha me faz empurrar a cabeça contra uma parte rígida do corpo de minha mãe. Não posso dizer que sinto dor. Eu não conheço o que é dor. O que sinto são contrações que chegam do corpo da minha mãe. Nesse instante, fico sufocado. Depois, vem um barulho. Fico confuso e por alguns segundos não consigo escutar o coração de minha mãe. Quando isso não acontece, vejo o coração bem bater forte. Não conheço o rosto da minha mãe, mas o seu corpo é a minha casa. As horas vão se passando, os intervalos das contrações, diminuem. Cada vez mais a força me empurra contra uma parede rígida do corpo de minha mãe.

 

Madrugada de 30 de janeiro de 1992

 

De repente, um som muito forte. O líquido que todo o tempo amaciou minha estadia no ventre começa a desaparecer. Minha mãe fica agitada, nervosa. Me pergunto, o que será que está acontecendo. Aqui dentro, a força persiste em me empurrar. Tento não ir. Tenho medo de sair. Tento não ir. Tento não ir. Tento não ir. O que me espera? Minha mãe grita. O que há? O líquido que me envolvia, quase não sinto mais. É o fim. Como será o fim? Será que o fim é nascer? Tudo está rígido e pesado. Minha mãe grita. O que será que está acontecendo? Porque meu pai não faz comigo o que minha mãe fez durante todos os meses que estou aqui dentro? É só colocar as mãos sobre a barriga de minha mãe e cantar cordeirinho de nanã. Ai! Ocorre agora um movimento muito brusco. Minha mãe respira muito forte. Estou ficando sufocado, outra vez. Cadê o ar. Meu Deus! Tudo é estranho. Eu preciso sair. Alguém interrompe o escuro e ilumina aqui dentro, por favor. O que é isso. Estou ficando desesperado. Não me tirem daqui. Eu preciso fugir dessas mãos. Estou saindo da casa de minha mãe. Ela grita o maior de seus gritos, o da separação do meu corpo ao seu. Minha mãe se multiplicou. Estou com frio. Alguém bateu em minha bunda. Dói. Eu choro. Somo com os gritos da minha mãe e o som é ensurdecedor. O homem que me segura pelos pés se aproxima da minha mãe. Eu a reconheço pelo cheiro. Nesse instante, sou apresentado a face amada da minha mãe. O seu sorriso. Os seus olhos… O homem interrompe nosso encontro e faz um alerta: olhe, mãe, como ele nasceu. Eu quero saber como eu nasci. Eu nasci com o quê. Não posso ser respondido.

 

Manhã de 30 de janeiro de 1992

 

