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ENQUANTO OS CISNES DANÇAM e NOVEMBRO,11 | dois poemas de Pedro Belo Clara

 

ENQUANTO OS CISNES DANÇAM

 

É como trincar uma laranja

esquecida à sombra do pomar,

dizes,

como ter um filho nos braços

e depois deixá-lo nas gargantas do sal,

como sorrir às fontes perdidas

no cessar de asas do pássaro ferido.

 

Larga os espinhos das mais amargas flores,

a acidez dos frutos rejeitados;

deixa que te mostre como longos e felizes

são os dias do estio.

 

Esquece-te na delicada ternura dos miosótis,

na ária com que o melro

se despede das horas quentes.

Quando o orvalho vier para encher

o jardim de beijos de luar

vem lembrar o silêncio das mãos,

dum olhar que se perde num mar de nada;

vem beber, como quem morre,

a sóbria honestidade dum corpo despido.

 

Eis a evidência inquestionável,

absurdamente clara:

 

os amantes estão sós

e nus

no centro do mundo,

num abraço imenso cantando

em sussurros

um verso que não conhece tempo.


NOVEMBRO,11

 

Poemas de folhas caídas:

as longas avenidas do parque,

onde uma luz despida de cor

acaricia timidamente a melancolia

da hora tão branda, tão feliz.

 

Flores de bronze vidram-se nas alturas

cobertas pela platina da estação,

a pátina depurada dum ano

de turquesas, de fontes e canções.

 

Digamos disto beleza,

uma beleza tão frágil, tão pura,

que nos beija com ternura virginal

na paz das despedidas inevitáveis.

Tudo o que em retorno apetece dar

é uma entrega absoluta ao seu abraço,

um esquecimento completo

no seio dum desejo de morrer

dentro do seu corpo em desfolha.

 

Tudo o que o coração sabe querer

é isto, é aqui:

deixar o corpo no bronze do despojo,

largar a mão na tua

sem palavra para o pedir

e de olhos gentilmente fechados

sonhar as altas árvores que diante se quedam,

as altas árvores

onde pequenos pássaros saltitam

como as pequenas crianças sorriem

na diversão do parque.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Conceição Lima 5 de janeiro de 2021 em 17:36

    A Poesia de Pedro Belo Clara traz sempre a dor atrás da Beleza…As palavras fascinam-nos , puxam -nos a manga, colocam-se silenciosamente ao nosso lado e nunca, NUNCA , GRITAM…Deixam-se languidamente, cair , no húmus de cada um de nós, onde florirão mais e mais em cada leitura!
    Sou fá de Pedro Belo Clara!Um beijo , Pedro!

    • Pedro Belo 6 de janeiro de 2021 em 15:43

      Cara amiga,
      Muito obrigado pela sua leitura e pelas amáveis, mas sinceras, palavras que deixou em apreciação. Fico feliz por saber que desfrutou daquilo que leu. É sempre um gosto e uma honra ter a felicidade de contar com um olhar seu. Muito grato.
      Beijos, fique bem!
      Até breve.

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