Subversa

Motivos II, ou a personagem muito metafísica| Giovane Adriano dos Santos

“Aristóteles”, Francesco Hayez

“Vou perguntar ao doutor se concorda que todo problema nasce de uma solução, gerando novo problema e assim por diante o mundo desdobra-se”.

Adélia Prado

 

A “Maria Edwiges, a viúva do Batata, passou aqui hoje, muito metafísica” [1]. Alicerçada nessas palavras, a narradora-personagem do texto de Adélia Prado resumirá, evitando que enfadem a si os detalhes contados no fragmento anterior da obra e insujeitos à repetição, o diálogo que teve com sua amiga a Thomaz. Inexistindo desejo de que seja reproduzida toda a conversa, àquela que conta a história são necessárias, mas não suficientes, é certo, as emissões de vocábulos que, digamos assim, poupem ao interlocutor, seu esposo há longos anos, particularidades que a levaram crer no elevado grau de intensidade da suposta condição de Edwiges.

Contudo, na fala com a qual talvez condense a personagem que transitou – ou determinada característica desta, a narradora parece omitir demasiadamente os fatos em torno dos quais orbita a conversa [2], como se fizesse, enunciando sem ressalvas que o faz, ato de radical elipse, uma vez que os termos precedentes estão postos ao texto para quem os quiser ler e significar, as conjeturas, e mais que estas, os predicados a respeito dos quais a declaração se debruça; debruça não os escondendo, e sim lhes desfocando com a ajuda de pausa introduzida para, sendo feita ao cabo do parágrafo, iniciar assunto que se supõe novidadeiro, mas que faz luzir apenas que, de fato, se lermos a conversação fragmentária das duas personagens ao longo de toda a obra, somos levados, acrescentando às lacunas transposições forjadas de palavras, a interpretar que “a Maria Edwiges, a viúva do Batata, passou aqui hoje, [preocupada com questões] muito metafísica[s]”. Se assim lermos, segundo nossa opinião, a personagem de Adélia Prado remete a Aristóteles.

Colocamos nas mãos obra antiga e prosseguimos esta leitura. Com as palavras iniciais que achamos naquele texto, o autor grego nos diz que a visão é o sentido por meio do qual os seres podem conhecer melhor o mundo que lhes rodeia. Verificamos tal assertiva, todavia inscrita implicitamente e com outros termos, também no escrito da divinopolitana, porque na cena que registra encontro da mulher-muito-metafísica com aquela que narra a história, pessoa para quem ouvir da personagem as falas é acroamático, lemos que Maria Edwiges a um tempo olha e questiona. Segundo nos sugere a narradora, falando a respeito de Maria Edwiges, (“Esta me pegou na rua, me reparou bastante e perguntou curiosa: tá boa, Antônia?” [3]), a mulher a que desde o título fizemos menção é afetada pela materialidade inscrita nas coisas; é, mais precisamente, atingida quando lhe chegam imagens aos olhos.

O verbo reparar, como escrito no fragmento do parágrafo anterior, poderia sugerir, se desprezássemos completamente as características assentadas na prosa ficcional lida e o contexto em que ele está anotado, que a Edwiges não olhou na direção da narradora-personagem, considerando-se que a regência ali marcada daria aos leitores pressupostos conducentes ao arremate segundo o qual, certos de que “reparar a” distingue-se estrutural e semanticamente de “reparar na”, não se poderia ler no fragmento da narrativa alusão à vista, isto é, àquele sentido a respeito do qual Aristóteles, pondo em relevo o esforço humano na busca por conhecimento, escreve no parágrafo inicial dos textos a que depois, estando reunidos à maneira que chegaram a nós, a tradição afeita a esses tais assuntos nomeou Metafísica? É evidente, no caso sobre o qual nos debruçamos, que reparar adquire sentido de ver/olhar/espiar.