Meu irmão ficou em casa. Quando acordou, encontrou minhas tias na sala, esperando-o para passar o café. Ao saber do meu nascimento e da ausência de minha mãe em seu aniversário, meu irmão caiu num banho de lágrimas. Lágrimas pela falta que nossa mãe faria, mas também pela ameaça que a minha chegada simbolizou para sua festa. O dia do dia 30 de janeiro era para ser da arrumação da mesa e finalização dos doces, mas sem nossa mãe, a festa poderia não acontecer. Nossa tia, animando meu irmão, tentava garantir a realização do aniversário. Ele me denunciava. A culpa era minha por lhe tirar a presença de nossos pais da festa. Com os minutos, as lágrimas do meu irmão foi esvaziando à medida que a sala foi ganhando balões de festa. Minhas tias esperavam notícias sobre o meu nascimento. Queriam saber como ocorreu o parto e com quem eu parecia. Diziam que meu irmão era a cópia do meu pai. Mas eu… com quem pareceria. Essa pergunta nunca foi respondida. A festa do meu irmão aconteceu, timidamente. Nem todas as bolas foram usadas, nem as latas de brigadeiro e casadinho. Meu irmão, de longe, assistindo o seu aniversário vazio, ausente de mãe, e com a presença de meu pai bêbado, traumatizou-se para sempre. Essa foi a sua última festa de aniversário. Em toda a minha vida nunca teria uma festa. Ter nascido no mesmo dia do meu irmão simbolizaria, para mim, uma infância inteira sem festa de aniversário. Nunca poderia convidar meus amigos da escola para comemorar a prosperidade e a vida, porque fazer isso seria confrontar com o trauma de meu irmão. Minha mãe preferia respeitá-lo diante da ausência materna que ele viveria a partir do dia que nasci. Ao nascer, rompi com parte do convívio diário de meu irmão com minha mãe. O rompimento aconteceu sem um preparo, que poderia chegar num comunicado prévio, diagnosticado em um exame de ultrassom. Nenhum médico teve a coragem de sentar com minha mãe, meu pai e meu irmão para contar sobre minha chegada. Minha chegada simbolizaria uma guinada na vida de toda família. Ao fim da conversa, o médico perguntaria se eles estavam preparados para enfrentar todo o dia, o medo e o NÃO, mas que o SIM seria possível, mas deveria ser construído. Desde o dia do meu nascimento, minha mãe nunca duvidou da possibilidade da coragem e de construir o SIM. Meu pai agiu com indiferença, nunca construiu o SIM, nem nunca me entregou o NÃO. Meu irmão era uma criança. Minha mãe nunca me deixou um segundo para ir cuidar do meu irmão. Com meu nascimento ela se descobriu, se redescobriu. Redescobriu suas duas mãos. Com uma, acalmava o coração do meu irmão, e com a outra, colocava as onze fraldas de pano entre minhas pernas antes de tomar o primeiro ônibus às cinco horas da manhã para chegar pontualmente na consulta no hospital das clínicas.

 

Tarde de 30 de janeiro de 1992

 

Minha mãe está no quarto. Agora, sozinha. Eu já não moro mais dentro do seu ventre. Deixei-o para poder existir. Aqui, onde estou agora, não consigo abrir os olhos. Quando tento, aparece uma luz imensa. O pouco que vejo… é luz. Todas as paredes, brancas. Estou envolvido por algo. As pessoas de minuto a minuto se aproximam de mim, todas, absolutamente, todas, vestindo branco. Eu nunca escutei as vozes dessas pessoas. Elas se aproximam, colocam um instrumento frio sobre meu peito, forçam minhas pernas para baixo, mas elas só querem ficar suspensas. No ar. Como se quisesse voar. Gosto quando soltam minhas pernas e elas ficam como são. Para o ar. Escuto alguém dizer que já está na hora de ir falar com minha mãe. Lá na enfermaria 2, leito 8, entram três homens acompanhados de duas mulheres. Se aproximam de minha mãe. O grupo de branco se aproxima, pergunta como ela está se sentido. Não são respondidos, mas questionados: cadê meu filho? A resposta vem após silêncios e trocas de olhares entre eles. A respiração profunda do homem encarregado de noticiar o diagnóstico denuncia o medo da reação de minha mãe. O homem se chama Lourenço. Médico ortopedista. Se formou na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Aparentemente tem trinta e oito anos. E dez anos de profissão. Ele arrasta a cadeira, senta, abre o prontuário, olha para minha mãe, e cuidadosamente começa a falar. Olha, mãe, seu filho nasceu saudável, pesa três quilos e cem. Tem quarenta e oito centímetros. É um guerreiro. Minha mãe se assusta com o adjetivo. Das três gestações anteriores que teve, em nenhuma, médico lhe disse que ela tinha parido um guerreiro. Sentiu azia de medo por ter parido um guerreiro. O que era aquilo. Um guerreiro. Antes de mim, três gestações e dois lutos. Duas filhas mortas nos primeiros meses de existência. Quando dei sinal que estava a caminho, minha mãe, ainda enlutada, já caminhava para cessar qualquer possibilidade de gestação. A cirurgia para retirada do útero estava marcada. Não queria mais correr o risco de enterrar no Jardim da Saudade outra parte sua. Enquanto sentiu medo ao saber que pariu um guerreiro, ficou aliviada. Tentou acreditar, por um instante, que guerreiros lutam, mas não morrem fácil. Ter parido um guerreiro seria indicativo que o seu filho estava vivo. Até quando. Não se sabia. Ali, com os médicos, ela assistiu acontecer um ensaio sobre a deficiência. Os médicos procuravam palavras assertivas. Naquele instante, quando soube que pariu um guerreiro, minha mãe chorou com a quase certeza de que ela não merecia ser mãe. Ela precisaria passar a vida inteira dizendo que pariu um filho ou um guerreiro – será. Quanto pesa parir um guerreiro – pensou. Era a presença de meu irmão, diante das mortes de suas filhas, que contradizia a hipótese de minha mãe de que ela não mereceria ser mãe. Era a existência do meu irmão com alergias, renites e febres se tomasse sorvete, que fazia ele acreditar que vivia a maternidade cheia de preocupações e xaropes. Um dia, minha mãe passou a acreditar que só poderia ser mãe de menino, nunca de menina. Isso a causava dor. Quando engravidou de mim, por dois ou três meses, eu era uma menina em sua barriga. Por dois ou três meses, a esperança era de que uma nova menina estava sendo gerada. A sua terceira menina, com fé em Deus, iria sobreviver. Ela agradeceria a Deus pela nova hipótese, mesmo diante de dois lutos. No exame de ultrassonografia, eu era um menino. Minha mãe sofreu pela terceira vez. Enquanto ela chorava, o médico que lhe deu a notícia, chamou a minha tia para conversar. Pediu que investigassem a gestação. Algo de estranho estava acontecendo. E por isso, a importância de fazer outros exames. Minha tia, diante do sofrimento de minha mãe, se calou e entregou nas mãos de Deus porque ele sabe o que faz, afirmou ela para si mesmo.

