Subversa

Janelas | Adriana Vieira Lomar

 

Antes da nuvem de farelos tóxicos e invisíveis chegar, ela fitava o vazio. Havia somente um corpo no quarto onde escrevia. Através da janela uma nesga de sol tocava os livros que permaneciam na estante depois de lidos. Ouvia o sibilar dos pássaros. Avistava a longa estrada de barro e a Rural azul de listras brancas em movimento. Dentro do automóvel crianças brincavam e vestidas em tons pastéis esbanjavam cheiro de sol ao escutarem a piada de salão do motorista. Ela era uma das crianças e pedia para o motorista parar porque de tanto rir a bexiga doía e o mijo saia aos pingos. Não foi ouvida. A piada parecia ser mais urgente do que a premência em urinar.

Passa a mão no rosto e tudo parece igual. Mas é só sensação porque em quatro décadas a paisagem mudara e daquela Rural só lhe restara um primo, seu primeiro amor.

O motorista contador de piadas partiu primeiro, depois os outros primos. Nesse instante ela  está olhando o branco sem quadros.

Há uma imensidão de pessoas que parecem morar consigo, mesmo estando tão só no ato da escrita. Lembra bem do semblante e do estar no mundo de cada um.

Fecha os olhos e a lágrima molha a tez esburacada de cicatrizes. Volta para o carro onde fez xixi, a bermuda molhada e os risos desafinados. Por fim notada.

Toca o telefone. Atende apressada e do outro lado da linha uma voz ácida anuncia a morte do último passageiro da Rural azul. Lateja, com a sensação de ter morrido, sem  sentir  o ritmo tictacteando as veias, volta para a brancura do escritório e tenta escrever para aluviar a saudade.

O branco não é mais tão branco, afinal, se vê nas paredes pintadas as cores pastéis dos anos 70.

A cara do menino que amou, o mais sapeca, a sorrir ao seu lado e a bolar o jeito de fugir para caçar passarinhos. Se vivêssemos nossa infância nos tempos atuais deixaríamos de ser livres e as atiradeiras seriam consideradas ultrapassadas porque há rifles e revólveres engatilhados nos games e nos guardiões das  casas, pensa à medida que se resvala em memória.

A atiradeira era firme e tinham por missão  jamais atirar a pedra sem que estivessem com fome. E caso a presa fosse abatida, o dever dos cinco era matar de forma rápida em respeito ao animal.

Ah, precisa deslembrar por minutos e se apressar porque o enterro é amanhã cedo e urge pegar o voo para conseguir chegar a tempo de enterrá-lo, mas os telefones e o sinal da internet estão indisponíveis e o que lhe resta é  ir até ao aeroporto e lá tentar comprar as passagens.

Mas ainda falta despedir-se da brancura da mesa e pousar os olhos sobre as fotografias amareladas e vislumbrar  o que foram.

Ainda está contemplando as imagens e é tocada pelas pernas finas de um espécime raro de borboleta esbanjadora de cores que vão do azul ao vinho, do mar ao sangue. Ela admira e a borboleta parece lhe entender já que se aproxima e pousa as asas no seu ouvido.

Depois ela diz algo inaudível e a borboleta ouve como quem escuta e em tom borbolotês: bate as asas de forma lenta, como em valsa em direção à praia.

Ela arruma uma trouxa de roupas e não esquece de colocar na carteira a fotografia amarelada onde estavam de pé ao lado da Rural azul.

No aeroporto é surpreendida por uns homens mascarados que lhe pedem para voltar.  Um vírus mortal estava à solta e os voos tinham sido cancelados.

Dentro do táxi a caminho de casa sente vontade de urinar. Na via expressa não há lugar para parar.  Agoniada, lembra-se do dia em que estava na Rural azul.   Dessa vez não age como uma criança e,  tem medo de molhar o banco de trás do carro,  engole o choro e o  desejo em urinar.

Ao chegar em casa corre para o banheiro e à medida que o xixi vai saindo  as imagens se tornam mais presentes. A água esguichada do chuveiro escorre em desalinho pela face amornada por chuvas de lágrimas.

