Subversa

F.G.A.M. deseja os tecidos do céu | Felipe G. A. Moreira


“Judite e Holofernes” (1599), Caravaggio.


Naquela manhã de sábado na praia de Ipanema, o mar estava morno. As ondas estavam mansas. Eu. Mais: o Bolsonarista-raiz. Nós mergulhávamos. Eram umas 11 da manhã. Eu falava sobre um dos poemas mais famosos do mundo. O poema do William Butler Yeats, o Aedh wishes for the cloths of Heaven. Na tradução: “Aedh deseja os tecidos do céu”.

Esse poema que foi publicado originalmente em 1899. Isso na coletânea de poemas do Yeats, The wind among the reeds. Esse poema que foi traduzido inúmeras vezes para o português e que, daí, eu nem tenho nenhuma nova tradução para propor.

Eu dizia que, ó Bolsonarista-raiz, esse poema do Yeats é tradicionalmente lido como um poema de amor. E eu nem sou bobo-triste de dizer que não dá para ler o poema assim. Eu só estou dizendo que essa não é a única leitura possível. Por que não? O Bolsonarista-raiz perguntava.

Porque, eu dizia, tem uma outra leitura possível. Uma leitura que diz que: olha, esse poema aborda de modo, sobretudo, emotivo, a disputa sobre como poetas e críticos de poesia devem agir uns em relação aos outros. Segundo essa minha leitura, o poema do Yeats quer fazer o leitor sentir que: o dever do poeta é o de apresentar o seu melhor; e o dever do crítico é o de ter cuidado ao avaliar o que o poeta apresentou. Minhas razões para ler o poema assim são as seguintes.

Os primeiros cinco versos são o modo do eu-lírico dizer que: fosse eu Deus, eu te daria o divino. Quero dizer: eu te daria as escrituras. Eu te daria A Palavra. Acho que os “tecidos do céu” do título do poema são metáfora para isso.  Mas —o eu-lírico reconhece no sexto verso —que ele não é nenhum Deus. Isto é: eu leio que o eu-lírico está dizendo que ele é “pobre” no sentido que ele é meramente humano, finito.

Ainda assim: o eu-lírico tem algo de valoroso para dar. Na verdade, o que ele tem para dar é o seu melhor: a saber, os seus sonhos. Logo, não acho louco extrair desses seis versos a tese que o poeta tem o dever de dar o seu melhor. Obviamente, como o poeta não é Deus, ele não pode dar A Palavra. Mas ele pode dar seus sonhos. Feito: o próprio sonho de dar A Palavra, de ser um F.G.A.M., e não meramente um Felipe G. A. Moreira. Esse é o meu sonho. Entende?

Sim! Você, de certo modo, aceita a posição do eu-lírico do poema do Yeats.

Sim! Eu tento dar o meu melhor, a poesia metamodernista. Mas, de certo modo, não acho que essa história de “dar o seu melhor” seja lá muito controversa. Na verdade, essa história de “dar o seu melhor” é meio clichê. O que é mais interessante, me parece, é a tese que o melhor que se pode dar hoje é a poesia metamodernista. Bem, é isso que eu estou tentando bancar em todas essas colunas.

A segunda tese que eu extraio do poema também é um pouco clichê: a tese que o dever do crítico é o de ter cuidado ao avaliar o que o poeta apresentou. Eu acho que dá para ler o poema como emotivamente apontando para essa direção nos seus últimos dois versos. Isso porque o penúltimo verso, leio, é o modo do eu-lírico dizer que ele está se expondo para um crítico de um modo quase imprudente. Quase imprudente. Porque o eu-lírico espalha o que é o melhor de si sob os pés desse crítico. Publicar um poema é isso, não? Sei, sei.

Mais: note que o último verso do poema do Yeats é um imperativo; o eu-lírico está “comandando” esse crítico a ter cuidado para com esse melhor de si que ele espalhou sob os pés desse crítico. E note que se o poema do Yeats é lido como um poema de amor, é interessante pensar também nesse eu-lírico que demanda algo do seu objeto de amor. Quero dizer: não me parece que poemas de amor que fazem usos de imperativos sejam lá muito recorrentes. Eu, pelo menos, não me lembro de nenhum agora. Mas sei lá.

Mas, enfim, me disperso. O que importa aqui é falar desse cuidado da crítica. Entende? Sim. Mas o que exatamente seria esse cuidado? O Bolsonarista-raiz perguntava. Quero dizer: meramente dizer que o crítico deve ter um cuidado também é uma espécie de lugar comum, não? Com certeza. Um grande clichê.

O que não é lá muito lugar comum é o modo como eu entendo que esse cuidado deve ser expresso. Um modo que, obviamente, não é insinuado no poema do Yeats, e que eu vou desenvolver agora por conta própria. Que modo?