Em vista disso, o palimpsesto que aí alcançamos deve-se ao fato de a personagem, querendo conhecer a respeito da narradora-personagem, recorrer principalmente às perspectivas e às imagens que vê desta. E, atingida por este sentido e pelo que lhe vai às retinas dando e recebendo testemunho da materialidade, Edwiges está apta a indagar. Depois de ela ver, pensamos, é como se nos dissesse gestualmente que a observação da realidade precede a perguntas e não requer respostas finais. No texto de Adélia Prado, por que o mármore, exemplo recolhido em Aristóteles(?), serve à discussão a respeito da matéria? Segundo o autor, a matéria da qual decorre alguma coisa não se equipara à coisa mesma (referência à identidade lógica(?)), razão por que, assim o lemos, também a linguagem se limita ao significar o mundo: a uma estátua de mármore se chama marmórea, ensina ele, e não apenas mármore. Se lido conforme nos exige a sequência das páginas, o escrito da autora nos apresentará Maria Edwiges fragmentariamente ao correr da obra; sabemos, é verdade, poucas informações da personagem e ignoramos-lhe idade, profissão, etc.; conhecemo-la pelas falas duplamente extraordinárias e pelo (des)arranjo – pertinente aos nossos olhos – que ela faz daquilo a que metafísicos, explicando ou não este vocábulo, imprimindo ou não a ele balizas conceituais, chamariam realidade. Voltemos à pergunta feita ao início do parágrafo; agora, porém, explicando-a brevemente: é a segunda ou terceira (o texto é propositalmente incerto com relação a isso) ocasião que à personagem-muito-metafísica são dadas oportunidades de fala; ela anda por sobre a rua da cidadezinha fictícia e se encontra com Antônia.

De acordo com o que sugerimos no parágrafo anterior, na primeira vez em que se encontraram, Maria Edwiges disse à Antônia algo sobre arquitetura; ela falou sobre a construção de campa, acrescentando, desconcertante e estranhamente, que no objeto feito à medida determinada, a si veria repousar de verdade; com isso, a personagem introduz duas noções caras ao texto antigo que a nós importa agora, mas não exclusivas dele: forma e matéria. Depois, as mulheres encontram-se novamente. Na oportunidade, a narradora pergunta “pela construição[4] outrora enunciada pelo texto e ouve como resposta “que faltava só rebocar e caiar” [5]. Antônia soube também que sua amiga “Ia botar cerâmica vitrificada [na obra] mas desanimou com o preço. [Edwiges] Achava bonito mesmo era málmore” [6], ambas assistindo, portanto, à limitação sobre a causa eficiente: nesse contexto, a existência de algo precederia necessariamente a formas [7], de modo que à limitação a que o objeto do anseio de Maria Edwiges fosse levado a determinado fim somou-se a impossibilidade mesma de submetê-lo, expressemos assim, aos vigores capazes de imprimi-lo [a] forma específica.

Certamente, lê-se isto sem grande esforço: a limitação que escapa à personagem é alicerçada em fatores econômicos. Vista assim, a situação se coloca aos nossos olhos de modo a apresentar cenário em que, dadas as possibilidades materiais de aquisição de bens, os objetos se podem submeter às causas eficientes e caminhar a uma finalidade. Dito de outro modo, no texto de Adélia Prado, a construição perfeita é diversa do desejo de Maria Edwiges porque, em que pese à existência do objeto sobre o qual a mulher anseia que seja impressa determinada forma, tal objeto não se insere no rol daqueles atingíveis pelo poder aquisitivo da personagem. Nas páginas seguintes da obra, Adélia Prado retoma a discussão e remete outra vez ao mármore, alterando, contudo, a forma que à rocha foi dada; para sermos mais específicos, transcrevemos este trecho em que ela escreve: “À tarde havíamos [Antônia e Thomaz] visitado a Igreja de São Pascoal, onde tem o Cristo de mármore branco, um Cristo muito grande, parecendo um nórdico” [8].