A imagem guardada é a do menino que amava jogar nos campeonatos de bolinhas de gude e a deixava ganhar como um primeiro sinal do que seria o amor. A água continua a escorrer nas cicatrizes.

Toma uma garrafa inteira de vinho e prostrada diante da tela de TV adormece com os olhos abertos.

? devaneios

 

No sonho ela está na praia e observa o mar sem escutá-lo. Os ouvidos estão tampados por uma rolha de cera.

O mergulho é rápido e as águas salgadas lhe fazem lembrar do sargaço encontrado na praia do passado embaralhando seus pés e o andar.   Mesmo com dificuldade de caminhar continua em direção aos coqueirais depois do banho tépido. Há nela uma angústia e com os olhos marejados volta na preamar e aos lodos peçonhentos grudados a ouriços.

 

Volta a mergulhar sem vontade de voltar e o primo aparece em cima de uma prancha de surf  e a impede de morrer. Ela continua mergulhando sem respirar em direção aos lodos que bem poderiam dar no vazio. Ele insiste e a traz  à força para a beira do mar. Beija-a. Insiste, ela tosse e regurgita água e sargaço. Acorda grudada na prancha e não sabe se chora ou se ri. O fato de vê-lo vivo a reconforta. Deseja falar sobre as coisas que se passaram e não presenciadas por ele, mas ao olhar para seu semblante percebe a juventude. Os dois estão jovens e ainda viverão bastante tempo.

Ela ainda não viajou para lugar algum, apesar de saber que viajará sozinha para uma terra desconhecida. Sentirá o gosto da liberdade como no dia em que conseguirá rodar o mundo sem precisar de companhia ou quando tiver pouquíssimas roupas e viver somente com o necessário.

Mas ela ainda não cresceu tanto assim e sorri em gratidão. O gosto das possibilidades que virão a tornam livre e o seu rosto adolescente está colorido por um sorriso verdadeiro. Ainda sente o gosto salgado das bochechas e dos fluidos salgados que saem do nariz e dos olhos.

Deita-se na canga, os pés tocam a areia fina da praia, a brisa lambe os cabelos e o sexo treme. Ele a pega de jeito, lambe os seios, e ela diz sim. Seus cabelos estão enormes e os cachos chegam até a cintura. Os olhares estão conectados. A onda se agiganta e faz cócegas no pé.  Com os poros voltados para o mundo torna a olhar o mar. Os golfinhos dançam e tropeçam, as baleias hibernam. Os pássaros tomam a praia.

Sente quando ele a penetra e no gozo ela acorda ensopada e toca  a cara esburacada e engelhada.

 

O sopro gélido da madrugada entra no quarto e lhe traz o cheiro inebriante de carniça. Confessa a si mesma, buscou no sonho da praia aquilo que perdera.

A campainha toca insistentemente, como um chamado do que viria.

Ainda com o pensamento na praia do passado,  veste a calça e a blusa sobre a camisola e atende como quem ainda estivesse adolescendo na praia.

O gato que ela chama de Matias vai  junto,  roçando sua coluna nos pés frios e sujos dos calcanhares.

É o porteiro. Lembra que está sem máscara quando o vê vestido com uma. Antes mesmo de dar um passo para trás, ele lhe avisa em tom de desespero que há confusão no prédio:

— A senhora não está escutando a confusão do sexto andar?

Ela está voltada para dentro de si e,  moribunda,  diz da premência em ligar para a polícia.

Mas o telefone, diz o porteiro, está com problema.

Ela pergunta se ele tentou o celular, e a resposta é que não está dando linha. Ela tenta ligar do seu celular, mas também não consegue.

 

Antes de subirem ao sexto andar, ela toma café amargo para acordar. Os gritos chegam até o lugar onde estão. E a partir daí começa a agonia.

— Vamos lá, vamos tocar a campainha do brigão! — Diz para o porteiro.

 

Segue mascarada atrás do porteiro, mantendo distância segura de um metro e meio. O único livre é o Matias, que ora a segue ora desaparece.

O vão da escada de incêndio é tocado por fios de ouro como um  prenúncio de esperança diante do claustro.

