Subversa

O Canto das Cigarras | Pedro Silva Sena

O “Embarcação” é um novo espaço da Subversa que pretende resgatar o formato dos antigos Folhetins.  Com a velocidade das informações e dos acessos aos mais variados textos que chegam a nós e aos leitores, quando temos uma “urgência” a dar conta de uma leitura e partir para a próxima, acabamos por não aproveitar ao máximo do que o texto nos fornece.

Como somos um espaço que prima pela palavra e por suas formas de elaboração, gostaríamos de proporcionar a expectativa pela continuação de uma história que o caráter Folhetim nos remete. O espaço está aberto para receber outros textos, com no máximo 15 páginas.

Inauguramos “Embarcação” com o texto “O canto das cigarras”, de Pedro Sena, o qual será publicado, semanalmente, às segundas-feiras.


Clementina Augusta dos Santos e Azevedo nasceu num leito dom josé de pau-santo, entre cretones e papel de parede inglês, assistida por um médico e por uma parteira. O médico foi exigido pelo bom senso do doutor José de Azevedo, o futuro pai; já a parteira, foi chamada por insistência de dona Guilhermina, a futura mãe, aconselhada por todas as mulheres da família – inclusive, embora discretamente, pela governanta, a Maria da Conceição, ao serviço da família Santos desde o tempo em que os comboios começaram a fumegar, ruidosa e pesadamente, entre Lisboa e o Carregado. Havia muitos anos, também, desde a última vez em que se tinham ouvido vagidos de criança pelos corredores, escadas e compartimentos da casa. Quando Clementina Augusta, nas mãos esterilizadas do médico, rompeu os fluídos placentários num choro primordial, os homens da família, o senhor Joaquim dos Santos – comerciante grossista, senhorio de vários imóveis, e agora também, por um golpe de sorte na forma de um feliz aviso, proprietário de um generoso e extenso pomar bordejado pela ribeira de Muge e de extrema com a Casa de Cadaval – e o doutor Augusto de Azevedo – advogado, accionista da Companhia das Lezírias e publicista numa folha política de Santarém –, apagaram os charutos, levantaram-se com sorrisos e abraçaram-se. As senhoras donas Clotilde Rodrigues dos Santos e Hermínia Martins de Azevedo, futuras avós da recém-nascida, interromperam o chá verde com argolas de canela, e subiram ao primeiro andar antes dos esposos. Nascera a primeira herdeira – seria esta, aliás, a referência patrimonial impressa pelo redactor do Correio de Muge no número da semana seguinte –, regozijo só superável pelo orgulho exultante que acompanhava a vinda ao mundo de um varão.

O Diário Ilustrado dessa sexta-feira natal, abandonado sobre uma mesinha da sala, noticiava na primeira página a celebração do aniversário de casamento de “Suas Majestades” Carlos e Amélia, realizada no dia anterior; o falecimento, no Porto, do octogenário Conde da Trindade, “que enriquecêra no Brasil, e que, voltando á pátria, comprara n’aquella cidade o edifício do antigo Hotel do Peixe, onde faleceu o rei Carlos Alberto, para o apropriar a um bello palacete moderno”; as obras ferroviárias “do grande tunnel de Lisboa”, ligando as estações do Rossio e de Campolide, o qual seria “aberto ao serviço publico” assim que estas fossem concluídas; e o “Extraordinario festival” no Jardim Zoológico de Lisboa, cujo programa de “attractivos” prometia, “além dos pretos de Catumbela”, “concerto por uma banda militar; grande concerto pela magnifica banda á franceza, dirigida por o maestro Rio de Carvalho; inauguração d’um bazar; novos e diferentes jogos francezes; theatro de marionetes; a camara obscura; carreira de tiro; passeio no lago e corridas de carros. Tudo isto pela insignificante quantia de 100 réis!”.

