Subversa

HORA MARCADA | Fabíola Weykamp

 

A poeta está muda.

Esvaziam-se as gavetas

pela mesa onde apoia os

dois cotovelos na esperança de

encontrar o que procura.

 

Não há o que se diga

que não se tenha dito.

Não há um só recorte especial

que configure a nova poética dos

tempos em que tudo morre;

não há nem mesma essa busca.

 

É isso:

a poeta está muda.

 

Talvez, cansaço

talvez, tenha levado muito tempo

afundando os dedos dentro de

copos de chocolate e, assim, ocupado

as mãos por inteiro.

 

Talvez, perdida

olhando pela janela o pátio vazio

e o branco do muro que

não é branco nem está sujo

parece ter congelado em um tempo

difícil de encaixar na régua,

como tudo aqui que ficou do lado de fora

e segue existindo sem permissão ou alegria.

 

Talvez, esteja ocupada

persuadindo a memória recente

a revirar seu estoque

inacabável de imagens desnecessárias

tentando,

–– porque cisma

e quando cisma

é bom você servir um chá

ou fazer as malas ––,

 

tentando encontrar a foto,

o registro semanal do que

não se pôde prever ou dar conta;

relembrar a sala e a poltrona

onde abraçou os joelhos e esticou-se em seguida,

como um bebê que acabara de despertar.

 

A poltrona era branca ou marrom?

Marrom quando não havia

assombro no elevador ocupado,

quando somente o silêncio era desconfortável?

 

De repente, em um encontro comum,

chegou e estava tudo branco?

Tudo escancarado à retina?

Atravessando as grandes janelas

E atingindo-a em cheio na testa?

 

Quando foi mesmo que aconteceu

a troca das cores das poltronas?

Quando foi mesmo aquela vez

em que trocaram de lugar?

Quais objetos em sua mesa

ainda estão lá, fazendo questão

de agarrar-se com força à poeira

como um lembrete do silêncio ao vazio?

 

A poeta está muda,

é tudo que sei.

Tristezas sempre se têm a carregar.

A novidade, aqui, é outra.

 

A poeta está muda

com os pés fincados no meio da sala de sua casa

onde entra luz indireta

e a água chega em conta-gotas.

Não é preciso sair. Não se pode sair.

 

A poeta está fixa,

agora paciente, no trabalho de recuperar

a lembrança de sua própria imagem

desviando da projeção do espelho

para chegar à poltrona

 

que não sabe mais se da última vez

estava branca ou marrom

combinando com o resto dos móveis

acomodados à sua espera

toda semana

–– agora tão tarde e sem boas-vindas com hora marcada.


Fabíola Weykamp – tem livros de poesia publicados e, atualmente, é colunista e editora convidada da Revista Subversa.

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