 

Tarde de 30 de janeiro de 1992

 

Após o nascimento, a equipe médica do Hospital das Clínicas sentou para estudar o caso do seu filho, e segundo a bibliografia, ele nasceu com a Síndrome da Artrogripose Congênita. MÃE, SEU FILHO TEM ARTROGRIPOSE MÚLTIPLA CONGÊNITA. Ele só vai andar com cinco anos, não sabemos se vai conseguir falar, tampouco ter uma vida normal. Por isso, estamos encaminhando, com urgência, para os hospitais: M. G., S. K, S.R. Lá você vai ser orientada a…

Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho
tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe,
seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.
Mãe, seu filho tem artrogripose múltipla congênita.

 

 

Noite de 30 de janeiro de 1992

 

Minha mãe passou a tarde inteira com o nome do meu diagnóstico. O que era isso? Que nome estranho era esse? Que agonia sentia! Sabia que quando amanhecesse a sua vida, definitivamente, ganharia outro ritmo. Ela tinha um filho deficiente físico com artrogripose múltipla congênita, e ela não sabia o que isso significava. Minha mãe só sabia que tinha, mas não sabia o que tinha. Hoje, quando ela me conta, chora. Mas, não chora por mim, mas pelo medo que sentiu em não conseguir. Minha mãe viveu esse capítulo com a idade que tenho hoje. Carregou o seu filho deficiente físico sem medo das pessoas que vivem no mundo. Carregou como uma leoa que tem entre os dentes um filho prometido para não vingar. Minha mãe me levou para o ponto mais alto da cidade, entre dúvidas, ergueu-me e gritou bem alto para o universo acompanhá-la pelo caminho que trilharia comigo, o seu filho, o seu filho deficiente físico.

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Fátima Santiago 4 de fevereiro de 2021 em 15:24

    O texto de Tiago nos faz imaginar o momento em q vimos ao mundo, enfrentando-o com medo ou não. É um.momento.mágico e.muito.bem descrito. Parabéns, Tiago.

  2. Fátima Santiago 8 de fevereiro de 2021 em 14:35

    Ligada na narrativa…

  3. Ana Sayonara 15 de fevereiro de 2021 em 16:27

    Sabor de quero mais. Parabéns, Tiago.

  4. Sandra Liss 15 de fevereiro de 2021 em 20:21

    Que texto maravilhoso e instigante. Vivenciei cada momento junto com o narrador.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367