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[Entrevista – Íris Ladislau] “A força da poesia é algo muito misterioso e sem dúvida a vida seria mais difícil sem ela”

 

Recentemente tivemos o prazer de ler previamente a obra Eu não sou protetora das coisas frágeis, de Íris Ladislau; na sequência convidamos a autora para uma breve entrevista, na qual ela nos contou a respeito do seu processo criativo. O link da pré-venda do livro a ser publicado pela Editora Penalux, pode ser encontrado ao final da entrevista.

Íris, como foi o processo de criação de Eu não sou protetora das coisas frágeis?

Embora eu escreva poemas há muitos anos, Eu não sou a protetora das coisas frágeis é o primeiro livro de poesia que escrevo, então o processo de criação foi mais intuitivo do que  técnico, por assim dizer. A primeira ideia surgiu enquanto eu lia Clara dos Anjos, de Lima Barreto, pois  a escrita dele me impacta bastante e, por vezes, uma única palavra me causa uma inspiração tremenda. No caso, a palavra da vez foi “liturgia”, a qual, embora eu já conhecesse, no contexto do trecho do livro me chamou bastante atenção e acabou gerando um poema. Ainda em meio a esse processo, fui imaginando o livro, percebendo como muitos dos meus poemas acabavam usando símbolos e alegorias religiosas. Isso me deixou muito empolgada e logo veio uma enxurrada de ideias, as quais fui anotando e desenvolvendo com o passar do tempo. Na época eu fazia três disciplinas de literatura e duas de escrita criativa, então me encontrava o tempo todo inspirada e com vontade de criar; por isso o livro acabou se desenvolvendo de uma forma bem dinâmica, eu passava boa parte do tempo pesquisando as temáticas, revisando o que eu já tinha escrito e elaborando novas ideias.

Em nossa leitura, pareceu-nos encontrar a dicotomia Sagrado X Profano. Você tinha essa questão em mente ao iniciar a escrita dos poemas que compõem a obra?

Sim, definitivamente. Quando comecei a pensar na unidade da obra, pensei primeiro que queria dividi-la e falar de dois relacionamentos, um homossexual e outro heterossexual, até mesmo para sugerir, ainda que de forma implícita, a discussão de como a complexidade da sexualidade de uma pessoa é ignorada, acabando por ser resumida a ser hétero ou ser gay/lésbica; tipo, ou um ou outro. Mas, pensando nos relacionamentos reais que usei como base para escrever o livro, notei que, mesmo sem uma intenção consciente, os poemas que eu escrevia sobre um sempre tinham algo de sagrado, enquanto que os que eu escrevia sobre o outro tinham algo de profano. Depois entendi o porquê eu acabei fazendo isso. Quando comecei a trabalhar no livro, já se tornou então algo totalmente intencional, é a base da obra, da alegoria. Aliás, minha intenção era mesclar as duas ideias ‒ sagrado e profano ‒, gerar certa ambiguidade e provocação. Afinal, usar símbolos religiosos para compor a alegoria de uma obra sobre paixão, que fala inclusive sobre relacionamento homossexual, por si só pode ser visto como algo profano e gosto de pensar que um dos papéis da arte é esse mesmo: provocar, instigar.

Na obra, o amor é divinizado e trabalhado como experiência religiosa. Encontramos nos poemas referencias a rituais e passagens bíblicas, por exemplo: «litania»; «estátua de sal» e «sudário». Você tem alguma experiência religiosa ou o tema foi pesquisado especificamente para a obra?

Eu nasci em uma família católica, embora hoje em dia meu pai não seja mais católico. Porém, tanto ele quanto minha mãe têm muita fé em Deus e na Bíblia. Já eu nunca tive um apego muito grande a religião; principalmente a partir da adolescência, minha visão se tornou muito crítica a respeito disso. Hoje me considero agnóstica, mas me interesso por conhecer a variedade de religiões existente, só pelo conhecimento mesmo, acho a pluralidade espiritual das pessoas interessante. O que eu acabei aprendendo por ter nascido em uma família católica serviu como pontapé para os poemas, mas também houve pesquisa, principalmente no caso da mitologia grega. Para mim, estudar passagens bíblicas, aliás, a Bíblia em si, é mesmo como estudar mitologia grega, egípcia, oriental; vejo a Bíblia como mitologia. Acho interessantíssimo ter esse conhecimento e usar símbolos ligados à mitologia, mesmo não acreditando em nada daquilo.

Nos tempos que correm, você considera a poesia frágil? Ou ao contrário, uma potência criadora que pode ajudar a suportar o mundo?

Acho as duas coisas. Infelizmente, parece que o interesse pela poesia é cada vez menor. Livros de literatura circulam muito mais facilmente do que livros de poemas. Conheço várias pessoas que alegam não gostar de poesia por ser “muito difícil”. E é mesmo, mas penso que isso não significa que não se possa aproveitá-la cada um do seu próprio jeito. Por outro lado, a poesia que tem sido produzida não tem nada de frágil, pelo contrário, o que tenho lido de contemporâneo é muito forte, elaborado e transformador. Mesmo que o público seja cada vez mais restrito, esse público que tem criado e consumido poesia é forte e dedicado, justamente por ela ser “uma potência criadora que pode ajudar a suportar o mundo”. A prova disso é que, mesmo em meio a uma pandemia tão catastrófica, livros de poemas continuaram a ser produzidos e lançados, revistas voltadas à poesia contemporânea continuaram publicando, e poetas continuaram escrevendo. Para mim, a força da poesia é algo muito misterioso e sem dúvida a vida seria mais difícil sem ela; costumo dizer que escrevo (e leio) para suportar.

Como é publicar um livro durante a pandemia? Como você pensou em trabalhar o lançamento da obra?

A princípio parecia algo improvável, publicar um livro em meio a pandemia, mas as editoras mostraram como o ser humano consegue se adaptar. Para ser sincera, como eu sou uma pessoa bem introvertida, não me incomoda tanto o fato de não poder organizar um lançamento presencial. E com as ferramentas on-line que temos hoje em dia, dá para organizar campanhas e coisas do tipo, ainda que de forma simbólica, para celebrar o momento sem desrespeitar a quarentena. Organizar a campanha on-line pode ter até mais engajamento, já que atualmente quase todo mundo passa bastante tempo em redes sociais e afins, de modo que pessoas que não compareceriam a um lançamento presencial, por um motivo ou outro, podem apoiar a campanha a distância. Para organizar a campanha do Eu não sou a protetora das coisas frágeis, eu tenho tido muito apoio da curadora do selo que vai publicá-lo, o Auroras, da Penalux. A Dani Costa Russo, que além de editora do selo é também escritora, me ajuda bastante com ideias, sugestões, dicas do que pode funcionar ou não. Para movimentar o público nas redes e também celebrar esse sonho que se realiza, preparei postagens com trechos dos poemas e coisas do tipo. Ainda estou pensando no que posso fazer para o dia do lançamento.


 Vamos apoiar a poesia ? 🙂

Eu não sou protetora das coisas frágeis, Íris Ladislau | link para a pré-venda do livro: https://www.editorapenalux.com.br/loja/iris-ladislau/eu-nao-sou-a-protetora-das-coisas-frageis

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