Subversa

Dramas de Companhia, de André Domingues, manipulador | Cláudia Capela Ferreira


“Escrever é corrigir a vida”

Enrique Vila-Matas

 

“A Ressaca”, Winslow Homer (1885)

Esteticamente, é um livro sóbrio, mas apelativo. Curiosa, a sua forma, em tamanho aproximado ao A6 (a coleção azul cobalto da editora está no atraente formato 11*15) , como se pretendesse passar despercebido. Mesmo introvertidamente, é, porém, portentoso. Constituído por narrativas curtas, de teor perigosamente poético, Dramas de Companhia, editado em 2016 pela Companhia das lhas, reflete, sarcasticamente, sobre a fulgurante (e ridículo opróbrio da) aparição do ser a si mesmo. Porém, em vez de se firmar num feroz exercício de contração (contra ação?), como o exterior parece dar a conceber, as micronarrativas permitem, em movimento invertido, um inexorável sorvedouro sobre as palavras,  quimicamente retificadas. Nada é só aquilo que parece, ou, antes, nada parece aquilo que pode ser. De facto, a referência à encenação, à simulação, é lugar-comum nestas ficções, se optarmos por olvidar a orgulhosa presença constante e obsessiva do tempo, declinado na morte, na solidão e no suicídio, gesto, aliás, com que se abre o palco. E como é pertinaz atentar no princípio e no fim destes textos, qual mise en scène do autor! Tomando início no “vigésimo nono andar da consciência” (Domingues, 2016: 9), o livro termina focando “down there”, esse maltrapilho milagre, a condição humana. De facto, em plano picado, vamos acedendo à descrição daquilo que se nos faz passar pelo indivíduo moderno, embora, no decorrer das páginas, tendo em conta quer o espaço alargado depreendido das viagens idiossincráticas e espaventosas de algumas personagens, quer a clausura na consciência ou na identidade de outras, nos seja possível concluir, afinal, que já desde as primícias temos vivido deliciados no mesmo spleen de Baudelaire.

A impostura do tempo, que, afinal, se impõe, é o verdadeiro (?) drama, na falácia do eterno retorno, nessa sua deferência para com a repetição amorfa dos dias, permitindo aos narradores destas curtas teorizar sobre a inutilidade de fundo niilista das suas aparições. A noção da invisibilidade do contemporâneo tão achacadamente visível e rastreável, visando prolífico contradictio in terminis, é repetida, assim como a desilusão, também e especialmente logo depois dos amores carnais: arrepio da consciencialização da nossa pobreza e indefetível solidão. O corpóreo aqui é todo de foro impalpável e pontual, como um fruto à espera do apodrecimento, materialidade fugaz, castrante. Como tal, tudo se torna paradoxal, contraditório, até o amor, enquanto ritual despojado do significado que se lhe aprouve dar inicialmente. Aqui, nem amor, nem sexo. Não são exercícios de transgressão de um lugar árido, são, antes, o morno, já arrefecente, agilizar miserável e aflitivo – como nos é descrito o ato – de uma sentença. Nem erótico, nem tabu: aqui, a morte é regulamentação ciosa da condição. Assim, escoltada pelo tempo toldando-se sobre o indivíduo, a morte é procurada, pudicamente, como uma ânsia paradoxal contra o primeiro; típico dos ansiosos: alcançar aquilo que temem, aquilo que anseia(m). Ou urgência no reclamar do controlo perdido por submissão ao nascimento.

A desenvoltura metafórica de André Domingues é igualmente assinalável, recobrando-a do seu estado hodierno mais ou menos precário, imiscuído numa certa literalidade, menos relacionada com uma eventual pretensão circunstancial do que com uma necessidade afoita de universalizar, alisando sentidos. Assim sendo, será talvez quando o autor perde o pé, que, perdendo as contumazes estribeiras, ultrapassa aquele risco sólido no ar e ganha profundidade, extrapolando e, por isso, cindindo: abrindo enquanto abrevia. Nesse sintomático exercício de concisão, abeira-se da poesia inteira, embora não seja de depreciar todo o talento na moldura dos contos mais extensos (a extensão, aqui, é igualmente do domínio do discrepante), na partitura desse lugar mínimo de projeção de voz. De facto, e a avaliar pela menção ao ventríloquo, é também o autor um emissor da autonomia da personagem. E neste mistério fantasmagórico, opera-se na ténue linha de desobrigação circense. André Domingues ensaia brevemente o seu rito literário, tomando como operante a noção de canónico, isto é, do que é afinal perscrutável na definição de um género, de uma estrutura fechada, e de uma categoria, no que parece ser a veiculação antagónica daquilo que eu definiria como escrita de escantilhão. Atendendo às epígrafes, de Clarice Lispector – evadindo-nos da “terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido”, vulgo verosímil, burilando projeções da nossa própria extensão fantasmal, “eu quero é uma verdade inventada” – o autor perverte qualquer intuito mitificador do estruturado e do real, que não é senão performance dele, postulando a oxigenação da imaginação sobre o circunstancial, rarefeita a tarefa mimética, seguindo ainda a máxima machadiana de elucubração dramática (“O melhor drama está no espectador”), atinente, portanto, ao próprio palco por excelência da mesma, o eu (e assim, tendo em conta a estética da receção, vai o sentido em viés do aparente simplismo negacionista da historicidade). E, na senda de uma perspetivação do lugar da literatura, evoca René Char, afirmando-lhe a autonomia, como aquele em Feuillets d’H’ypnos, “A adoração dos pastores já não é útil ao planeta”. Portanto, sob este aviso à navegação, partimos em rumo a esse eu definível em traços, se não universais, universalizantes, ou não fosse o propósito, a haver algum, de concentração nessa estranha especulação viva, o ser. E se a receção infletirá, porventura, flutuações de amplitude vária, depreende-se uma certa impessoalidade, cujo princípio permite, por sistema, proximidade inatacável. Destarte, talvez estes sujeitos, assim, não sejam totalmente livres no aditamento da sua sua identidade, refratária (p. 51) apenas por decreto do gesto em crescendo. São, antes, constatações das súbitas declinações de um eu, meros “Projetos”, simples “Role-Playing”, como, de resto, a ficção, desajuizada e desafetada, que, macerando, ilude, mas não resolve, (e a quarta citação é de Juan José Millás, sumarizando: há vidas, como certos romances, que só começam lá para diante); como alguém que de facto acorda para um sonho: “Acordo, acordo sempre de tudo, mas nunca desperto de nada” (Domingues, 2016: 40). E nunca ninguém disse que a simulação da vida não seria salvo conduto para a atravessar. Mesmo ciente da sua magnificente inutilidade. Mas, assim, não se tornará o apelo suicidário, ele mesmo, um gesto? Encenando a vida, encenar-se-á, por júbilo, a morte? Segundo Guimarães Rosa, morremos apenas para fazer prova de vida, pelo que, encenando a morte, prova-se um resquício salvífico de ligação concreta àquela.

