Subversa

Já é outra vez agora, um pouco tarde – para ser honesta | Fabíola Weykamp


“Stone and Tree”, 1967, Paul Caponigro


É janeiro e eu já estou embrutecendo
outra vez, anuncio – podes me ouvir?

Houve uma época em que embruteci
passei o ano inteiro com as mãos frias
por dentro dos bolsos das jaquetas e das calças.
Falei pouco nesse tempo, o necessário,
mexendo imperceptivelmente os lábios,
(nunca tive muito o que dizer mesmo).
Também saí pouco de casa e, quando, pisava em silêncio
para não ter de dar explicação às formigas.

Depois, encolhi.
E, encolhendo, maturei qualquer coisa aqui dentro.
Conheci pessoas sem querer ou esforço;
li bastante, não o ideal,
nessa época sem grandes volumes de bagagem
e total desapego.

Aos poucos, encontrei um sem tempo de sorrir com desejo
de amar alguma música na madrugada e de estudá-la sem fim;
até mesmo enquanto dormia acordava cantando
a nova canção apreendida.
Amei tanto músicas e poemas com intensa vida e brilho
que ainda posso senti-los me arder a garganta e os olhos.

Mas, hoje, ainda janeiro, sinto-me embrutecendo
olhos, ouvidos, boca e nariz:
ásperos como o asfalto sob sol de verão,
intocáveis e distantes do chão
porque não há mais jeito de desfazer a viagem,
retornar à estaca zero e desembrutecer.

Posso voltar amanhã ou mês seguinte
talvez com alguma nova alegria composta,
um novo semblante poético arqueando os lábios para cima,
mas terei embrutecido
permanentemente alguma célula,
como da primeira vez em que embruteci e
restou pouca coisa para guardar em segredo
para levar à análise e dizer que abraços ainda
me curam de os finais.

Nesse ano de sessenta quatro um ponto zero
onde plantar rosas e segurar giz é um ato de coragem
para dizer o mínimo — porque defender o óbvio chega uma hora que esgota—
temo embrutecer novas células
as quais tragicamente me deixarão cercada de outras células já embrutecidas
assim, como em um simples estalar de dedos até não sobrar nada mais

mais nada do que um pedregulho vencido e imóvel
atarracado, sujando o tapete limpo da sala de estar
atrapalhando o meio do caminho até a janela
e o ar renovado das novas manhãs.

Eu, um pedregulho duro, frio, distante e pontudo
não servindo nem mesmo de apoio para os pés sujos de
qualquer alguém que encontre tempo para sentar-se com as pernas para cima
abrir uma cerveja gelada como se, pelo desentendimento atual de existir,
tivesse alguma paz para guardar na barriga e no coração.


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | fabiweykamp@yahoo.com.br | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

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