Subversa

Libertação | Astronauta de Pulôver Azul Neon

Ilustração de Lila Bitten

para meu amoroso pai

sempre foste um menino.

mesmo quando o destino te

impôs responsabilidades que não

deviam ser de um garoto de quinze anos

foste homem e menino.

homem por alimentar

uma família inteira de muitas

e tantas bocas agregadas e familiares.

homem na hora do braço firme.

de dar o peito ao batente.

lutar pelo pão de cada dia.

menino por ter os olhos brilhantes

quando o almoço, com o teu suor, era servido.

todos os dias, sem falhar, sempre pontualmente.

menino na hora de receber o pagamento.

bobo como se ganhasse um brinquedo novo.

homem maduro e sério na hora do investimento

necessário e único: tua família,

teus agregados.

sonhaste com um mundo todo teu.

viveste nas entrelinhas das metáforas.

trabalhaste e serviste para os outros,

não para ti. mas esta, era a tua consolação.

o servir em nome de outrem. para outrem.

criaste laços de amor. fizeste tua família.

ainda jovem, mais e outras tantas responsabilidades.

encaraste-as no peito. no braço. no coração.

filhos teus. tuas meninas.

todas as três com o teu nome.

o teu sangue.

nunca deixaste de ser menino.

embora eu seja a tua última:

nunca deixaste de ser o meu menino.

acordaste, aquela vez, lembra?,

no meio da noite,

com medo do pesadelo.

gritaste por mim, por todas nós.

fui eu que acendi a luz.

e te tirei do medo do escuro.

ali, com os olhos tristes e a fronte suada:

eras o meu menino.

dei o teu sorvete preferido.

dei meus sorrisos

para espantar os monstros do

teu maior pesadelo.

dei-te meu amor,

porque em toda a minha vida,

até o último suspiro,

foi amor que me deste.

ali, mais ainda, eras o meu menino.

no meio do pesadelo,

entre dor e desespero pelo futuro

que não viria na terra – e que viria em outra morada,

pediste meu consentimento para partir.

pediste em voz rouca, mas alta,

mas lúcida. todas nós ouvimos.

o pedido foi para mim: me deixa ir!

e, como se eu detivesse todos os poderes divinos,

sorri e disse com segurança não costumeira minha:

podes ir! estás livres!

formou-se sorriso teu. lúcido, apesar de.

depois de tantas chuvas fecundas –

em limpar e renovar a terra, a alma, a vida –

já não tinhas o mesmo medo de outrora.

estavas plácido. como o céu de hoje.

olhos cerrados do menino que sonha.

olhos cerrados do homem que nunca

deixará de viver entre nós.

somos tu.

o homem que conheci de quem sempre me orgulhei.

o do embalo. o do canto e encanto:

eu te liberto de novo e mais significativamente desta vez.

eu te liberto nestas linhas,

para viveres a vida somente para ti.

eu te liberto de meu coração

inconformado e amargurado

para somente seres feliz

onde quer em que nuvem estejas.

eu te liberto, eu te amo.

volta a viver!


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

 

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