A metalinguagem usurpa o texto, convocando a performatividade ficcional dedilhada já no título,   espelhando múltiplas vezes a intangibilidade do sujeito, a digitalização ou a cibernetização dos indivíduos, na posse da faculdade de recriação mas oclusão de si pela invisibilidade. A impraticabilidade do excesso, portanto, o transtorno da prolixidade, a solidão (os referentes deste textos são normalmente descritos como ilhas ancoradas no medo, anacoretas simuladores, atores, desno[rt/m]eados – “Chamai-me o que vos aprouver”, apresenta-se o dizedor ismaelita – oficiantes, portanto, de ritos performativos por hábito. Assim, e o que é a literatura, também performada por hábito? Atente-se, pois, na heresia apetecível e talvez, hoje, imperdoável, malgrado a contradição : “O coração era feito de lírica” e “A espontaneidade fugiu”. De facto, “É preciso pensar: atirar-me e cair” (Domingues, 2016: 9).

Assim sendo, esta intromissão do drama na ficção, da lírica na narrativa, além de reportar uma belíssima harmonização de linguagens, problematiza a literatura, tal como o cosmos, desviando os olhos clínicos da harmonia desinfetada do retilíneo, de forma que a lírica, a metáfora e a alegoria possam, elas mesmas, ser construídas sobre um real ainda que este não seja definido e reproduzido, antes coado e transposto. A figura dos fazedores de mitos, assim, é também reclamada, procura-se-lhes o rosto, alabastrino, em referentes como a pistola carregada de verdade, bela, mas incapaz, em “ A natureza de um escritor”, ou por detrás dos minúsculos mundos criados “à espera de uma oportunidade para emergirem ou falharem”, em “Questões de autoria” (Domingues, 2016: 16), ou no ventríloquo e seu boneco, em “Ventriloquismos”.

Abstratizante e pantomimo, o texto ambigua-se propositadamente, como a vestimenta nefasta de um momo muito duvidoso da sua própria existência (são, a propos, evocados Pessoa, Álvaro de Campos, Kafka, entre outros ), olvidado que se encontra de um passado (comum) em desistência.

A primeira performance é um monologo de apresentação, isto é, multiplicação de possibilidades, também elas do foro metaliterário, na azeda perceção das meninas que seguram a trela do cãozinho  institucional. Que posso eu? É uma questão maior do que parece: o que pode este autor, o que pode qualquer autor, se é que a autoria pode, sequer, alguma coisa? O pior é sempre o tempo, a artimanha cíclica, a morte, mas também o real, o histórico, acenando sempre.  E se há quem sonhe com Bruegel, este autor sonha com Carolee Schneeman, artista performativa, dando  o mote ao princípio de vida ficiconável/ ficção vivenciada.

Mas, e repensados os Dramas, é irrevogável a sensação de fermentação dos sentidos sobre o mesmo, e viável a leitura de uma persistência maior, dada a reconfiguração das categorias da narrativa aí expostas tão sólida e sarcasticamente, veladas ante a máscara. A questão do autor, a problematização tormentosa do tempo e do espaço, a disposição das personagens (e sujeitos poéticos), bem como a singularidade da ação provocam esta conjetura maior e saciável por levar a outra porta de entrada. De facto, também os géneros, e até os modos, na medida em que as suas idiossincrasias e linguagens se cruzam, são permeáveis às averiguações félidas e manhosas deste manipulador. Jogo performativo entre a ficção e a realidade, a teoria e a prática, (recorda, pelo tema, o jogo de Sara de Maria Velho da Costa), esta simulação espelha-se no gesto aparentemente autónomo das personagens, tornando seus coadjuvantes as suas marionetas. A escrita é, de facto, obra de manipulação. E que distinto ofício o de André Domingues.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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