No caminho, o porteiro lembra  do dia em que encontrou o morador do sexto andar sem máscara, dizendo  que o vírus mortal se tratava de  uma nuvem de farelos invisíveis e inofensivos.

— Se eu pudesse, minha senhora, ter saído da portaria e falado tudo o que estava engasgado aqui oh! Mas o cara parece mais um lutador e só fala “talkei”. Eu posso não ter estudado, mas leio livros, por sinal aqueles que a senhora me deu, são bons demais.— Ela sorri.

Finalmente chegam ao sexto andar e de fato os gritos são tantos e só não incomodam outras pessoas porque não há ninguém morando naquele andar.

Nos corredores, o eco persiste.

Antes de tocar a campainha, o porteiro aos cochichos diz:

— É melhor ir com calma com o “rei do pedaço”.

Matias mia.

Parte 2

! outro dia

 

O cheiro de rosas brancas invade o quarto trazendo um frescor a ponto de ela se esquecer do confinamento. Os fins de tarde têm um gosto agridoce.  O sol adormece no limite entre o mar e o infinito. Do ponto em que está assiste ao espetáculo  dos  primeiros raios de sol a pintar o horizonte  e em pincelagens alaranjadas a colorir a ponta do mar como sumos. Nesse momento sente sede de mar.

Pela TV as constantes notícias dos homens que sofrem:  o sangue coalha no pulmão de um paciente em uma unidade intensiva de tormentos. Alguns agonizam nas ruas exalando cheiros de carniça.

Nas calçadas homens febris tossem seco. A guerra ainda está por lá: nas ruas, nas prateleiras dos mercados. Nas calçadas escarradas, nos meio fios onde ratos passeiam e nada acontece.

Ela lembra do vizinho e como há muitos iguais a ele, como leões, são fortes e donos do pedaço.

Da janela,  os raios anoitecem e ainda deixam o mar com fios prateados, num prenúncio de dias menos ruins.

Confinados e prontos para enfrentar a guerra de forma estratégica,  alguns, como ela, se apegam  à memória ainda viva e às delícias que vem em forma de canto de pássaro.

A luz some, dando lugar ao desconhecido. Até daria para pegar  a esperança, colocá-la no coração  e imaginar recomeços.

Antes o vento sopra e bate uma brisa capaz de colar a lágrima. O vento vai embora, a praga também. Ficam os animais e os homens ouvintes do murmúrio das matas.

 

As terapias intensivas aos poucos esvaziam, os homens deixam de morrer e assistem a mais um pôr do sol. Os gerânios sorriem porque a primavera acaba de raiar.

Ela confessa diante da jardineira se os gerânios não existissem não voltaria a olhar para a fronteira do que foi e do que lhe resta ser.

Um dia, quando esperava o táxi, o porteiro lhe disse que o fim não existia.

Enquanto olha para a jardineira relembra o porteiro e do jeito simples de lidar com a morte.

Sonhou nesse dia com a magnitude do mar e de como em tempos em tempos ele lhe salvara.

 

fly

 

Prefere mãos que abraçam lhe tocando, mas ainda não dá.

Prefere a vida ao ar livre, criança em noite correndo pique-esconde e ela dançando trôpega,  mas com a cara estampada de flor.

Busca a gargalhada mesmo no cinza etéreo da rua deserta.

Sabe do peso e da alegria: até nas prisões há momentos de leveza:  biriba,  futebol,  papo e risos.

Mas nessa tarde queria mesmo estar abraçada a todos os amigos, e pensar que mês retrasado ( nem sabe direito que dia é hoje) teve a chance e se retraiu na lisura do quarto, no estreito movimento da palavra com o papel. Agora não pode sair e está à procura dos abraços que poderiam ter sido, mas foram abortados.

Liga a TV e a voz do locutor a anestesia. São muitos corpos. Uns morrem nas ruas sem qualquer tipo de assistência.

A  notícia ainda não é daqui, é de um país circunvizinho, onde todos parecem índios. A música clássica ecoa, o sol descabreado toma conta do quarto e as mãos estão ávidas por escrever um texto que atenue a  tristeza de ver tantos e muitos e vários morrerem por conta de uma nuvem de farelos transparentes e tóxicos.

