Subversa

Jovens Amantes | Pedro Belo Clara

 

Perfumes de nardo e sândalo

trocam valsas pelo quarto.

Indolente, a leve cortina

fatiga-se na falta

de companhia para dançar.

 

A jovem mulher,

antes de se entregar

aos abismos da morte suave

com o tremor dum sorriso,

refugia-se no biombo

– trocando para si segredos

que nunca ousou cantar,

aprontando-se insegura

para a desfolha da noite.

 

À luz tosca do candeeiro de papel,

sobre pétalas de rosa,

o amante de sempre espera

– indiferente às seduções da lua.

 

Um trovador nocturno,

já de asas poisadas,

de súbito irrompe em canção.

Por fascínio maior

interrompe-se o afazer feminino.

 

São dois os passos dados,

revelando mais que deveriam.

Na percepção repentina da falta,

por pudor a jovem apressa-se

a esconder os seios de algodão.

Ainda não está pronta para receber

as estrelas dos olhos do amado,

o malmequer fremente

dos seus dedos inquietos.

 

Na surpresa do momento

um sopro afasta os perfumes,

ignora a carícia da cortina dolente

e com a audácia dos vagabundos

entre pernas brinca

com a saia quase ausente.

 

O jovial rosto de leite

ruboriza-se pelo atrevimento

da visita inesperada.

 

No outro coração, porém,

acende-se um fogo diferente:

 

                         terá ela um novo amor?


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

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