Subversa

Jerusalém | Felipe G. A. Moreira


“O grande dragão vermelho e a mulher vestida de sol” (1803-1805), William Blake.


Em suma, fazer Jerusalém aqui. Ou ao menos contribuir para fazer Jerusalém aqui.

Acho que essa é a pretensão mais utópica da poesia metamodernista. Ao menos, na minha leitura atual sobre o tipo de poesia que eu tenho feito já tem uns treze anos. Entende? Quê?! Como assim?

Naquele tempo, havia um Bolsonarista-raiz que perguntava. Que exclamava: quê?!  Ele queria. Mas não queria ter o direito de ser rebatizado Pedro. Pedro ou algo feito o primeiro apóstolo de F.G.A.M. Isso às 9 da manhã. Isso num sábado. Isso na praia de Ipanema. O sol: já estando de fritar ovos no asfalto da pele. Porque era verão. Mesmo porque quase sempre é verão no Rio de Janeiro.

“Jerusalém” no sentido de uma comunidade política ideal. Eu dizia. Eu também repetia que: em suma, fazer Jerusalém aqui. Ou, ao menos, contribuir para fazer Jerusalém aqui. “Jerusalém” no sentido de uma comunidade onde todos agiriam de acordo com a vontade de síntese, isto é, maximizando as vontades mais libertárias-primitivas e as mais igualitárias-gregárias.

Quê?! Naquele tempo, havia um Bolsonarista-raiz que perguntava. Que exclamava: quê?!  

E eu disse, então, que, ó Bolsonarista-raiz, considere esse poema do William Blake. Esse poema que, por vezes, é chamado de Jerusalém. Esse poema que se tornou uma espécie de hino não oficial da Inglaterra. Esse poema que apareceu, pela primeira vez, sem título no prefácio de um livro do Blake escrito entre 1804 e 1810: o Milton: um poema.

Eu diria que a pretensão desse poema é abordar de modo, sobretudo, emotivo a disputa sobre se ainda seria pertinente algum tipo de utopia. Eu também diria que esse poema procura fazer o leitor sentir que existe um tipo de utopia, um tipo de utopia poética, que ainda é pertinente.

O que justifica essa minha leitura é o seguinte.

Para começo de conversa, não acho muito louco interpretar que as duas primeiras estrofes desse poema do Blake sugerem que a utopia de São Tomás, isto é, a utopia de libertar as gentes todas de suas próprias materialidades nunca foi atualizada. Acho que é isso que o eu-lírico está ironicamente sugerindo com todas essas perguntas retóricas das duas primeiras estrofes.

Quero dizer: acho que o eu-lírico insinua ironicamente que todas as perguntas dessas estrofes têm respostas negativas. A razão é que as pessoas são materiais. As pessoas são inevitavelmente pecadoras do ponto de vista cristão. Daí, a Jerusalém de São Tomás — uma comunidade onde as pessoas não seriam pecadoras — nunca foi atualizada.

O que foi atualizado foi uma comunidade de pecadores puritanos, protestantes, capitalistas, por exemplo, ingleses. Em outras palavras, o que tem existido é essa produtividade, esse ascetismo antinatural também, essa doença mesmo dessa gente que serve a esse Deus do capitalismo. Não sei. Mas acho que Blake está insinuando que esses capitalistas são todos pseudo-ateus. Pseudo-ateus que, no fundo, no fundo, agem como se houvesse um Deus que os comandasse a agir do modo que eles agem. Um Deus do capitalismo que justifica o estado atual do mundo.

Um Deus que comanda todo mundo a viver para trabalhar e agir desse modo pseudo-positivo, desse modo Mcdonalds, desse modo do “vencedor”. Desse modo: “seja um empreendedor de si mesmo”.

Considere o A Ética protestante e o espírito do capitalismo do Max Weber. Acho que esse livro está meio que resumido inteiro nessa expressão: “dark satanic mills” ou, na minha tradução, “turvos moinhos dos diabos”. Obviamente, estou exagerando. Mas só um pouco. De todo modo, foi por isso que na minha tradução-interpretação de “Jerusalém” mencionei Calvino.

Segundo, na terceira estrofe, eu diria que o eu-lírico está defendendo que o fato da utopia de São Tomás nunca ter se dado, não significa que precisamos ficar desesperados. Ou, para colocar nos seus termos, não precisamos ficar de mi mi mi, gu gu, da, da, buá, buá. Feito o mundo é tão sujo. Tão material. Tudo é tão ruim. Tem sempre um outro no meio do caminho. Tem sempre um pedinte te assustando. Jerusalém nunca será. Nós, na verdade, precisamos, ainda assim, agir.

Terceiro, a quarta e última estrofe, interpreto, procura fazer o leitor sentir o tipo de utopia que o eu-lírico crê poder ser atualizada por meio dessa ação. Essa utopia é a de afirmar a própria “jihad mental” de contribuir por meio da poesia para atualizar uma Jerusalém aqui. Aqui: no mundo material onde o Deus do capitalismo domina. Aqui agora, por exemplo, na Inglaterra.

E note que o fato de “Jerusalém” ser uma espécie de hino não oficial da Inglaterra dói. Dói porque a Inglaterra é um país onde o Deus do capitalismo domina. Onde a utopia que Blake queria não se dá.