Desculpe, não consegue dizer seu nome, porque busca ainda o cheiro da relva e o gosto das ervas frescas.

Escuta um acorde e lembra daquele tempo em que estava na praia tingida de cor Coca-Cola e de relance sorri. Mas isso passou, você está a julgando, e lhe implorando para que ela pare de lembrar.

Mas o que procura é a gargalhada, e como pode rir de tantos desvarios? São mortos, uns novos, outros enrugados, uns vomitados, outros asseados, que fedor de carniça!

São corpos,  mas ainda há quem ache que são números. E todo dia a ladeira íngreme se torna inatingível porque apinhados interrompem o acesso. As covas não são suficientes, e a ideia de enterrar um por cima do outro é concretizada.

Há ainda um governante premente que prega o quanto a nuvem de farelos matará e os mais vulneráveis morrerão e que é isso mesmo.

 

Confusa, ela ainda está à procura de alento quando a borboleta azul pousa no vidro embaçado da janela e toca seus dedos e sobe na direção da sua boca. Ela sussurra e a borboleta volta a ouvi-la.

Avoa e leva o segredo.

Fui eu quem…

A brisa se foi e a borboleta levou em suas asas o seu dizer.  Lá fora a rua cinza com as lojas quebradas e vazias de esperança.

Parte 3

Mais um dia.

 

Engano. Não passou. O que veio foi uma nuvem mais densa de farelos. Farelos se  dissipam e formam uma névoa que chamam de apocalíptica, mas a culpada era ela, assim se sentia por  degustar  um pacote de biscoitos com gosto de cacau de verdade e que não passa de uma  mistura homogênea de substâncias sintéticas. A comida corresponde ao mundo onde astronautas se locomovem e esterilizam superfícies, cantos, ruas, bancos, lugares que bem poderiam estar ocupados, mas que se encontram em compasso de espera;

Faz mais de mês que não sai para sentir o cheiro da vida,  restando-lhe dormir com os olhos abertos e rir sozinha ao menos rir no tempo em que abraçada, caminhava displicente na areia da praia.

Nem faz tanto tempo assim.

Deixou de abraçar a irmã, sua voz engoliu o perdão, e pegou o avião sem olhar para trás. Ato covarde, destituído de cor.

.

Se voltasse, não teria feito tudo de novo e muito menos teria repetido os erros.

Prefere arrepender-se e assumir-se do jeito que foi. Se voltasse,  teria pedido desculpas, antecipado abraços, chorado e limpado as suas lágrimas com a mão dos que ama.

Esqueceu de dizer o quanto eram importantes. Um deles está debaixo da terra e um dos astronautas o enterrou. Com jatos de hipoclorito de sódio branqueia a madeira do caixão.

E tomara , torce, antes de morrer  ele tenha se lembrado dos momentos incríveis pelos quais passaram. Saiba do amor e da gratidão nutrida por ela.

O sol insurge e os farelos tornam a voltar para a sua boca. Mastiga o restante deles e sente o cacau massagear a língua.

Os lábios se nutrem do que restou  enquanto o sol se esconde em uma nuvem e lhe mostra a cara do primeiro homem que amou a sua voz  a dizer:

— Tudo passa, como as nuvens. Tudo passa. É a vida a mais bela passagem.

As nuvens saudáveis permanecem e o céu se tolda.

O pacote do biscoito está vazio e o dobro e o dobro das nuvens na janela do avião, do mesmo jeito em que nos amávamos naquela sala do ginasial com a cara voltada para a porta, com medo de sermos descobertos.

Depara-se com o beijo roubado e a promessa de amar sem limite  a viver de forma intensa sem preocupação com o dia de amanhã.

Há alguns farelos na mesa branca.

 

?

