Subversa

ENCANTAMENTO | Pedro Belo Clara

 

Por trilhos de neve e silêncio,

um caminhante

levado pela mão do deslumbre.

Por cada passo seu,

uma flor fascinada abre-se à vida.

 

À saída dos bosques,

furtiva como sabe ser,

uma raposa o observa.

Recebe a estranha presença

com melodia de quietude.

 

Um corvo grita, subitamente,

como se um êxtase brotasse

das funduras do seu ser.

Passa sobre a estrada

sem rastro deixar

no imenso manto de algodão.

 

Solitários, de novo, os abetos,

esse misterioso abrigo

de cervos com pele de poema.

Na sua mudez profunda

parecem chamar as estrelas

para nova vigília azul.

 

Os passos cessam, agora,

como se profano fosse

dar som a sossegos profundos.

Dois olhos cerram-se, suaves,

ao passar da álgida brisa

alisando o horizonte que enegrece.

 

Para breve o reino

das sombras e dos sonhos,

a certeza de que a maravilha

subsistirá noutra pele.

 

Um sorriso lento

fecha o dia com sabor

a romã e azevinho.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Maria Isilda Monteiro da Silva 11 de janeiro de 2021 em 10:54

    Belíssimo poema. Prende a alma e atenção de quem o lê. Que momento delicioso! Parabéns, grande poeta. Beijinho.

    • Pedro Belo 11 de janeiro de 2021 em 14:37

      É bom saber que gostou. Fico grato pelas suas palavras.
      Fique bem, cara amiga.
      Beijos.

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