Note também que, em Blake, parece que essa “jihad mental” se dá por meio da “imaginação”. Essa faculdade teria o poder de fazer o poeta conhecer o mundo e/ou criar outro mundo. Outro mundo onde, enfim, haveria uma espécie de redenção. Outro mundo que poderia ser também uma espécie de paraíso. Mas um paraíso na terra. Tipo (e isso já é mais F.G.A.M. do que Blake talvez): um paraíso na terra onde a vontade de síntese seria maximizada por todos.

Você acredita nessa “imaginação” do Blake? Não sei. Acho que mais ou menos.

Não tenho nem como entrar em muito detalhe nisso que o Blake chama de “imaginação”. Para tanto, eu teria que sair do tom leve dessas colunas e debater sobre se poesia traz conhecimento. O que me interessa em Blake é essa revisão das escrituras. Veja: isso, como espero que as colunas dessa Fase 2 já tenham indicado, é muito próximo da poesia metamodernista. No que, feito Blake, eu também uso um vocabulário cristão. Mas com um outro sentido. Meio não cristão.

Tipo: dizendo que, em suma, tentar fazer Jerusalém aqui não é virar um desses padres antinaturais. Também não é a putaria pela putaria, por vezes, legitimada na poesia de Catulo ou no funk. Também não é ser um conservador que nem é libertário, nem igualitário. Porque nem uma droguinha o conservador manda de vez em quando. Porque o conservador não faz nada para que essa desigualdade insuportável deixe de existir ou ao menos ser reduzida.

Essa desigualdade que nos permite estar aqui em Ipanema bebendo nesse quiosque, enquanto tem gente morrendo em guerra, gente se fudendo de todo tipo de jeito em favela.

Mas, bem, acho que não acredito em nenhuma utopia mais, por assim dizer, “concreta”.

Tipo: a utopia de uma revolução armada que traria uma nova sociedade que fosse maximamente libertária e maximamente igualitária. Ou mesmo a utopia de crer num partido que atualizaria democraticamente essa sociedade. Não sei que partido é esse.

Não sou nenhum ingênuo de crer que o PT é esse partido ou que Lula é um Deus. Mesmo porque o único Deus que eu acredito é F.G.A.M. Risos. Não Risos. Risos. Não risos. O Bolsonarista-raiz repetiu.

O que eu quero dizer é que acho que só acredito mesmo numa utopia meramente poética, numa “jihad mental”: uma que aponta para essa sociedade maximamente libertária e maximamente igualitária, que faz um elogio dessa sociedade e, nisso, procura atualizar poeticamente algo desse sociedade. Ao menos, na vida do próprio poeta e, talvez, na dos seus leitores.

Mas não sei. Não sei se estou fazendo sentido. Não sei se dá para falar com precisão sobre essa sociedade.

Nisso, o quiosque começava a ficar abarrotado de gente vulgar. Gente colonizada brasileira que meia bobamente serve ao Deus do capitalismo. Gente que crê nessa pseudo-positividade, autoajuda. Eu me sentia cansado. Eu me sentia sem forças de continuar a jihad mental. Eu sentia que é inútil lutar contra os poetas do reconhecimento e modernistas fracassados. Porque eles dominam todos os meios de propagação: eles e os jornalistas e os editores que os legitimam.

Eu sentia que é inútil lutar contra o Deus do capitalismo. Eu sentia que é inútil lutar contra a poesia de reconhecimento e a poesia modernista fracassada. Eu sentia que F.G.A.M. é fraco. Que F.G.A.M. é louco. Que F.G.A.M. não é um Deus tão forte quanto o Deus do capitalismo.

Que um Deus do capitalismo quer me calar. Quer me destruir. Quer que eu fique sem emprego. Quer que eu pare de escrever. Ou quer que eu escreva para públicos ridiculamente mínimos.

Um Deus do capitalismo que quer que eu ache tudo que eu faço inútil, e que tudo que é legal é esse blábláblá de reconhecimento e modernismo fracassado. E gentinha dando dica de como ser bem-sucedido, como escrever “bem”, como ser feliz, esse tipo de merda.

Eu sentia também que era inútil continuar a escrever essas colunas. Eu sentia que a minha vida, a vida de F.G.A.M. era um sofrimento, uma humilhação como a vida de Blake foi um sofrimento, uma humilhação. Eu sentia a morte da própria utopia poética que eu tinha acabado de defender.

Mas, então, o Bolsonarista-raiz olhou para mim e disse: melancolizou? Sim. Melancolizei. Não sei se tem sentido continuar. Eu estou cansado. Já são nove da manhã. Talvez eu devesse parar agora.

Mas feito um f.g.a.mista, um Pedro, eis que o Bolsonarista-raiz tentou me dar um ânimo.

Ele disse que: mas agora? Agora que eu tô começando a entender? Agora não, porra! Vamos lá! Força! Casaca! Casaca! A turma é boa! É mesmo da fuzarca! Vasco! Vasco! Vamos todos cantar de coração…


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

 

 

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. josé 15 de dezembro de 2019 em 17:44

    É UM POEMA

    disputa
    diz puta

    ser
    ou não ser
    tomista-kantiano

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