Subversa

Infância ou filigrana ficcional – a memória como unidade fabril | Cláudia Capela Ferreira


Fotografia nossa.


Esta Fábrica de Melancolias Suportáveis, de Raquel Gaspar Silva, editada pela Elsinore em 2017, recusa a aparente maravilha da cronologia, sem, porém, se enovelar no discurso circular do pensamento. É, antes de tudo, um exercício sucinto da memória sem aplacação de sentido ou exigências estruturais. De facto, a mancha gráfica configura a primeira impressão do onírico ou do movimento pausado e intermitente da memória: bocadas silenciosas ascendendo para a categoria do ritual e do mítico. A história firma-se no Alentejo, numa época de transição entre a sociedade agrícola e a fabril, caminhando da subsistência para o ritmo inusitado da industrialização, e também da ditadura ao despertar da linguagem nova, ainda balbuciante, com o que de invasivo na categoria da organização social e espiritual tal modificação pode suscitar. Mas estes traços historiográficos são da ordem do acessório, pois o ritmo lento a que se assiste é a da perenidade da existência, na cumplicidade dos habitantes dos corpos transitórios, cuja medida maior subsiste na memória. Nesse sentido, Raquel Gaspar Silva recita dizeres muito particulares, sem a pretensão de fazer das bocas que os proferem sombras ou veredas por onde caminhar senão quase incolumemente, isto é, sem afetação moral ou intelectualismo, diante da perceção garantida que, afinal todos, não obstante os regimes, as crestaduras, as superstições e análises morais, quando morrermos, “vamos deitados” (Gaspar Silva 2017: 120). É uma expressão comum, fácil de recuperar das nossas infâncias, e como tal, também esse reverendíssimo eterno retorno envolto nas lendas e ritos mais ou menos pagãos, bem como a passada bidimensional, sem atrito neste espaço narrativo, da vida e da morte.

Os primeiros parágrafos conjugam como que a ars poetica obedecida na feitura desta Fábrica, descrevendo a constante sugestão das imagens e sua “gritaria”, de cujo distanciamento brotaria, para acalmia possível, a história contada. De facto, não deixa de ser percetível a necessidade da ação do tempo e do espaço sobre o real, na permissividade da memória, como que, esbatendo-se, se pudesse recuperar mais facilmente por via da rememoração poética. Leia-se: “a menina soube que o seu tesouro de ourivesaria sentimental, causa de horror e espanto, à luz de uma maturidade diferente e depois de desvendados remotos mistérios, seria finalmente uma história contada” (Gaspar Silva 2017: 13). Assim, a Fábrica de Melancolias instaura-se sobre uma narrativa de homenagem de contornos catárticos; é uma história lembrada sobre a sugestão da memória também de terceiros, cuja mestria puxa a linha a tempo de interromper o processo de certeza e, assim, de certidão de uma verdade, ou de verosimilhança apaziguadora. Nesse sentido, a narração está sustentada por uma génese profilática, anterior, como se por meio de raconteur subsequente. A história é um veio intuitivo, herança genética. De certa forma, vai-se contando ela mesma.

Por outro lado, o labor da contadora de histórias manifesta-se sob a tutela mística infantil, cujos sentidos, todos, absorvem o real e o periférico dele, transitando entre o sagrado e o profano, os vivos e os mortos, o amor e o desprazer dele. Não há lugar, portanto, a uma intelectualização ou leitura teórica por parte de quem narra, pois simplesmente narra, mostra, a interpretação não lhe está na mira, é deixada para os olhos críticos da leitura. A postura infantil, não sendo ingénua, não enxerga distinções moralizantes.

A narrativa é estruturada em torno de núcleos distintos, contrários, denegando, não necessariamente por este facto, alguma margem inteira de intacta utopia. São as crianças aferindo das lendas o pretenso perigo da sua identidade e fiel desempenho fêmeo, as vaidades e invejas feminis, os lances selváticos masculinos e o sádico prazer de submissão ao poder. Conforme a “Alta Magistratura” dos costumes da primeira metade do século XX, portanto. Assim, a figura de Carlota e das irmãs, como contrapoder, na medida em que se ausentam do lugar comum, averbam o sentido de sublimação de um tempo ainda em fecundação, como partenogénese, anunciação sibilista da mulher.

