Subversa

Enviado do meu telefone windows 10 | Astronauta de Pulôver Azul Neon

 

Ilustração de Lila Bitten


não sei se aí,
onde você está exatamente agora nesse minuto,
tem sinal ou se você tem o hábito de conferir e-mails
ou de pensar em mim
pensei em ligar com a negativa das afirmações acima
pensei no poema que não fiz por falta de tempo
ou de assumir a responsabilidade da partida
talvez, mais tarde, editando esse recado, etiquetando-o por assunto
você possa ler quando souber usar o wi-fi do hotel sem que perca a paciência
ou ache muito antiquado para a sua idade ou silêncio
a verdade é que eu pensei em ligar na segunda,
antes de encher o porta-malas e o banco de trás com as roupas de ida
mas esqueci de lembrar por algum momento
e o dia desligou o abajur da sala como quem encerra a última página
daquele romance surrado que a gente faz questão de remanchar a leitura,
voltar capítulos, esquecer o nome dos personagens

iria ligar caso não houvesse amanhã
you know, you must take a look at me
e a possibilidade desse e-mail
tive dor de cabeça e chorei por isso
ou porque liguei para aquele número
que estava no cartão que você me deu, fechando a porta
chorei porque não era uma voz conhecida do outro lado da linha
uma voz não conhecida dizendo palavras não conhecidas do outro lado da linha
you know, it’s time now to learn portuguese  

tenho problemas com distâncias e suas urgências, você sabe,
essa não é a nossa primeira vez
senti dor de estômago depois que desliguei o telefone
e chorei copiosamente a noite inteira
por causa de uma pergunta sem resposta dela
uma coisa que de tão boba nos faria rir
até ficarmos com as bochechas quentes, vermelhas
mas não rimos
eu continuei chorando
olhando para uma poltrona vazia,

implorando mentalmente que você se dê conta
look at me closer
de que aprender a usar a internet não é impossível
nem mesmo vai lhe fazer viver num mundo que não seja seu
roubar-lhe sossego ou histórias ouvidas da poltrona ocupada da sala
não se perde essência quem sabe exatamente que fragrância e textura ela tem

it’s time now to learn what I know
and what I don’t know

será um ano lento – não tenho dúvidas,
você terá muito tempo para aprender a lidar com isso e whatsapp
você terá muito tempo para pôr em dia todos os vídeos
que anexei em e-mails passados e que você não soube ler
and hear the new sound of my bossa nova
caso você se pegue lembrando das minhas expressões
irritadas com a semana, com o tédio em excesso
e as capas de revistas da veja amostras em seu aparador

você está levando sua bike?
você fica muito bonita nela,
quando sai para explorar a sua respiração e diafragma
quando sobe uma ladeira e seu olhar acaricia
o olhar de alguém que também vai
bonito, sem pressa
para onde você vai, dizem, ser propício para pedalar
as árvores as praças organizadas de estudantes
praticando esportes à luz do dia
you know, you must try the new ice-cream flavour

você vai ficar muito ocupada, vai ser bom
espero que tenha levado aquela minha edição do pampapernambucano,
levei-o comigo à praia, anos antes, teve um grito de repente
de dentro das páginas saído das linhas
que mudou alguma coisa que não sei
talvez lhe seja útil no café da manhã
acordar aquele grito
e perceber a cama desfeita no meio da tarde
ainda quente num fevereiro insuportável de porto alegre

eu sigo com alguns rabiscos no canto do jornal
look here read what I wrote on my shirt
encharcados de qualquer coisa que se manifeste em silêncio
quase um desaviso
um pouco de sono também
quase trinta e o sono aumenta
essa menina não aprende – balança a cabeça e sorri
ainda mulher sem os sisos
com o sutiã que saiu do p para o 44 fazendo doer as costas

vou sentir sua falta amanhã
algum tempo em que o nome não desaparece
o sentimento marcado, a renúncia, o peito estufado de coragem
amanhã sua falta, o desânimo que procede quando alguém fica
e outro vai
precede
esse aqui que fica, esse alguém, sempre meu lugar,
eu,

porta aberta para o vento entrar

 

*para ler ouvindo os mutantes, baby


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

Ilustração: @lilabitten

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