Uma vez que iam longas, onerosas e polvorentas as obras de restauro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, o templo mais antigo e majestoso da vila, o senhor padre Gens teve a gentileza de baptizar a criatura mais frágil e recente do seu rebanho na capela dos seus titulados padrinhos, os Condes de Salvaterra (de apelidos conclusivos Vasconcelos e Brito), sita na Quinta dos Limoeiros, à saída de Muge, junto à ponte romana. Ó Zé, diz-me cá, chamou a uma sombra de plátanos o nédio comerciante, Diga, meu sogro, respondeu o genro, como quem tem mais para dar do que para receber, Agora que, além de um excelentíssimo advogado, és pai – e o rapaz há-de vir, se Deus quiser – podemos contar contigo? O teu pai tem a folha por conta dele, Salvo seja, comentou o visado, basta escreveres umas quantas linhas por mês… Só tens que dar umas cacetadas nessa canalha do Luciano de Castro e juntar aí uns labregos como eu… Sugeriu o sogro. Ora aí está! E o Machado arranja-te um lugar de deputado, cá estaremos para isso! Assegurou-lhe o pai. José de Azevedo sorriu-lhes e A Tradição, a folha política dos regeneradores do Distrito de Santarém, veio a conhecer, deste modo prosaico, a palavra seca e cortante do recém-estabelecido advogado. José de Azevedo, porém, ainda que respeitado e sempre à beira da cadeira parlamentar, nunca chegou a sentar-se na câmara dos deputados. Mas ganhou as eleições municipais, alguns anos depois – anos de João Franco, «esse valente», como tinha por hábito comentar –, quando já gatinhava pelos corredores atapetados da casa uma criança a quem as «criadas» e os «criados» da casa viriam a chamar, até ao «ar» ou «coisa ruim» que lhes desse, de «menino Alfredo». Guilhermina dos Santos herdou por esses anos prolíficos, já republicanos, vocíferos e atrevidos, morto o grossista com o cúmulo invejável de alguns prédios e lojas na vila, um armazém em Santarém, pastos e searas de lezíria, hortas e pomares, sorraias e umas dezenas de homens e mulheres empregados ou contratados à jorna (o notário não acrescentou estes últimos seres ao inventário, mas constava daquele que todos conheciam). Estava a raiar o sol do dia em que o seu marido herdaria e Clementina Augusta, bem como os seus irmãozinhos, crescia com a mesma urgência de um fio de areia alvo a passar de uma âmbula da ampulheta para outra.

 

Parte 2

Tanto quanto uma pesquisa nos periódicos concelhios dá a conhecer, Alberto Faustino foi o primeiro fotógrafo a estabelecer-se em Muge. Era um homem moreno, reservado e afável, a quem vieram a apodar de «o brasileiro», pois na vila não havia quem não sofresse esse segundo nome, sempre ou quase jocoso, que era a «alcunha». Só uma pessoa terá conhecido a sua idade e o bosquejo da sua vida andarilha; quiçá duas, com a do padre; todos os outros habitantes da vila calculavam somente que contasse uns trinta anos e muitas léguas para além das suas. E desconfiavam, pois, ora hostis ora amistosos, daquele sorriso complacente e olhar ladino que fazia deles – como fizera doutros – uns petizes em calças de homem ou saia de mulher. Alberto palmilhara, de facto, alguns dos caminhos incontáveis do mundo, pois viera a ele numa cabana de estorno construída durante os vagares cansados daquelas gentes tisnadas e ásperas do Algarve que ganhavam o pão da boca e o pano da roupa nas armações de atum, hoje aqui, para o ano na Isla Cristina, no outro a seguir em Kenitra. O dia em que nasceu nunca o soube com certeza, pois o pai e a mãe só o baptizaram e registaram, nesta ordem necessária, quando a faina e o patrão o permitiram. À roda dos dezoito anos, depois de seguir os rumos invisíveis dos peixes, mergulhou ele próprio, mais fundo ainda, no cardume humano – que é espécie, a humana, que hoje só se tem a si própria como predador. Haviam-lhe saído as sortes e o quartel de Tavira. Aí lhe acabou de brotar a barba; que logo teve de colocar de molho, pois assentou praça num leito alugado e partilhado com uma moça de alta patente. Aqui d’el rei, que a formiga julga que é cigarra! Mandem-me esse maltrapilho para longe antes que o mate à pancada: foi transferido para os invernos beirões, onde as pequenas aves palpitavam engaioladas entre quatro paredes de pedra. Mais tarde, em Lisboa, já estivador e republicano, cansou-se de apanhar porrada da polícia franquista – e de prometer casa a uma varina – e partiu para Santos: carregou café, foi marçano, caixeiro viajante e ajudante de fotógrafo. Matrimoniou-se em certa data com uma compatriota e viveram no Morro de São Bento; mas a tuberculose enviuvou-o e amargou-lhe o Brasil.