Eu acho que, para ser cuidadoso (isto é, para andar sutilmente sobre os sonhos do poeta), o crítico tem que proceder de um modo que esteja comprometido com algum recurso justificatório. Quero dizer: alguma espécie de argumento. Quero dizer: um conjunto de premissas que fundamenta uma conclusão. E para que um procedimento de justificação seja persuasivo, acho que seis normas precisam ser seguidas.

Primeiro, é preciso definir os termos técnicos.

Tipo: termos técnicos como “poesia metamodernista”, poesia de reconhecimento, poesia modernista fracassada, etc. Será que ninguém percebe que é isso que eu estou fazendo aqui? Será que ninguém percebe que grande parte das pessoas que tem mesmo doutorado em Letras usa termos técnicos como se esses termos tivessem um sentido universalmente compartilhado e como se o uso que a pessoa estivesse fazendo não fosse meio que sem sentido ou ridiculamente vago e, por conseguinte, autoritário?

Segundo, é preciso citar as autoridades com o mínimo de cuidado.

Isto é: tem que ter alguma pertinência trazer a autoridade para o debate; não pode meramente citar a autoridade por citar. Será que ninguém nota que, quando eu falo aqui muito rapidamente sobre Nietzsche e Carnap, eu tenho toda uma tese de doutorado e artigos especializados bancando o que eu estou dizendo? Será que ninguém nota que isso é diferente de lançar o nome de uma autoridade por lançar para tirar onda num bar? Será que ninguém percebe que, quando eu digo “Deleuze” ou “Quine”, eu não estou meramente falando de modo afetado para fazer charminho em festa de literatos?

Eu percebo.

Terceiro, é preciso explicitar o critério estético a partir do qual se está julgando o poema.

Será que ninguém percebe que é isso que eu estou fazendo em todas essas colunas? Isto é: será que ninguém percebe que talvez a principal disputa dessas colunas é justamente a sobre qual critério ou quais critérios devem ser usados para se ajuizar sobre o valor estético de poemas? Será que ninguém percebe que eu estou defendendo um pluralismo em relação a esses critérios?

Eu percebo.

Quarto, é preciso mostrar porque é pertinente julgar o poema em questão a partir do critério adotado.

Será que ninguém percebe que é isso que eu estou fazendo em todas essas colunas? Que eu estou lendo poemas diferentes a partir de critérios diferentes? Que não parece muito pertinente ler um poema modernista e um poema medieval a partir dos mesmos critérios? Ninguém percebe que a última coluna da fase 1 foi justamente para responder alguém que acha que o critério que eu estou usando para avaliar a poesia de reconhecimento e a modernista fracassada impertinente?

Eu percebo.

Quinto, é preciso apresentar evidência textual.

Quero dizer: é preciso mostrar que há alguma pertinência em ler os poemas do modo proposto, mesmo que, talvez, a evidência textual seja vaga e permita diversas leituras como, em geral, é o caso com muitos poemas. Novamente: será que ninguém percebe que é isso que eu estou fazendo? Será que ninguém percebe como isso é bem diferente do procedimento geral? Do elogio vazio babaca (e.g., “achei lindo, amiga”)? Da esculhambação vazia babaca (e.g., “achei cu, filho de uma rapariga”)?

Será que ninguém percebe que todas as pessoas que criticam o Bolsonaro, mas tem esse procedimento são, em última análise, extremamente direitistas e muito piores que você, Bolsonarista-raiz, que está aqui dialogando comigo sobre poesia tem mais de 11 horas? Será que ninguém percebe que há uma violência “sutil” nesse procedimento do elogio vazio babaca/esculhambação vazia babaca?

Eu percebo.

Sexto, é preciso diferenciar o papel da crítica literária do papel da crítica moral do comportamento do autor.

Quero dizer: será que só eu acho que tem muito “crítico” que não faz essa distinção? Será que só eu acho absolutamente inaceitável “crítico” que toma poema como evidência do comportamento do autor? Que julga o autor moralmente a partir do poema? Será que ninguém percebe que é muito perigoso quando alguém começa a dizer que um autor é sexista, racista, homofóbico porque o eu-lírico de um dos seus poemas é sexista, racista, homofóbico?

Eu percebo.

Você não está sozinho, o Bolsonarista-raiz disse. Bem, eu sei que não. Mas, na maior parte do tempo, eu sinto que eu estou sozinho, sim. Que as únicas pessoas que conseguem seguir essas normas não se importam com poesia. Quem se importa com poesia, como eu me importo, recorrentemente viola essas normas como se essa violação não fosse uma violência. Uma violência “sutil”, diferente de outras violências muito menos sutis como a de decapitar alguém. Mas, ainda assim, uma violência: uma imensa falta de cuidado para com o autor. Eu dizia.

E, nisso, as ondas vinham e vinham. Mansas. E eu disse que: vamos ficar um pouco na areia? E o Bolsonarista-raiz disse que sim. E nós saímos do mar. Feito F.G.A.M. deseja os tecidos do céu.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

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