Subversa

Funk, Catulo, etc. | Felipe G. A. Moreira


Naquele tempo, eu dizia, no bar que ó, Ilustríssimo Bolsonarista-raiz, faça, como muita gente do governo Bolsonaro finge que faz. Considere, de novo, considere, com atenção, os capítulos 12 a 21 do Gênesis. Eu não acho que eu estou sendo louco de ler, como eu fiz na primeira coluna e na terceira coluna dessa Fase 2, que essas passagens servem para fazer o leitor, sobretudo, sentir que Abrão-Abraão e Sarai-Sara precisam agir de um modo radicalmente igualitário.

Um modo radicalmente igualitário por meio do qual Deus ou algo em você (tipo, uma vontade de ordem, para falar como Carnap novamente) faz com que você contribua para uma comunidade, independentemente daquilo que é o mais singular de si. Independente daquilo que seriam tuas tendências mais primitivas.

Tipo: tendências sexuais; tendências de comer excessivamente, de beber excessivamente, de se drogar excessivamente a noite toda; tendência de só querer ficar cagando no vaso e/ou se masturbando vendo pornô no celular; tendências de expressar as emoções menos nobres, feito as de ódio; as de querer gargalhar mesmo com maldade do outro; de querer começar uma briga num bar só de sacanagem; querer que o outro se foda porque você está tendo uma onda; etc.

Quero dizer: para Abrão-Abrão se tornar propriamente Abrão, para ele se tornar propriamente um herói de Israel, um patriarca, ele precisa sacrificar essas tendências. Ele precisa sacrificar sua vontade de ficar em casa na velhice. Porque ele precisa sair pelo mundo. Porque ele precisa criar um novo povo. Isso é terrivelmente difícil. Isso é terrivelmente desafiador. Estar disposto mesmo a sacrificar um filho para que essa comunidade de Israel se propague é também obviamente terrivelmente desafiador.

O que se dá com Sarai-Sara é parecido: para se tornar propriamente o que ela é, ela precisa se sacrificar pela comunidade de Israel. Ela precisa dizer para Abrão-Abraão dormir com Agar. Ela precisa talvez mesmo se prostituir para que o povo de Israel prospere. E, nisso que ela age assim, nisso que ela sacrifica o que seria a coisa mais egoísta de si mesma, ela também se torna uma heroína do povo de Israel. Ela se torna a mãe de nações. Mas é terrivelmente difícil se tornar essa mãe.

Você entende? Entendo. Não sei se você entende. Eu entendo, porra! Não sei se você entende. Eu estou dizendo que é terrivelmente difícil no sentido que pode ser mesmo impossível para uma pessoa não-bíblica fazer isso. Ser Sarai-Sara. Ser Abrão-Abraão. Quem consegue?! Essa gente talvez nem tenha existido. Nem sei se essa gente é gente.

Tá okay. Isso tudo, diz o Bolsonarista-raiz, eu já aceitei. Eu quero ver é você responder às três objeções da última coluna: que letra de funk não tem valor estético; que as normas tradicionais de gênero precisam ser conservadas porque, caso contrário, caos moral; e que você é meio hipócrita, ao insinuar que você, no âmago, não deseja uma mulher parecida com Sarai-Sara.

Eu vou responder a essas duas últimas objeções nas próximas colunas.

Agora, a primeira objeção, eu respondo te dizendo que o critério estético que pode ser usado para legitimar o funk é: acordo com essas tendências mais primitivas. Acordo mesmo com algo feito uma vontade de poder, para falar como Nietzsche. Acordo com o feio, por assim dizer. Acordo com uma inversão da poesia medieval. Se você me concede esse critério…

Porra, o Bolsonarista-raiz me interrompe, mas por que eu te concederia esse critério?

Você precisa me conceder porque nós estamos bebendo. Porque já nevou no teu nariz. Porque você está constantemente muito puto com tudo. Porque você já gozou na boquinha sem intuito reprodutivo… Porque você já conquistou bumbum e disse que, baby, vira e diz que esse cuzinho é meu. Hhahaha! Mas que que o cuzinho tem a ver com as calças?

Tem a ver porque você tem que aceitar acordo com as tendências mais primitivas como um critério estético porque você mesmo tem essas tendências. E porque também, bumbum não se pede, bumbum se conquista. Porra, isso não é poesia?! Porra, se isso não tem mais valor estético do que tudo que esses poetas de reconhecimento e modernistas fracassados já escreveram, nem sei mais…

O que eu quero dizer é que, você mesmo, Bolsonarista-raiz, você mesmo aí, metido a moralista, você mesmo talvez precise de uma poesia que faça justiça a essas tendências. Quero dizer: nunca uma danada te deixou gozar na boca?! Hahahaha… que?! Hahahaha! Sei, sei… Tu tá todo gozado nessa coluna, hein?!

Não sei. Só sei que, por hora, eu só quero te fazer entender que essas tendências primitivas aí são injustiçadas na bíblia dos judeus, no velho testamento dos cristãos. Porque não é como se fosse descrito quando a xota de Sarai-Sara encharcou, quando o cu dela piscou. Nada é dito sobre se e quando o pau de Abrão-Abraão latejou e ele cuspiu para entrar e ficou assustado porque viu que Agar só queria mamar.

Mama. Mais: pega na minha vara e mama.