O aprendiz de fotografia esteve do outro lado do mar algum tempo, o suficiente para trazer uma câmara fotográfica, uma mala de roupa, livros atados por um cordel e o doce sotaque brasílico. Chegou a Muge, como podia ter chegado a Aljezur ou a Freixo de Espada à Cinta, num dia de primavera e montou em poucos dias o seu pequeno estúdio numa velha drogaria, à rua direita, próximo da igreja onde todos os habitantes de vila «entravam, pelo menos, duas vezes durante a vida: direitos à alcova ou direitos no esquife» – era este o gracejo predilecto do pároco. Outros havia que lá iam mais vezes, fosse pelo peso dos pecados (sobretudo os alheios) ou pela leveza do passo. O padre Gens – que foi o pároco de Muge durante trinta anos, da primeira à última sotaina –, tornou-se mesmo o seu primeiro e melhor cliente: deu-se a fotografar, certo dia, à porta do seu redil caiado – nos seus quase dois metros de bonomia resoluta e sorridente, com as mãos firmes sobre os pequenos ombros dos dois catequizados preferidos –, o que constituiu motivo certeiro, embora inadvertido, para a curiosidade do casario. A partir de então bem vista por quem através dela se queria dar a ver, a «Casa Fotographica Brazileira» adquiriu uma respeitabilidade tão sólida quanto as suas paredes de taipa. Mais ainda, ou sobretudo, quando os Condes de Salvaterra, ainda amedrontados com os tiros carbonários e regicidas que soaram no Terreiro do Paço e ecoaram em Muge, decidiram ser mais generosos com os miseráveis, os pobres, os órfãos e até mesmo com as prostitutas da vila: nesse fúnebre e conspirante ano de 1908, Alberto Faustino fotografou, copiosamente, o fausto, a beneficência, a cerimónia e o tédio atarefado dos Vasconcelos e Brito. Num desses momentos fixados pela câmara, um «pic-nic de beneficiência» estioso, estendido sobre a toalha fofa de papoilas, margaridas e azedas, à beira da ribeira de Muge, digno, como muito bem apontou a senhora dona Guilhermina dos Santos, “de uma reportagem da Ilustração Portugueza com clichês do senhor Benoliel”, Alberto Faustino conheceu cerimoniosamente Clementina dos Santos e Azevedo entre lances de olhares.

Nessa como noutras ocasiões semelhantes, os convivas adormeceram com a madorna, depois da refeição lauta, à sombra fresca e resinosa de uns pinheiros mansos ali plantados pelo acaso do vento. Clementina despertou, entretanto, modorrenta e aborrecida. As águas da ribeira corriam pouco profundas e apetecíveis. Subia no ar quieto um olor morno e adocicado de terra enverdecida, zoavam as cigarras ocultas no seu concerto frenético e hipnótico. Desceu até à margem. Não havia ninguém por ali, podia sentar-se, fechar os olhos, banhar os pés na água amena e fresca, sentir o veludo escorregadio dos limos, refrescar o rosto e o pescoço com o lenço molhado. Esteve assim uns instantes, a enganar o langor, até que o aparelho fotográfico ondulou sobre a linha da seara, a seguir surdiu o chapéu e logo se descobriu Alberto, acercando-se encalmado, vindo de um campo de trigo cujo cerco umbroso de sobreiros velhos o transformava numa clareira seca e refulgente. O senhor Alberto perdeu-se? Relanceou-o Clementina em contraluz, levando as mãos em auxílio dos olhos feridos. Alberto atravessou a vau e disse-lhe brandamente, num sorriso breve, Agora já encontrei o caminho, menina. Foi tirar um retrato a alguém? Não. Respondeu o fotógrafo, enquanto pousava o corpo pernilongo da máquina e se sentava numa pedra, limpando-se do suor que lhe manava das fontes e da testa. Então foi ao burro do sardinheiro? Escapou a travessura a Clementina, rindo-se. Alberto sorriu e esclareceu, Estive a fotografar além aquela seara, antes que ceifem o trigo. Não tardará muito. Comentou ela. A senhorita sabe quando é que ceifam? Um vozear pastoso, ais de quem se ergue sobre dores e formigueiros nos membros, soaram das sombras atapetadas de caruma e pinhas. Pergunte ao dom Francisco, a seara é dele. Informou Clementina, apressando-se de volta.

