Subversa

Na ameaça dos abismos | Pedro Belo Clara


“Snow Field, Morning, Roxbury”, John La Farge (1864).


Não soubera doutro ocaso tão frio. Uma luz pálida, mas ainda apegada à sua raiz de oiro, afagava com a suave lentidão dos moribundos que aceitam a morte flores de frágil gelo, pintando nelas as mais recônditas cores dum sonho feliz. Eram ramos despidos, era a solidão dos corvos, o grito de quem confundiu a rota de partida; era a mudez fulgente duma desolação absoluta, onde o único fogo vivo cintilava brando no olhar destes que tudo bebiam.

O silêncio repoisa nos lábios, agora – ave em platinadas cintilações antes de se entregar ao voo. Estranho como tudo parece igual, embora no íntimo conheçamos o destino das rosas. O enlace dos corpos cinge-se em gestos que não admitem o temor pressentido diante da ameaça dos abismos, diante das sombras espessas. O que assola os filhos do sol? Algo ainda dói, amor – e tão bem o sabemos.

Escuta os sons do amanhecer. Cantares ao longe, tão longe, estendendo-se como o abraço duma lânguida maré. Conhecem o toque capaz de entreabrir o coração; assim entram em cada fímbria do ser para aí depor o seu beijo de luz. Poderão eles acender o dia em tão íntimos recantos?

Um sonho súbito, um sonho de flores e de ti, de abelhas espalhando pólens pelos terraços de maio, de sementes mergulhadas na terra, de águas dançando quase adormecidas na placidez de horas brancas.

O lume cresceu em nós, amor; o lume fez-se poema em corpos esquecidos de morrer, tomou para si o manto dos dias perdidos em âmbar e louco despenhou-se no imenso regaço das noites, na imensidão tremenda de olhares que ardem sem compreender a chama. Porém, evolou-se em cinza – como à cinza se remetem todas as coisas viventes, pulsantes de canções e cor.

E nós aqui, amor; aqui, sem abrigo contra o gelo que entropece, contra a chuva que dilui – varrendo em enxurrada as pegadas na estrada que se abria às dunas e às gaivotas, a estrada que esplendorosamente morria à boca do mar; aqui, sem casa onde edificar a luz dos beijos soltos, a fantasia de palavras inventadas sem noção de forma. Para quê o fogo que se cala diante do rio sem fim?

Mas sossega a negra ave que no peito se agita. Sinto-o na certeza do que se não diz: em renúncia completa descobre-se a cintilante presença que antecede o grande sonho, revelando-se lenta na quietude das simples coisas. Haja uma estrela sobre a terra que já se despediu das flores.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha 11 de janeiro de 2020 em 16:41

    Perpassa-nos um estremecimento ….Ouvimos o silêncio….Percebe-se uma quietude de prenúncio…O poema arranha-nos!
    Adorei, meu amigo, ADOREI!CL

    • Pedro Belo 13 de janeiro de 2020 em 16:29

      Fico contente, Conceição. Muito obrigado pelo seu comentário.
      Até breve.

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