Pega no meu grelho e mama. Mais: me chama de piranha na cama. Minha xota quer gozar. Quero te dar. Hahahaha! Tô rindo. Mas tô achando blasfêmia… Tô rindo. Mas tô rindo com culpa… Hahahaha! Mas eu tô falando sério: fingir que essas tendências primitivas não existem ou que elas pouco importam ou que elas podem ser superadas me parece, sim, abominável. Muito mais abominável do que, sei lá, dar o cuzinho. Hahahaha! O senhor Moreira, o senhor é um fanfarrão! Sou. Mas não sou.

Porque eu tô falando sério.

Assim.

Olha, não é lá nada novo tentar fazer a poesia que faça justiça a essas tendências mais primitivas. Considere lá o poema 16 de Catulo, escrito lá em algum momento do século 1 antes de cristo em algum lugar da Roma Antiga. Na verdade, considere a maioria dos poemas de Catulo. Esse critério aí, de acordo com as tendências mais primitivas, também pode ser usado para dizer que esses poemas têm valor estético.

Quero dizer: a questão desses poemas de Catulo parece ser justamente a de fazer justiça a essas tendências que, nas escrituras, parecem as mais reles ou mesmo do mal; fazer justiça ao que também é humano, mas que Abrão-Abraão, Sarai-Sara parecem sacrificar, como se fosse possível, como se não fosse desumano sacrificar, como se essas tendências não fossem as de toda gente de Israel.

Quero dizer: há também necessidade de fazer o leitor sentir que tem vezes que é preciso simplesmente explicitar um ódio. Uma vontade de putaria. Um foda-se a comunidade. Porque eu só quero ficar aqui drogado. Um eu não tô nem aí para o povo de Israel. Eu sou romano, caralho! Esse tipo de coisa. Porque, caso contrário, você vira um desses padres antinaturais. Essa gente que quer o impossível: viver para além disso tudo aí.

O poema 16 é basicamente pra expressar algo de primitivo, dizendo que: vai se fuder, Aurélio! Vai se fuder, Fúrio! Porque vocês são burros esquecidos ou, como coloco na minha tradução, umas “bichantas”, a ponto de esquecerem que tem uma diferença entre eu-lírico e autor.

Quero dizer: o eu-lírico pode ser um homem que dá o cuzinho, quero dizer, um homem que ocupa uma posição passiva numa relação sexual com outro homem. Isso não significa que o autor também proceda assim. Pense em Humbert Humbert, o narrador de Lolita, e em Nabokov, o autor desse livro. O fato do primeiro ser um pedófilo não implica que isso também é o caso com o segundo.

Ah, tá… Isso é óbvio, não?! Até pras viadinhas politicamente corretas da Letras, não?! Até mesmo para os viadinhos piores ainda do jornalismo?! Sim! Agora, o que é menos óbvio é que tem dois procedimentos meio paradoxais nesse poema 16.

O primeiro é: o eu-lírico critica seus oponentes, Aurélio e Fúrio, por esses terem ignorado a distinção eu-lírico / autor, mas, ao proceder do modo como ele procede, ele também parece colocar essa distinção em cheque. Isso se dá porque não fica lá muito claro se Aurélio e Fúrio são eu-líricos de outros poemas, personagens do poema 16 e/ou pessoas que de fato existiram. Isso também se dá porque não fica claro se quem fala no poema é um eu-lírico ou o próprio autor. Pense também na relação íntima de Felipe G. A. Moreira (autor) e F.G.A.M. (persona poética).

Eu vou falar melhor sobre isso depois.

Por hora, eu só queria dizer que o segundo procedimento meio paradoxal é: o eu-lírico pressupõe que ser um homem que toma a posição passiva numa relação sexual é algo sem valor, algo de vexaminoso, ou mesmo talvez um pecado. Estou lendo o poema, assim, porque o eu-lírico/autor do poema pressupõe que Aurélio e Fúrio o ofenderam, ao insinuar que ele toma essa posição passiva. Mais: ele parece tentar ofender esses caras, ao dizer que vai colocá-los numa posição passiva, ao dizer, na minha tradução, que “eu vou é fuder seus cus e suas gargantas!”.

Por outro lado, ao falar sobre esse assunto no poema, o eu-lírico/autor parece defender que a função da poesia é justamente essa de excitar possíveis amantes. Como se o eu-lírico/autor fosse uma espécie de prostituto cuja pretensão é a de se deixar passivamente ser usado por leitores que tentam satisfazer suas tendências mais primitivas.

É por conta disso também que eu estou dizendo que acordo com essas tendências ou ao menos com algo que procura fazer justiça a essas tendências, quero dizer, acordo com o feio, com o anti-poema medieval é um critério estético que pode ser usado para fazer um juízo estético positivo sobre esse poema 16.

Fez-se, então, um silêncio.

Eu matei meu copo de Franziskaner como se fosse água. Como se fosse água: foi assim também que o Bolsonarista-raiz matou o copo dele. Daí, ele olhou para mim com desconfiança.

Naquele tempo, ele disse: mas a poesia metamodernista quer basicamente retomar o projeto de Catulo e rejeitar o projeto da poesia da bíblia dos judeus, o velho testamento dos cristãos? Não. Alto lá, anão! A pretensão é fazer uma síntese desses dois projetos, feito um Deus feito carne. Que?! Eu explico na próxima coluna. Mas você não acha que rola de sair daqui da Garcia d’Ávila e alcoolizar na praia? Já é! Garçom, vê a conta aí!


FELIPE G. A. MOREIRA é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras

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