 

Caminha pela rua sonolenta e chorosa e vê o governante. Sua cabeça está voltada para a caçamba de lixo fedorenta e seu corpo está no meio da rua como quem impede a travessia. Tem a chance de voltar e até imagina que possa voltar, mas o instinto é o de prosseguir e de encarar o semblante tenso e furioso, algo próximo do olhar que viu em um quadro. Sua memória falha. Não lembra direito o nome do artista e é fundamental dizer que o desenho gigantesco não sai de sua mente. Na tela havia cavalos, sangue e um rosto frio e cavernoso. Da mesma forma que avista o homem de quepe  lembra do dia em que viu a tela e frente a frente viu a guerra.

Coragem, clamou a si mesma…

Uma sirene toca, hora de todos se recolherem. Mas e o governante? Fica incólume na rua? Fica por isso mesmo? Não segue a recomendação e passa para o ataque, protege-se do mesmo jeito que a rua. Sente que vai ganhar a batalha e caso perca libertará seu peito de medos.

Tentou, dirá. Por nós, dirá novamente. E foi assim que prosseguiu na rua virgem de gentes, seguiu. A rua e ela,  a rua e o algoz com a bandeira nazista. Viu com nitidez a suástica nazi e até o bigode daquela figura que não sabe sequer pronunciar o nome por ter sido tão louco e tão perverso.

Com saudades de sentir desejo, pegou o bastão e foi pronta para atacar. Ah, se eu não pego esse perverso de lado, por mim, por nós e por quem desejou e morreu dessa nuvem tóxica e invisível. Foi por nós todos. Passou por umas pedras pontudas, mas estava bem protegida com sapatos rechonchudos de coragem – nuvens espessas, as mesmas que lhe embalavam na janela do avião que temia por ser desconhecido.

Não temeu o desastre, chegou até os olhos do algoz e daí a surpresa. No lugar daquela boca esquálida e inexpressiva viu um pedaço de papelão. No lugar dos olhos, um toco, uma madeira velha e o corpo, tadinho dele,  era feito de pano de chão.

Pegou o corpo, os olhos e a boca e triturou em pedacinhos minúsculos.

Tornou a voltar para a casa e dormir o melhor dos sonos, sem doença e sem algoz. Livre como naquele dia em que mergulhou no mar sem máscaras,  pronta para viver  a existência em toda plenitude.

.

(…)

 

Da janela avista o céu recheado de algodão-doce como no dia em que viajava com ele, o pai. No seu sonho sempre desejou ficar ao seu lado sem interferência de ninguém para que pudessem se encarar como filha e pai e assim atravessarem  espinhos e caminhos seguros. Seu semblante sério lhe incomodava porque sempre quis um pai à vontade que pudesse falar um palavrão sem vergonha de proferi-lo.

Escutou somente uma vez e achou o máximo porque o palavrão foi imbuído de veracidade o que o torna autêntico. Nem todos os palavrões são dessa ordem. O dele foi.

Agora  ela conta a história  e a bicharada inteira vem escutar sem o julgamento dos homens.

Contou. O  dia em que atravessara a rua e se deparou com o homem do sexto andar batendo na mulher.

Ele estava usando um terço no pescoço e as mãos batiam. Ela pediu que parasse e ele disse que não ia parar porra nenhuma. Ela disse que chamaria a polícia, ele retrucou dizendo não se importar com  polícia porque eles não servem pra nada e que bom que não serve, disse com os olhos vermelhos  onde se viam as veias extrapoladas como galhos queimados de ira.

Para ele mulher servia para lavar as cuecas meladas de suor ou sei lá o que.

Continuou na esquina ao lado do batedor de mulher até a severidade do compasso de homens marchando chegar mais perto.

O pelotão  veio  para recolher  os livros considerados subversivos.

Ela imaginou seus personagens  se dissolvendo, buscou trilhar um esconderijo para enfim enterrar os livros.  A necessidade de preservar a memória se tornou obrigatória;

 

Apesar do medo ainda tinha tempo de  perceber as estrelas apontadas no céu do ano de dois mil e vinte.

Enquanto isso, os astronautas esterilizam corrimões e bancos antes destinados a mãos que viviam.

 

Parte 4

 

Parece ser o último dia

 

Entram na casa do lutador. Mais ainda não é dessa vez que o leitor saberá o desfecho.

