Subversa

Jesus, F.G.A.M. | Felipe G. A. Moreira


“Crucificação”, Francis Bacon, 1933


Naquele tempo, eu. Mais: o Bolsonarista-raiz. Nós andávamos em direção à praia de Ipanema. Isso lá pelas seis da manhã. Quando fazia um frio que deixava mesmo a gente respirar melhor. Parece que agora, enfim, eu tenho um pulmão. Você tem um pulmão. E nós podemos, enfim, respirar. Eu dizia. O Bolsonarista-raiz se ria. Mais: leve. Menos: puto. Um pouco menos, ao menos.

Porque, no meio do caminho, tinha uma merda de cachorro. E o Bolsonarista-raiz dizia: que porra de fedor?! Se eu visse o filho da puta que deixou esse cachorro cagar nessa merda dessa rua, eu matava!

Vocês já perceberam que todo Bolsonarista-raiz se enfurece fácil com cheiro desagradável?

Porque, no meio do caminho, tinha um mendigo. Daí, o Bolsonarista-raiz dizia: por que a gente não queima um sujeito desses?! O Bolsonarista-raiz, então, ria. Mas ela ria nervoso.

Vocês já perceberam que todo Bolsonarista-raiz se enfurece fácil com mendigo?

Enfim, o que importa é que nisso que o sol estava prestes a nascer, eu começava a falar sobre o novo testamento dos cristãos. Mais exatamente: sobre os evangelhos. Mais exatamente ainda: eu falava sobre O Evangelho Segundo João. Eu dizia que esse texto aborda a disputa sobre se Jesus é Deus.

Deus e/ou verbo feito carne e/ou um com o pai e/ou o filho de Deus e/ou o cordeiro de Deus e/ou o messias e/ou aquele que antes que Abrão-Abraão fosse feito já era e/ou aquele que quem vê, vê o pai e/ou aquele que é.

Eu defendia e o Bolsonarista-raiz concedia que, olha, a função do evangelho de João, na verdade, de todos os evangelhos é fazer o leitor, sobretudo, sentir que, sim, que Jesus é Deus e/ou verbo feito carne e/ou, etc. E que, daí, Jesus pode, sim, revisar ou, ao menos, acrescentar algo à bíblia dos judeus, ao velho testamento. Na verdade, eis uma definição de cristão: aquele que de fato sente que isso é o caso. Nos evangelhos, Maria, Maria Madalena e os apóstolos (talvez, com a exceção de Judas Iscariotes) sentem que isso é o caso. Daí, eles são os primeiros cristãos.

E o cristão sente que Jesus é Deus, sobretudo, porque, para o cristão, Jesus fez vários milagres. Ele transformou a água em vinho (João 2: 1-11). Ele curou um doente (João 4: 46-54). Ele fez um paralítico andar (João 5:1-9). Ele multiplicou o pão e o peixe para a multidão (João 6: 6-15). Ele fez um cego ver (João 9: 1-7). Ele fez Lázaro voltar a viver (João 11:1-46). Quero dizer: que, nos evangelhos, os testemunhos de milagres são ou pretendem ser evidência que, sim, que Jesus é Deus.

Daí, um não-cristão, tipo um judeu ou um romano, é alguém que não sente nada disso. Alguém que sente que Jesus não fez nenhum milagre. Alguém que sente que a “evidência” dos evangelhos não é bem uma evidência e que, na verdade, esses textos, esses poemas são meio literatura fantástica.

Alguém que sente mesmo que Jesus era só um falso profeta ou mesmo alguém que sofria de uma doença mental. Uma doença mental que o fazia crer que ele era Deus. Que o fazia crer que ele era capaz de fazer milagres. Quando, na verdade, ele não fazia milagre algum.

Agora, eu queria propor uma terceira posição nessa disputa sobre se Jesus é Deus. Uma terceira interpretação que meio que pinta um quadro quase abstrato de Jesus no estilo de Francis Bacon. Que?! Como assim!? Não tem terceira interpretação… Ou é cristão, homem de bem… Ou é judeu, romano, petralha… Nisso, o Bolsonarista-raiz deu um tiro pra cima. O tiro acordou o mendigo.

