Subversa

Enredo | Giovane Adriano dos Santos


Fábrica no Horto de Ebro”, Pablo Picasso.


É certo, porém, que à escrita antecede a leitura, se aquele em cujos domínios estão os verbos os pôr à ribalta de obra literária. De qualquer modo, é desimportante pensar muito sobre a escrita e, geralmente, as letras que repousam nas prateleiras modernas se dão a conhecer por meio de prismas tão diversos que ninguém as sabe rotular aos moldes exigentes e vários que há. Foi este o raciocínio do espectador, enquanto tinha às retinas certo texto de Saint-Hilaire. É livro de Botânica? Geografia? Não! É literatura, de viagem e de outra época, época muito diversa em costumes e quefazeres, mas literatura. De viagem? Mas, desprezando, ou melhor, elastecendo este sentido, qual literatura não é viajante? Pergunta retórica, porque o mundo todo transita, dá caminho a bagagens e se vai levando-as ao correr dos tempos, andando por sobre caminhos que desconhecemos e, demais, por alguns poucos sondados. Não se pode comparar certas empresas à transitoriedade mesma das coisas, sob o risco de restar dito do que é histórico o que se conjectura que é fruto da natureza: há lei necessária por detrás, bem adiante, camuflada, ainda não a conhecemos, mas existe. De todo esse raciocínio – mal elaborado a depender da perspetiva, decorre, literária e logicamente, que algumas coisas a natureza dá às pessoas e estas, gratas, nomeiam, significam, escreverem, e cantam àquelas. Outras, contudo, desenvolvidas ao cabo de transformações de objetos primeiros, figuram no rol de inventos, criações, construções, conduzindo a algum pesamento segundo o qual, em verdade, nada há, como informou em escritos a que se não devem imprimir quaisquer reparos à matéria e forma belas, outrora rei antigo ao mundo: não há novidade sob o sol.

Melhor poderia compreender, então, os sons d’água que cambalhotavam pasto abaixo, sem encontrar toda vez pessoa que a eles desse significado, e iam andando ao rumo daquilo a que, por não desejarem, os espectadores, repisar a metonímia com que a tarefa de nomear, desde logo reservada a poetas, que a detêm e monopolizam, veria a si desgastada, simplesmente deram o nome enseada,  e se iam misturando, os barulhos, a rumores metálicos e a estampidos egressos da boca tímida de parcos motores. Uns sons e outros eram inconfundíveis, não pela especificidade que faziam ecoar e tampouco pela memória a que poderiam remeter; individualizavam-se, a princípio, na origem: as águas romperam o chão, marcaram-no e, depois, como as locomotivas que davam as costas a olhos contristados nas estações, mudavam a cada estação e assim por diante as torrentes assistiam a gerações e gerações de fracos sorrisos, que se soerguiam nas extremidades dos lábios e espelhavam, de algum modo, a análoga imagem do cais deixado e do cais ao qual se chegaria. Repentinamente, reparou que também ao dizer das coisas que chegam, ficam e partem, a palavra estação ocupa lugar de despedida, senão espaço de algo cíclico. Saudade? Hoje, os aeroportos testemunham, à revelia e ao lado de alguns portos, estações e rodoviárias, os mesmos eventos de ontem.

Saint-Hilaire soube da Língua Portuguesa os matizes todos e, apesar de tê-los usado, nesta escrita em que relatara viagem às nascentes do São Francisco, para aspirar pela cidade, elogiando os engenhos europeus, o texto do francês não merece correção à forma. Aspirava pela cidade? Sim! Eis o porquê de os olhos descompreenderem, descompreenderem sem nenhum constrangimento: cidade é quase mistério, é edificação insondável, beira o indizível desde que o termo foi cunhado em séculos esquecidos, quando esta língua, feita especialmente para dizer espantos e solicitar trivialidades na loja mais antiga do lugar, sequer pensava em derivar do Latim – ou de qualquer outro idioma, como querem e sustentam alguns autores dissidentes. Com boa dose de convicção, guardando alguma ressalva para o caso de estar errado, concluiu que cidade, “cidade, a gente fala dela, eu nunca conheci lugar a que este nome faria perfeita justiça, mas é coisa de não-saber. Existirão muros nela? Se sim, idênticos aos que vejo, ou de outro modo justificados?”. Naturalmente, os muros podem ser iguais em toda parte do mundo, não se podendo concluir disso que os motivos pelos quais se hão de constituí-los ou lançá-los aos grafos da desimportância, ao palco do esquecimento – quando restaram nestes apagadas as luzes todas, são semelhantes em qualquer ocasião: em determinado lugar, pode-se edificar barreira ao que se julga inconveniente, alicerce a que, por exemplo, abismos sejam transpostos, ligando distâncias que por bem se acham unir e permanecer(em) atreladas; noutro local, se podem ver realizadas construções em que as desigualdades são tijolos, porque a confundem, os impertinentes edificantes, intencional ou inconscientemente, a diferenças.

E os sons, é necessário retomá-los, os sons corriam mais ou menos soltos e ecoavam entre as madeiras que assoalhavam a casa, construção ao bojo da qual se poderia chegar depois de restarem vencidos os trinta e três, número simbólico, degraus que separavam a sala e o quintal, pondo-se entre ambos e precedendo, a escadaria, se olhada da banda de fora da casa, a varanda que servia de guarda-sol à construção e de abrigo a pássaros que por ali voavam à procura de fresta entre o caibro e a telha, espaço em que, protegidos das águas e dos ventos, cantares dos miúdos pulmões saídos se faziam tinir aos fins de tardes. Quais os outros sons que havia? Muitos e quase indivisíveis. Alguns, porém, se sobressairiam, como é comum que se destaquem por atributos diversos coisas e pessoas situadas em contextos múltiplos, dando testemunho de ruídos ágrafos, mas que os ouvintes muito atentos e inventivos poderiam verter para o Português escrito. Trata-se de lembrar, nesta ocasião, que as galinhas d’Angola entoavam: tôfraca, tôfraca, tôfraca. Depois, elas rompiam os ventos, e a calmaria, e a expectativa, e o silêncio, e o dia; as asas perfeitas por artista vinculado ao cubismo -novamente o “ismo” de vanguarda(?) – dissuadiam quem as quisesse significar de modo simplório, davam aos olhos e aos ouvidos testemunhos de que a manhã, se fosse com vozes de outro animal tecida, remeteria a um poema cerebral.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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