Subversa

O Corpo Triplicado (Maria Brandão) e de como o corpo é uma conta de mais | Cláudia Capela Ferreira


“Oh, o horror do Mesmo! Para quê sempre fazer idêntico, se tantas coisas outras nos envolvem?”

Mário de Sá-Carneiro

 

“Retrato de uma mulher (cigana)”, Olga Boznanska (1888)

 

O corpo, neste corpus, tríplice, de Maria Brandão (Companhia das Ilhas, 2018), é a personagem principal. Como numa pintura narrativa, impressionista, breve mas não fugaz, são os seus trejeitos a viabilizar o convite à subjetividade. Trata-se, essencialmente, de narrativas curtas, em primeira ou terceira pessoa, episódicas, aglomeradas em três blocos numerados.

Desiludidas, traídas, ofuscadas, solitárias e, não raro, suicidas, as personagens entabulam relações supérfluas e desinteressadas, inclusivamente consigo mesmas, embora a sua fragilidade não seja dotada de comiseração. De facto, a autoestima enfatua-se precisamente na negação desse estado de inebriamento auto-condescendente, pelo que o registo é o da paródia de si mesmos ou, pelo menos, do estado em que se encontram. Ninguém se deve levar a sério, para levar a vida a sério. Trata-se, assim, de um projeto de resistência à sociedade (por oposição a comunidade), adverso a qualquer pecaminosa lucidez inclusiva.

De foro misantrópico, por isso individualista, o ciciar destas personagens decorre do estado de desilusão pragmática constante e obedece aos critérios lógicos da comicidade trágica. No primeiro contacto, somos avisados:  “Na minha casa não há roupa fora de uso, fotografias antigas, recordações de viagens, revistas desbotadas, recortes de jornais, bilhetes de amor […] Livro-me das coisas inúteis como me livro dos amigos  hipócritas  e dos amantes incompetentes. Sem remorso e sem saudade” (Brandão 2018: 9). A competência social é feita de dissolução, do cariz fugaz das renúncias que não o chegam realmente a ser pela inexistência de penosidade das circunstâncias. Não há de ser uma crítica ao desvirtuamento, senão uma efetivação da relevância do essencial: a inutilidade das coisas e das pessoas advém da sua hipocrisia e incompetência. Não deixa de ser justo, especialmente se capazes de extinguir o que de justiça cabe na auto-avaliação da nossa linearidade escorregadiça. De facto, o ato “sem remorso e sem saudade” sustentará igualmente uma laminação do próprio corpo? Como tal, o que releva de abandono e anulação de si mesma, quando a persona se dedica à fiel dissolução dos laços? Esta facilidade de locomoção pressente-se como verdadeiro “Manual  de sobrevivência social”, enfatuado compêndio, portátil,  naturalmente; e se ninguém se atreve a contradizer-te sem ficar nervoso, te pede ajuda para tarefas que não te dizem respeito, e se funciona com bisbilhoteiros, missionários e machos latinos, também ninguém repara quando vais de férias e ficas doente (Brandão 2018: 27). A probidade desta impenetrabilidade há de ter recompensas e os seus senãos, ainda que estes se desvirtuem se quem a indigita se propuser ao conforto da sua solidão. De facto, o isolamento, enquanto princípio de ação auto-preservante, sobreviverá ao intuito pedagógico de socialização, normalmente vexado e desiludido. É de uma [des]humanidade muito pouco esclarecida, regida pelo egotismo, de que, enfim, esta postura de sobrevivente se retrai, alcandorando-se, porém, na mesma denominação de que pretendeu afastar-se. O egoísmo é o nosso mais apetecido e pernicioso vício.

Assim sendo, as relações ora são irremediavelmente supérfluas, embora nunca desapaixonadas, pontuais, nunca  desafetadas de luxúria, e facilmente reprimíveis, até pelo desejo incestuoso da morte, que ronda o pragmatismo desafetado das personagens. Amor há de haver pouco, paixão – feral, dilacerante, como convém –, muita e diretamente proporcional ao efeito da submissão e dor a que o próximo faz imergir a personagem/voz narrativa. Desta forma, há constantes referências à violência entre casais, o apelo consumido ao poder excedentário do sexo e adultério – pelo que de miguante cabe na fragilidade diária das relações oficiais – e à própria morte, como via única de salvação possível. A selva humana perspetivada na sua precipitada esfera pesarosa de luta constante pela afloração do sujeito, sem que o seu egoísmo seja entrave.