Voltando à Edwiges, quer ela sido tenha constituída intencionalmente ou não para aludir a determinado sentido, fato é que a personagem da autora de Divinópolis se põe a conhecer as coisas sobretudo por meio do olhar. Queixando-se da distância de sua amiga e da falta que esta lhe fazia, a narradora expressa: “Estou com saudade da Maria Edwiges. Foi ver o mar pela primeira vez, vai voltar extasiada com o ‘opor do sol sobre as ondas’” [9], nos sugerindo, com esse enunciado cujo excerto final é extraído da fala de Edwiges, que o mar e o sol também se dão a conhecer pela visão. É interessante, porém, notarmos que, à dissemelhança daquele fragmento que transcrevemos para o bojo de algum parágrafo anterior, o verbo neste inscrito é ver, o que, à exceção de aspectos gráficos e morfológicos a que não damos atenção já, nenhuma novidade registra ao texto: primeiro, a personagem-muito-metafísica se coloca a reparar na narradora; depois, a ver o mar e o sol, este a correr por sobre as águas daquele.

Se, por um lado, a voz aristotélica aparece mais ou menos fragmentária, constituindo aquilo a que poderíamos nomear alusão – porque o diálogo com o grego não se sabe intencional e, se o é, exige, como em todo caso a alusão requer dos leitores, que a escrita pretérita se faça ecoar nos grafos da atual, esta que outrora a si poderá fazer reverberar em texto à espera de mãos que lhe deem forma e significado nunca completamente novos, exceto nos casos em que, desprezadas a historicidade de toda língua e as classificações com as quais os argumentos mais rigorosos e as expressões mais erradas e falsas talvez se articulem, pois eles residem potencialmente na cultura de qualquer povo que se vale de gramática, e destruamos o texto, devemos notar que a negação da intertextualidade não se pode ocorrer sem que nos coloquemos do lado da contradição performática, munindo-a: alguém, ao falar que há texto que não é intertextual, principalmente se exemplificar o que diz, logo vê nascida a intertextualidade, à qual nós, sem saber de nome mais expressivo, atribuímos este: palimpsesto –, no texto de Adélia Prado, por outro, há trechos ficcionais nos quais lemos a citação, embora a autora não ponha à escritura muitos grafos referenciais de convenção para citar – por exemplo, nome da obra, página, edição, etc. –, porque é incomum que os escritos assim constituídos adotem essa atitude de diálogo.

Nas últimas páginas da obra, a narradora inventada pela divinopolitana diz: “Cheguei da rua, Thomaz me achou na mesa, me preparando pra enviar o sonho ao doutor. Chegou citando Descartes: “nossos sentidos nos enganam”” [10]. Assim, a autora interpreta René Descartes e transcreve da Quarta Parte do Discurso do Método o trecho alusivo aos sentidos. Maria Edwiges, personagem fragmentária, não foi desenvolvida de modo a chegar às últimas páginas textuais interpretando o mundo. A propósito, acrescentamos que há pelo menos outras duas passagens da obra hábeis a que a personagem-muito-metafísica faça referência à visão, atribuindo ao sentido os vigores de estrada conducente ao conhecimento. O primordial, segundo palpite nosso, é que Edwiges, em verdade, cumpre aquilo que a narradora gostaria de dizer de si mesma, esforço narcísico posto aos ombros da personagem que, tendo sido constituída aos moldes com os quais foi, jamais veria no diálogo dos convivas qualquer referência cartesiana.


Notas:

[1] PRADO, Adélia. O homem da mão seca. São Paulo: Siciliano, 1994, p. 61.

[2] As personagens, no excerto ao qual aludimos, dialogavam sobre Deus e sobre a possibilidade de conhecê-lo.

[3] PRADO, Adélia. Op. Cit. p. 30.

[4] Idem.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] Interpretando Aristóteles, Bryan Magee escreve que à feitura de estátua marmórea (causa final) antecede o mármore (causa material).

[8] PRADO, Adélia. Op. Cit. p. 70.

[9] Idem. p. 42.

[10] Idem. p. 169.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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