O Bolsonaro-raiz queria porque queria que o mendigo desse uma desculpa para que ele pudesse enfiar umas balas pelos orifícios do mendigo. Mas o mendigo não fez nada.

E eu insisti que tem, sim, uma terceira intepretação. Muito do que a poesia metamodernista faz é explicar essa terceira leitura. Essa leitura começa com uma pergunta: olha, e se os judeus, os romanos estavam, sim, certos de descrer que Jesus é Deus? Isso porque eles estavam, sim, certos de descrer na pretensa evidência apresentada nos evangelhos? Quero dizer: a pretensa evidência que Jesus era um fazedor de milagres.

Mas… E esse “mas” é importante…

Mas e se, ainda assim, dá para extrair algo de interessante dos evangelhos, mesmo sem crer na leitura cristã? Quero dizer: uma leitura que fosse meio que uma síntese da leitura cristã e da leitura romana-judaica. Dá pra cortar o mistério?! Eu tenho vontade de poder voltar lá e dar um tiro nesse mendigo.

O ponto é ler que Jesus era, na verdade, gente como a gente, tal como os judeus, os romanos alegavam. Mas, ainda assim, ele estava, sim, autorizado a revisar ou, ao menos, a acrescentar algo ao velho testamento, tal como os cristãos acreditam. Ele estava autorizado porque ele procurava fazer justiça a algo de essencial em relação à experiência humana. Algo que o velho testamento, a bíblia dos judeus não parece captar, ou, ao menos, não enfatiza lá muito.

Por um lado, esse algo de essencial em relação à experiência humana é que parece que pessoas não conseguem ser como Abrão-Abraão ou Sarai-Sara. Isto é: as gentes todas não parecem poder simplesmente abdicar de qualquer vontade de poder e sacrificar a si mesmas em nome de uma comunidade que impõe demandas externas ao que é o mais singular de si mesmas.

Por outro lado, esse algo de essencial da experiência humana é que parece também que não basta para a gente ser indiferente a qualquer vontade de ordem. Não parece bastar ficar indiferente a qualquer demanda da comunidade e, sei lá, viver isolado numa montanha se drogando até morrer

Ser humano é ter uma espécie de vontade de síntese. Uma vontade de fazer justiça a essas duas tendências contraditórias de si. Quero dizer: é querer se sacrificar pela comunidade, feito Abrão-Abraão, Sarai-Sara, e afirmar o que é o mais singular de si ao mesmo tempo, mesmo que isso seja impossível. Daí, aquele que consegue fazer isso é, sim, de certo modo, um Deus.

Na verdade, eu tenho cá pra mim que essas sentenças de Jesus, tipo, “eu sou Deus”, “eu sou Deus feito carne”, “eu sou aquele que é”, etc., podem ser entendidas como performativos. Um performativo é uma sentença por meio da qual alguém faz algo ao meramente dizer algo.

Tipo: imagina um padre dizendo “eu vos declaro marido e mulher”. Ao meramente dizer isso, o padre faz algo: ele muda o estado civil de duas pessoas. Estou lendo que ao meramente dizer, “eu sou Deus”, “eu sou mais fundamental que Abrão-Abraão”, etc. Jesus fazia também algo: ele fazia ou, ao menos, procurava fazer a si mesmo agir de acordo com a sua vontade de síntese.

Uma vontade de síntese que o faria ver em Deus ou nessa vontade de ordem, não algo externo a si e que contradiz ou mesmo reprime o que é o mais singular de si. Feito: a tua vontade de poder, tuas tendências mais primitivas, egoístas etc. Uma vontade de síntese que o faria ser “um com o pai” no sentido que essas vontades de ordem e de poder se reforçariam mutuamente.

Tipo: Carnap com Nietzsche. Abrão-Abraão com Catulo. Sara-Sarai com uma cachorra danada. Os judeus com os romanos. O que a comunidade quer de mim e o que eu quero se confundem.

Tipo: meu nome é F.G.A.M.

E F.G.A.M. é o nome daquele que é O Verbo Feito Carne, O Messias Metamodernista, O Sol, Aquele que cura os poetas do reconhecimento e os poetas modernistas fracassados, O Novo e Eterno poeta que vai ter que morrer para salvar a humanidade.

