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[Especial Solstício] “Fotografia” | Daniela Valverde


Seja ao redor de uma lareira ou com os pés querendo tocar a areia, a Revista Subversa convoca os hemisférios para trazer o Especial Solstício para essa rede. Aqui, movimentamo-nos de acordo com a Literatura Contemporânea e Independente, quando o dia é mais longo à espera de novas publicações ou quando a noite é mais longa porque não queremos esgotar nossas leituras. Com as mãos livres ou dentro de luvas quentinhas, o Especial Solstício celebra essa grande conjunção.

A seguir, o conto “Fotografia” de Daniela Valverde.

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As editoras


     Quando cheguei o sol já ia alto. Subi os três lances de escada que davam acesso ao alpendre e sacudi a poeira dos sapatos de forma automática, o corpo agindo intuitivamente, movido pela lembrança do som da voz de mamãe mandando que a gente limpasse os pés antes de entrar. Entrei na sala e olhei ao redor. Tudo parecia exatamente igual ao que eu tinha deixado dez anos atrás. O chão batido impecavelmente limpo. A delicadeza das flores de plástico num vaso branco enfeitando a mesinha de centro com pés entalhados e tampo de mármore. Amaldiçoei, como sempre, as poltronas tubulares num tom vermelho escuro. Elas substituíram o antigo sofá, compradas quando Ricardo, meu irmão gêmeo, arrumou um emprego no centro.

      Sentei-me na poltrona mais próxima à porta e suspirei de calor. Apesar das treliças que rodeavam toda a sala, não ventilava. Não sei se pelo clima abafado ou se angustiada pelos motivos que me haviam levado de volta até ali, senti que ficava um pouco tonta e um zumbido persistente ocupava todo o espaço do silêncio que parecia emanar das paredes de madeira. O assovio do vento por entre as frestas das ripas, apesar de ser um velho conhecido, me deixou estranhamente assustada. A fotografia na parede e tudo mais naquela sala me remetia a lembranças de um passado onde estávamos todos ali, vivos. Agora só restava eu. E o corpo de mamãe no hospital, me esperando fazia dois dias para enfim descansar debaixo da terra ao lado de papai, Ricardo e Antônio, o mais velho que virou anjo quando tinha quatro anos.

      A morte de Antônio foi o primeiro baque. Não cheguei a conhecê-lo porque mamãe engravidou de mim e de Ricardo dois anos depois do acidente. Mas ela contava pra gente que ele era um menino velho, que os seus olhos eram muito profundos e que parecia que tinha pressa de viver. Sempre achei que mamãe pensava assim pra se consolar, por ele ter partido tão cedo. De certa forma eu sentia que ele estava sempre conosco. Não de um jeito religioso ou místico, nunca acreditei nessas coisas, mas materializado pelas histórias que mamãe nos contava. Essas conversas aconteciam sempre na ausência de papai. Mamãe nos dizia que ele a repreendia, pois achava que com isso a alma não descansava. Um dia, papai já tinha partido, ela nos contou a verdade: Estava no mar com Antônio e se descuidou por um momento, perdendo-o de vista. Pescadores escutaram seus gritos e vieram ajudar, em vão. O pequenino foi levado pra areia já sem vida.

       Quando eu e Ricardo fizemos dezoito anos, mamãe arrumou um dinheiro e chamou um fotógrafo, ou melhor, um retratista, como se dizia. Por esses tempos papai andava sumido, a gente não sabia, mas imaginava que entorpecido pela cachaça, vagando em alguma cidade vizinha. Entregou para o retratista uma foto 3×4 de Antônio, único registro dele, e fotos dela, de papai, minha e de Ricardo. Por esses tempos papai andava sumido. Lembro dela com a foto emoldurada nas mãos, sorrindo e orgulhosa, olhando para nós cinco posando com dignidade, Ricardo e papai de gravata, eu e ela com roupas alinhadas, e o pequeno Antônio ao centro. Isso foi pouco antes de eu ir embora.

       O segundo baque foi encontrar o corpo. Já fazia três anos que a gente não tinha notícias de papai e começamos a considerar a hipótese de que talvez ele estivesse morto. Uma noite mamãe acordou gritando. Eu e Ricardo fomos ao seu encontro e ela contou que estava sonhando e que havia com um corpo num terreno descampado, rente a um muro e cercado por um matagal. Ela chorava e repetia, balançando seu corpo, abraçada aos joelhos, que tinha certeza de que era ele. Sempre fui muito cética em relação a premonições de qualquer tipo e minha razão ainda me leva a considerar que tudo não passou de uma coincidência.

      A gente não fazia ideia de que Ricardo vinha já há algum tempo entrevistando algumas pessoas nos bairros mais afastados, em busca de alguma pista de papai. Ninguém falava nada. Depois do sonho de mamãe ele passou a vasculhar terrenos abandonados até que, enfim, encontrou o que procurava. Não fazia muito tempo que tinha acontecido, pois ainda conseguiu distinguir as feições de papai naquele corpo já quase amorfo, vestido com uma camiseta do Flamengo e uma bermuda de poliéster.

       Pouco tempo depois Ricardo se foi. Encontraram seu corpo boiando no mar. Mamãe nunca mais foi a mesma.

 


Daniela Valverde | Nascida em Alagoinhas, na Bahia, vive em Brasília há 11 anos. É formada em História pela Ufba e estuda Letras e produção editorial. Selecionada para a edição 2021 do Prêmio Off Flip de Literatura, categoria conto.  | danielasvalverde@gmail.com

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Tereza Soares de Sena Lima 23 de junho de 2021 em 15:23

    Parabéns Dani,adoro contos,lindo e profundo💕

    • Daniela Bianca da Silva Valverde 17 de julho de 2021 em 13:54

      Obrigada 💙😊

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