A ceifa ia ser tarefa breve, aquele trigal era só um palminho de chão, um capricho, afirmou dom Francisco, Nem trago rancho, vou mandar para lá meia dúzia de cachopas… Mas por que é que você quer saber, ó Alberto? Inquiriu o primogénito da Casa Cadaval. Se o dom Francisco me der licença, ia lá fotografar a ceifa. O senhor António Antunes encomendou-me uns clichés para um livro… Ai foi o Tonico? É para as artimanhas dele? Pois muito bem, tem a minha licença. Vá lá depois d’amanhã e fale com o capataz. À tardinha desse dia aprazado, pendia o sol sobre os jornaleiros e os jornaleiros sobre a terra, Clementina passou a cavalo, com vagar, à roda daquela mancheia de sobreiros grossos e ramalhudos que os duques tinham mandado plantar ali para refrigério e bebedouro do gado cornúpeto – e proveito da cortiça. O trigal já estava rente à terra, mas o canto das cigarras erguia-se triunfal e delirante, como se as paveias ainda não tivessem sido colhidas e amontoadas, como se aquele fosse o primeiro dia do mundo. Clementina entrou na sombra copada do pequeno montado, desceu do cavalo, prendeu-o a um bebedouro de latão e foi por ali, a passo leve, sobre um crepitar de folhas secas e carapuças de bolota, à escuta e à espreita, sem se deter. Mais adiante, murmuraram e casquinaram dentro de um juncal cerrado que brotara a um canto da clareira, junto à ribeira. Clementina entrou com patas de gato no labirinto afiado do canavial: ouviu roçagar em folhas secas, um gemido de quem padece sem sofrer atravessou a brenha para logo se abafar. O coro estridente das cigarras e o tambor do coração entonteciam-na; o suor perlava-lhe a pele arrepiada do dorso e do colo do peito; uma expectativa lúbrica enovelava-se-lhe no ventre, turgia-lhe os mamilos. A certa altura, entreviu alguém a erguer-se subitamente, sacudindo-se e compondo-se. Deteve-se, tremente e atenta. Umas quantas palavras guturais levantaram um riso de rapariga que se perdeu num restolhar açodado e breve. A câmara fotográfica e o tripé estavam poisados no chão, aos pés verdes das canas, e Alberto, deitado, cobrira o rosto com o chapéu. Clementina revolveu os passos, pé ante pé, felinamente, e regressou ao montado – no dia seguinte iria ao estúdio, com a mãe, encomendar um retrato.

Parte 3

As mãos de couro áspero dos jornaleiros encheram os celeiros, as tulhas e as eiras. Fez-se a adiafa, pagou-se o devido e houve bailarico: harmónios, bailes de volta e fandangos. Mas depois da tripa forra, ficou a fome, mais uma vez, a gozar a alforria. Deus a todos provém, salmodiou naquele domingo o padre Gens do altar da matriz, prevenindo os males maiores com as melhores garantias. A assistência, entre mantilhas e trapos, polainas e alpercatas, contabilizou, uma vez mais, com insatisfação, o único provimento que lhe era tangível. Os estômagos testemunhavam, melhor do que quaisquer outros órgãos noticiosos (mesmo A Sementeira), a realidade da «lavoura nacional»: meia dúzia soluçavam, dúzia e meia roncavam. Cá fora, à saída, debaixo de uma chapada de sol, os homens grados da vila separam-se das mulheres e formaram, por uns instantes, alguns círculos de conversa a fumo de cigarrilhas. O senhor presidente não se importa de chegar aqui, segredou o notário a José de Azevedo, puxando-o delicadamente para a esquina do adro. Ora diga lá homem, temos urgência? Admirou-se o médico e presidente da câmara municipal. O senhor sabe o respeito que lhe tenho… Tartamudeou o homem das escrituras, como se a garganta estivesse forrada de cortiça. E depois? Atalhou o outro, já agastado com aquele tenteio indiscreto de mexerico. Soube disto há pouco tempo, pela minha honra que não é má-língua… O que é que você soube? Antes lho diga eu do que vir a saber por outros… Ande lá, homem! Do que se trata? É a menina Clementina, anda a visitar o fotógrafo sem companhia… O que é que você está a dizer, sua besta?! Gritou o cabeça do concelho; voltaram-se alguns olhares. Palavra de honra… Sibilou o tabelião, empertigando-se no seu encolhimento. Cá mo fez saber, senhor Jerónimo, agradeço-lhe os cuidados, pode ficar descansado – despediu-o José de Azevedo. Fez um sinal ao condutor da caleça e outro à esposa. À noite, quando vinha da taberna, Alberto Faustino topou com o vulto de dois morcegos gigantes e esguios a rondar-lhe a porta de casa, Quem é que teve mau perder? Murmurou de si para si. Ou isto é mão de outro jogo?… Sacou da lâmina e deu-lhes as boas noites.