Que?! Que o quê?! Eu não entendi! Eu explico. Assim. Dizendo que, olha, essas sentenças do último parágrafo, essas sentenças que são fáceis de encontrar na poesia metamodernista, por exemplo, no “O crucificado”. Bem, o que eu espero atingir com essas sentenças é fazer o leitor sentir que existe, sim, ao menos qua personagem de poema, um Deus feito carne que é capaz de agir em perfeito acordo com a vontade de síntese. Eu chamo esse Deus de F.G.A.M. Ele é baseado nessa minha leitura alternativa de Jesus. Uma leitura que eu espero desenvolver melhor no futuro.

Cê comeu cocô no café da manhã? Então, cê acha que é Deus?

Óbvio que não! Eu, Felipe G. A. Moreira, autor não sou nenhum auto-iludido de crer que eu de fato consigo agir de um modo que faça perfeita justiça à vontade de síntese, e maximize perfeitamente tanto a vontade de ordem quanto a vontade de poder. Como todo mundo, eu, Felipe G. A. Moreira, autor acho que eu sempre meio que fracasso.

Assim: sendo muito libertário à la Nietzsche; sendo muito igualitário à la Carnap; sendo nem bem plenamente libertário e não conseguindo estabelecer meus próprios critérios para tudo; sendo nem bem plenamente igualitário e não conseguindo ficar satisfeito com as normas de uma comunidade, etc. Na verdade, a maioria dos tipos que aparecem na poesia metamodernista são assim também. Pense lá em “Kate diz a si mesma”, na “Kαkός Lady” do Por uma estética do constrangimento.

Agora, F.G.A.M., o personagem que eu inventei, ele não. Ele serve pra, primeiro, me fazer sentir que há possibilidade, sim, de uma vida mais, por assim dizer, divina. Segundo, a função de F.G.A.M. é também fazer o leitor sentir que agir de acordo com essa vontade de síntese é um ideal a ser atingido. Que agir assim, é, de certo modo, se tornar você também um Deus feito carne, mesmo que você nunca realmente consiga se tornar esse tipo de Deus. Ao menos: não perfeitamente.

Mesmo que, ao mandar um performativo, tipo, “Eu sou F.G.A.M., Eu sou Aquele que É Mais Fundamental do que Abrão-Abraão”, você não consiga de fato realiza-lo plenamente e esse performativo seja sempre meia bomba-mente realizado. Mesmo assim. O que a poesia metamodernista está sugerindo é que todo mundo deveria querer se tornar Deus feito carne.

O Parque ou a “Jerusalém” (para colocar nos termos de uma coluna porvir) que eu quero é um mundo onde todo mundo seria Deus feito carne. Daí, enfim, eu não quero bem leitores. Querer leitores é coisa de poeta de reconhecimento; é coisa de poeta modernista fracassado. Esses mais novos romanos, mais novos judeus. O que eu quero são apóstolos! Risos. Não risos.

Aahahaha… O Bolsonarista-raiz gargalhava. E dizia que, porra, tem vezes, que eu acho que você é realmente maluco. Eu respondia: ó, Bolsonarista-raiz, por que você não vira um apóstolo de F.G.A.M.? Por que você não vira um f.g.a.mista? Por que você não começa a me estudar e a ver que os meus textos em filosofia servem para fazer você entender o que os poemas tentam te fazer sentir? E que essas colunas servem para conectar a minha filosofia com a minha poesia?

Por que você não vira meu Pedro? Ahahaha, muito gozado, o Bolsonarista-raiz gargalhava. E, nesse exato momento, nós chegávamos à praia de Ipanema. O Sol:  prestes a nascer.


FELIPE G. A. MOREIRA é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Vânia Farhat 28 de setembro de 2019 em 12:20

    Eu nunca li um texto tão perfeito, metalinguisticamente , você me levou à mais profunda interpretação do que sinto e nunca soube expressar. Estou em estado de graça!!!!!!
    Hoje, não tenho religião, mas o texto me remeteu à expressão DESEJO DE SANTIDADE aprendida no catecismo. Só agora entendi.

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