Não tomando forma como narrativa inteiramente devedora da literatura do fantástico enquanto componente modal supletiva, Fábrica de Melancolias Suportáveis insiste, porém, na revisitação do fantástico, não com intuito mobilizador, mas, diria, como processo de rememoração etnográfica, do foro íntimo – pelo que fundador – e, embora não se preste entusiasticamente à manutenção do sentido ambíguo propício à delimitação do mesmo, a verdade é que também não o trata displicentemente, fazendo aflorar, como, de resto, nas narrativas fantásticas, “questões fundamentais da existência […] sobretudo a atitude perante o universo, o seu próprio abismo interior e o grande limite, a morte” (Furtado 1980: 138). É o caso da referência às lendas das mouras, às pragas, aos ecos distantes das indizíveis histórias das menstruadas e dos sardões, e ao correr o fado dos lobisomens. Neste último caso em particular, a ambiguidade é de notória amplitude, dada a manutenção da duplicidade dos sentidos e o impulso do sobrenatural, aparentemente articulável com uma resposta do foro pragmático. Nesse sentido, e a par de outras incursões, levemente sugestionadas, a narrativa mescla dois mundos coadjuvantes, cuja existência não dececiona nem desautoriza o seu paralelo, como que uma absoluta harmonia. Ora, esta pretensa conformidade situa-nos no mundo agrário do princípio e meados do século passado, nas suas cogitações tidas como indefetíveis e proverbiais, resultado claro de um certo obscurantismo, cujos princípios, se não limitavam moral e eticamente os sujeitos, os limitaria no exercício da sua cidadania.

O religioso e o profano caminham no mesmo carreiro, e não raro, a carnavalização, como que suspendendo o real, assegura-o simultaneamente. Assim, da mesma forma que se fabricam as melancolias, fabrica-se a sedução da santidade, a sugestão do milagre, o apego apaixonado e supersticioso à fé enquanto premissa avençal da pacificação ou último reduto de sentido. Quanto mais incognoscível, mais perene. Esta constatação é eficazmente concluída pelo avô, humanista ciente das maravilhas ofertadas pelo mirífico, sujeitando-se orgulhosamente à sua feição unicamente humana, em toda a sua grandeza. De facto, a referência a Virtuoso, o bruxo da região, é espelho da superstição de um tempo ainda malfadado pela indisponibilidade científica e, sobretudo, por um esquecimento propiciado pela centralização, visível neste comentário à margem: “Nos lugares que parecem esquecidos de todos, a vida toma um rumo descontrolado. Não há medida para o absurdo e o tempo desenvolve-se com imperfeições. As pessoas aceitam a loucura, são a loucura, frutificam a loucura” (Gaspar Silva 2017 70). Por esta perspetiva, não é de todo impensável ler esta incursão no fantástico como, além de uma recolha meramente figurativa, elucidativa, uma leitura de contornos socializantes.

As personagens são inteiras e autossuficientes, pejadas de contradições, demónios e autoinflingidas dores, pelo que mereciam rédea solta, ainda solidamente presas à batuta férrea da voz narradora, o que, não obstante a forma, as limita grandemente. De facto, afiguram-se claramente ataviadas da perspetiva da narração e claramente vivas na memória da mesma. Mais tempo, para desembaraço desta e consequente estruturação lírica, tê-las-ia revestido de rasgos ainda mais fundos e de robustez psicológica. Quase autonomia. E isso assusta a mão que escreve, pois que se desembaraça a linha da lembrança. A ficção resulta grandemente desse desapego, salto salutar raposino. E se a pessoa se afigura outra, deixá-lo; a memória íntima e a ficcional, no papel, são intermutáveis e a filigrana requer ausência.


Referências:

Furtado, Filipe (1980): A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte.
Silva, Raquel Gaspar (2017): Fábrica de Melancolias Suportáveis. Amadora: Elsinore.

CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema. 

 

 

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