Não a quero cá mais… Depois dela jantar com as criadas, mete-se a arca na carroça e vai com o Clemente. Não fica nem mais uma noite debaixo do mesmo tecto que eu. E não me peças dó, senão… Advertiu o presidente da câmara. Guilhermina dos Santos levou o lenço aos palpos avermelhados dos olhos, Para onde a levas? Para Almeirim. Tenho lá umas terras. E há lá um palheiro. Não há melhor lugar para ela… Deus te perdoe… Deus tenha piedade de ti… Pungiu a ultimogénita dos Santos. Cala-te! Berrou o médico. Não quero saber dessa conversa de padre para nada… E o que vai ser da nossa filha? A interrogação ficou-lhe suspensa num soluço quando o marido lhe arregalou os olhos ameaçadoramente – e caiu num pranto quase mudo. José de Azevedo retirou-se para o escritório; resolvera ir ao notário no dia seguinte, estar lá assim que este abrisse a porta: a «cadela» não herdaria nem um pataco. Guilhermina dos Santos ergueu-se com esforço, pálida e exânime, e desceu até à cozinha, onde a cozinheira e as serviçais se afadigavam em torno do fogão e da velha mesa de pedra trazida do paço de Salvaterra de Magos; a qual estava ali, há muito, por oferta, no centro da cozinha. Podem ir descansar quando terminarem de fazer o jantar, disse Guilhermina dos Santos, cujo tom de voz lúgrubre, desânimo de olhar e mãos tremelicantes emudeceram as serviçais. O silêncio da casa avivava o rodar das carroças e das caleches na rua que as paredes espessas eram incapazes de algodoar; ouviam-se as madeiras dos móveis e do soalho a estalar, o pêndulo do relógio da sala a martelar. Clementina chorou diante do prato de sopa que esfriava. Não conseguia comer, doía-lhe o rosto macerado, o lábio rompido. Ao levantar-se, a mãe fitou-a como se a tivesse morta diante si e abraçou-a, ainda podiam chorar nos braços uma da outra. Se eu puder, mando lá o Clemente à noite para saber como é que estás… Balbuciou Guilhermina dos Santos. O cocheiro abriu a porta da cozinha nesse instante – era quase meia-noite, a hora que José de Azevedo estipulara –, mas não ousou entrar, pois não sabia o que dizer, desbarretou-se apenas. Clementina subiu para a carroça a soluçar. Os dedos enclavinharam-se no assento, cravou os olhos na mãe, Não me deixe ir minha mãe, por favor… Clemente olhou para as vidraças do sobrado onde o patrão fez um sinal com a mão e vergastou repentinamente o cavalo, incitando-o – e Guilhermina Santos, amparada no umbral da porta, perdeu o verbo assim que o carro rodou no saibro.