Neste sentido, e de forma direta, é a denúncia da premissa abafadora da figura masculina em toda a sua gloriosa aparição de macho-alfa, submetendo, reificando súbditas, como o insuflado polvo das ilustrações eróticas japonesas. De facto, e numa das narrativas, justamente designada “O Polvo”, é essa metáfora de princípios impositivos e castradores que sobressai, podendo prestar-se ao diálogo com a tradição oriental e à revisão feita por exemplo por Park Chan-Wook em The Handmaiden. Assim sendo, multiplicam-se as referências ao carácter animalizado, diria, bestificado, destas figura masculinas, bem como à sua comodidade, complacência, e, enfim, nulidade. Daí, as metáforas do urso, do animal e da redentora aparição dos “pacotinhos de açúcar” despejados (10) , dos “patins em linha” (13), dos dogos argentinos e do agapanto, “a flor do  amor” (22). Os delírios masculinos são efusivamente troçados (“Viena é outra coisa”, “Relação breve”, “Damas”, “Ninfomaníaca literata”) – pondo em causa o gesto e a incensada imagem androcêntrica, bem como os  mitos decorrentes; confira-se  a referência a Adão e Eva e, logo depois, a Judite e Holofernes e faça-se dialogar com a teoria da sedução enviesada –, ou tragicamente apontados (“Nunca mais”, entre outros) enquanto demonstrações da culpabilização feminina e reiteração de uma subalternização desde a mais precoce existência. Abuso constante e reincidente (“O polvo”). O carácter cómico beneficia assim a crítica, que, se não morigera, viabiliza a prudência do riso, parodiando gestos sistematizados como naturais, desconfortando-os.

A morte ronda a cada página como a insónia e traz o cabelo coifado em banana, lidando com subjugadores e subjugados, cada qual trocando de atavio conforme os dias, seja o pervertido desejoso, as vizinhas parcas em sororidade, a pianista taciturna, seja a Ofélia enojada de mundo, consciente da sua conformidade. O seu gesto, na direção da falésia, é, ambivalentemente, gesto de repulsa e resistência. Nem sempre é possível o compromisso. Mas tê-lo-á augurado? Finalmente, a náusea persistirá além do momento de ressaca ou esta configura somente o efeito empoláceo dos dias? Incha, desincha e passa, e vai o mundo conformado.

No fundo, procura-se o amor: “Ama-me. Ama-me muito e depressa.” (54) O amor sóbrio, delicado, inamovível. Ou dicionarizado, publicitário e vendável. O que terá essa receita delicodoce viabilizado? A transgressão por via do homicídio, do adultério, enfim, do sexo e da morte, procura combater enunciados – seja do do eu ou do(s) outro(s) – estereotipados, discursos tradicionais a que a sociedade se remete, limitando-se na sua convergência hierárquica, e por isso, em alvos momentos lúcidos, reclamando a premente dicção do desejo e da materialidade do mesmo. Na verdade, o sujeito declina-se em vários sujeitos, em várias línguas, em várias aparições (e recorde-se a sintomática referência direta à heteronímia e a Ricardo Reis em “Autobiografia”), pelo que semioticamente, atribuindo sentidos diversos ao mesmo nome, ao mesmo adjetivo. E é assim que o diálogo a três começa a ser interessante por se toldar in[ter]penetrável. O corpo triplicado de Cornelia Hediger, na capa, ambiciona, anteposto ao texto, a sugestão de diálogo e de multiplicidade discursiva, abrindo em flor para o desvario e permissividade ainda assim lógica e alimentícia do mesmo, coerente na noção consciente das suas manifestações. Não somos sempre a mesmidade. E ainda bem. Nesse sentido, e se o discurso das personagens prevê essa resolução, reescrevendo e reinscrevendo-se no real, o ludismo da capa há de propor um estudo mínimo da presença da autora, na sua perspetivação do fazer literário, na experimentação dos lugares vazios. E se assim não tiver sido, posso sempre remediar [-me] e atribuir a culpa desta leitura à minha Doppelgängerin.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema. 

 

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