Bem, ao chegar em casa, depois do ocorrido,  executa cada tarefa de forma ordenada: primeiro, lava as mãos, depois a máscara, os óculos, as meias e a roupa inteira colocada como quem embala as roupas de um recém- nascido na máquina de lavar. Vai  até o quarto onde está a tábua branca e reta e com um instinto de urgência começa a escrever.

Os ouvidos estão tapados cheios de cera, o que não é uma novidade.  Vislumbra a abelha, mas a ignora porque deseja sim escrever sobre a árvore que está no seu caminho desde a época em que namorava o primo escondido. Leva os livros e os esconde em suas raízes.

Seu peito precisa ah! precisa esbanjar vitórias e acalmar o choro e dizer a todos o quanto precisa da amizade e nem se dá conta do desmaiar da tarde até que a sombra da lua a beija e lhe traz ternuras.

Bate dez e meia. Precisa confessar para não morrer congelada pelo frio da solidão.

Nas frestas da madrugada estará atenta para adormecer sem a culpa dos ímpios e dos que negam a propagação da morte.

Na manhã em que o lutador abriu a porta minutos antes tinha dito o quanto não aguentava  mais a mulher e apesar de ter tido um filho com ela, discordava de tudo. Ela e o porteiro viram o corpo estraçalhado da mulher. O sangue era fresco, pronto para os abutres dissecarem.

De forma silenciosa ele tentou cravar uma faca na mulher confinada. E com ímpeto cravar o peito do porteiro.

Ela lembrou do dia em que o batalhão procurava os livros.

E não foi difícil tomar a faca e triturá-lo. Viu sangue e despiu-se da forma humana e no lugar de mãos surgiram garras, e asas enormes. Matias e o porteiro assistiram. Saciada, voou em direção às escadas . Passou pela mesa de tábua lisa e branca e em direção à árvore, desenterrou os livros e os lançou do alto do céu atingindo os quintais das casas. Das entijoladas às secas em argamassa. Não esqueceu de passar pelas ruas e becos, alimentando os homens de livros.

Voltou para a página nove de um conto em que ínsito escrever.

Ela precisa voltar  para os braços do primo, passear de Rural azul, nadar em praias desertas, gozar até o último instante, gemer, e não deixarei ninguém interromper mesmo estando cansadíssima. Acho que peguei o vírus. Caso eu morra, deixarei meu desejo fazer tudo o que tem vontade.

 

Procurem o Matias, ele sabe onde guardei a chave do baú de memórias.

 

Para os poetas:

A imunização pode estar no canto dos pássaros

Ou nos canteiros onde girassóis sorriem

 

Para os pragmáticos:

Tarda, mas chega.

 

Para poetas e pragmáticos:

 

Prestemos atenção nos vãos das janelas e nos parapeitos que poderão servir como canteiros de flores. Notemos  o orvalhar, as lágrimas vindas do céu e os raros  instantes de contentamento. Na mudança da paisagem e das cidades. O quadro está em constante transformação não se sabendo ao certo a data da imunização. Reorganizemos o espaço urbano atentando para a majestosa mata.

Plantemos livros para semearmos arco-íris.

Quando estivermos imunes à nuvem de farelos invisíveis e tóxicos teremos internalizado  a razão de ser de existirmos.

Há vários jeitos de chegarmos, porque as janelas, os vãos e alisares falam por si. Emolduram quadros vivos de realidade.

A janela está.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Adriana Vieira Lomar |Rio de Janeiro, Brasil

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Otavio Costa 5 de janeiro de 2021 em 10:41

    Estou achando ótimo…
    o clima de suspense e a tristeza de viver pela metade.

  2. Karen Pedrosa 10 de janeiro de 2021 em 14:13

    Estou doida parq ler o próximo capítulo. Parabéns!

  3. Nereu dos Santos 12 de janeiro de 2021 em 08:54

    Pensar que estamos vivendo dias horríveis – aí vem a literatura e pimba! Nos salva.
    Obrigado pelo conto.

  4. Leonardo lima Leal 18 de janeiro de 2021 em 21:21

    Gostei muito…. duas história em uma.

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