O cocheiro levava pressa como se uma matilha de lobos os rondasse. Chegariam lá antes dos primeiros alvores, isso é certo, para vergonhas já bastava. Maldito o dia em que tinha decidido ficar quando o pai do menino Zé já contava uns quantos antes da missa do sétimo. Em tantos anos nunca passara por uma destas, levar uma menina com tanto de seu e largá-la ao deus dará, com uma trouxa, num breu daqueles, como se fosse uma maltesa. As más-línguas cochichavam que a menina Clementina já só o era pelo respeito que deviam ao pai e à mãe. As bocas porcas, essas, enxovalhavam-na com alcunhas de perdida para baixo, mas faziam-se pequenas, se o «senhor presidente» viesse a saber… Cala-te boca! E a pobre mãe, coitada, uma senhora educada e prendada como era… Nada luzia, nem no céu nem nas janelas das casas dos lugarejos por onde passavam – parecia que as estrelas se tinham aferrolhado. Por vezes, ladravam e uivavam cães, em alerta, ao longe, nos recessos indistintos da escuridão. E quando lá chegarmos, mãe de deus, o que é que eu faço? Se a largar no palheiro, morre a mãe, se me fraqueja o coração, morro eu de fome… O vulto a seu lado mexeu-se, Ó Clemente, conte-me lá uma história de lobisomens, eles saem ao luar, não é? Aquelas palavras brotaram inesperadas e estranhas como se jamais tivessem sido pronunciadas. O homem mirou-a num sorriso desajeitado, Saem sim senhor… Atão ê conto-lhe. Era uma vez um home e uma melher que tinham uma casita aqui para estas bandas. O home, que era um lovisome, já tinha dito à melher, Se acordares e deres p’la minha falta, não te apoquentes e não vás atrás de mim… A melher dizia que sim, era muito amiga do home dela, mas aquilo roía-lhe lá por dentro: porqué c’o home se levanta todas as noites que há lua cheia? C’achentes diabos… E vai uma noite dessas, havia uma grande lua no céu, menina, ela fingiu que estava a dormir e esperou que o home dela se levantasse e saísse. Ah magana! Mais valia ter ficado a dormir… Ela saiu, foi andando, foi andando, ‘té dar c’o marido naqueles trajeitos… Vai daí, o marido deu com ela a espreitá-lo e gritou-lhe assim naqueles modos de selvagem para ela ir p’ra casa: e lá foi ela, lavadinha em lágrimas… Clemente interrompeu-se bruscamente e instou o macho como se o mesmo pudesse trotar ainda mais depressa sem os perigar num galope, Eiii… E depois Clemente? O cocheiro abreviou, sem o entusiasmo que usualmente punha nas suas histórias, sobretudo no remate, E depois o home ficou desencantado e sofreu para o resto da vida.

Às primeiras casas de Almeirim, atarracadas e alvas, entre hortas, pomares, olivais e vinhas, Clemente anunciou lugubremente, Menina, estamos a chegar… O cocheiro fez seguir o macho para um largo mal iluminado por quatro candeeiros de ferro fincados em cada esquina e parou a duas portas de uma farmácia, cujos anúncios e sobrenome do proprietário negrejavam pintados de fresco em torno da entrada. Menina, engasgou-se Clemente, vou deixá-la antes aqui… Além vive o farmacêutico – e esticou o queixo. O farmacêutico? As palavras necessárias para responder a Clementina tolheram-no, por isso foi com meia alegria que lhe acudiram logo estas, A menina esteja descansada, assim que puder volto cá… E saltou para descarregar a arca do enxoval e pousá-la diante da farmácia. Clementina desceu da carroça, pegou na trouxa e atravessou, queda e confusa, a rua terrosa. Os guizos do macho tilintaram com o arranque. Ao lado da entrada da farmácia havia outra porta: seria ali? As luzes da casa só se acenderam quando Clementina bateu com a mão fria da aldraba de ferro uma terceira vez. Quem é? Soou uma voz masculina e indignada. Ajude-me, por favor, não tenho onde ficar… Implorou, aflita. Um homem alto e seco, de bigode e cabelo rebrilhantes, abriu a porta e mirou-a sem pressa: maltrapilha não era. Quem seria? Entre. Tenho aqui uma arca… Não se apoquente, eu já peço para ma trazerem para dentro. Ela entrou e olhou em redor, como quem recobra do sono. Sabe cozinhar? Indagou o homem, com alguma arrogância. Ao silêncio dela, o farmacêutico respondeu, Não tem importância. Tenho um quarto vago, venha comigo. O retrato de uma mulher jovem alegrava a sala, não fosse um fumo negro que atravessava o vértice superior direito da moldura. Nessa noite, no fundo de uma barroca seca, longe das primeiras casas da vila, de borco sobre o sangue que lhe manava do nariz, da boca e da ilharga, Alberto recordou-se do odor do cabelo e velo castanhos de Clementina, da sua pele cálida e do estridor das cigarras. Para a próxima a cova é mais funda, cão… Cuspira-lhe um dos morcegos, ferido na asa. Na manhã seguinte, vendeu o estúdio ao notário, a preço de ruína, emalou os seus pertences e partiu de carroça pelas estradas que chegavam ao Alentejo.

Continua…


Pedro Silva Sena | Almeirim, Portugal

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